O início dos anos 90 foi responsável por levar Dragon Ball e Ranma ½ a patamares globais, mas nem tudo que saiu dos estúdios japoneses virou ouro. Em meio à avalanche de hits, muitos títulos shonen chegaram a ocupar espaço na programação e sumiram sem deixar saudade.
Selecionamos sete produções que fracassaram por roteiros frouxos, protagonistas sem carisma ou animação aquém do padrão da época. É o tipo de maratona que serve mais como curiosidade histórica do que como entretenimento.
Quando a “era de ouro” também gerava desastres
Para organizar o fiasco, reunimos abaixo os animes na ordem apresentada pelos registros da década. Cada um traz o número de episódios e o motivo pelo qual virou sinônimo de decepção entre fãs de shonen dos anos 90.
- Ninku (1995-1996) – 55 episódios
Ambicioso no mangá, o herói dominador de ventos ganhou traço estranho na tela, pouca personalidade e zero empatia. Nem o envolvimento do Studio Pierrot salvou os 55 capítulos de serem considerados longos demais e mal desenvolvidos. - Eat-Man (1997) – 12 episódios
A proposta de um aventureiro que engole objetos para reproduzi-los soava promissora. A adaptação da Studio DEEN, porém, fugiu do tom fantástico do impresso e entregou uma série sisuda, sem ritmo e com protagonista apático. - Sakon, o Ventríloquo (1999-2000) – 26 episódios
Misturar investigação criminal e bonecos parecia ideia fresca, mas a TMS Entertainment esqueceu de criar enigmas instigantes. O resultado foi um “detetive” cujos casos se arrastam por vários capítulos, longe da agilidade vista em Detective Conan. - Jungle King Tar-chan (1993-1994) – 50 episódios
Paródia de Tarzan marcada por humor físico e piadas datadas. Ação repetitiva, animação sem brilho e um protagonista de atitudes controversas fizeram o público mudar de canal rapidamente. - Wild Cardz (1997) – 2 OVAs
Dois episódios bastaram para mostrar que misturar garotas mágicas e lutas shonen sem enredo é péssima receita. Falta contexto, diálogo e qualquer rastro de originalidade que justifique revisitar o Card Kingdom. - Super Yo-Yo (1998-1999) – 22 episódios
Antes de Beyblade virar febre, a Xebec tentou vender ioiôs com esta série. O roteiro raso e o herói sem graça não empolgaram nem crianças em Singapura, muito menos no Japão. - Apocalypse Zero (1996) – 2 OVAs
Violência extrema, monstros grotescos e estética desconfortável. O material era tão repelente que as oito continuações planejadas foram canceladas sem explicação oficial.
Por que tantos tropeços na mesma década?
A principal dificuldade desses títulos foi competir com franquias já consolidadas. Enquanto Toriyama comandava desejos de Shenlong, tema explorado na lista de desejos concedidos por Shenlong, estúdios menores apostavam em fórmulas experimentais ou simplesmente mal executadas.
A pressa para lançar algo “diferente” sem teste de público levou a roteiros pouco polidos. Muitos criadores optaram por adaptar mangás ainda em publicação, gerando finais corridos ou abertos demais, o que afastou audiência e patrocinadores.
Estúdios, diretores e as escolhas criativas
Outro ponto crítico foi a distância entre a linguagem do papel e a da televisão. Pierrot, DEEN e TMS, nomes respeitados, não evitaram que roteiristas diluíssem o humor ou a fantasia originais. Em Ninku, por exemplo, o diretor Masami Anno não conseguiu traduzir a dinâmica de batalha que cativava leitores.
No caso de Apocalypse Zero, a Ashi Productions apostou tudo no choque visual, ignorando construção de mundo e empatia. Já Wild Cardz, produzido pela BMG Victor, sofreu com o enredo praticamente inexistente, consequência da tentativa de condensar um mangá inteiro em duas partes.
Imagem: Divulgação
Legado involuntário e curiosidades
Embora esquecidos pelo público geral, esses fracassos serviram para balizar futuros projetos. Super Yo-Yo, por exemplo, pavimentou o caminho para brinquedos competitivos em anime, ideia lapidada por Beyblade em 2001.
Até hoje, colecionadores buscam VHS raros de Apocalypse Zero ou células originais de Jungle King Tar-chan, movidos pela curiosidade em ver até onde a década 90 permitiu que a ousadia chegasse.
Vale a pena assistir hoje?
Revisitar esses sete shonen dos anos 90 só faz sentido para quem estuda a evolução do gênero ou quer entender como nem toda aposta da Weekly Shonen Jump vira sucesso. A qualidade de animação, som e ritmo denuncia o tempo de produção e pode cansar espectadores acostumados ao padrão de séries atuais como Jujutsu Kaisen, analisada recentemente pelo Salada de Cinema.
Para maratonar, o ideal é assistir de forma espaçada, encarando cada título como registro histórico e não como entretenimento de fim de semana. A exceção pode ser Ninku, que ainda mantém pequena base de fãs e curiosos, embora o visual datado pese.
No fim, esses animes funcionam como alerta sobre a importância de roteiro sólido e personagens cativantes. Sem esses dois pilares, nem o estúdio mais famoso consegue livrar uma série do limbo da memória coletiva.



