Desde que Jack abriu os olhos na praia, em 2004, o telespectador procura incansavelmente uma experiência parecida. Lost virou parâmetro para qualquer enigma televisivo, seja por seu elenco carismático, seja pela arquitetura narrativa que misturava drama, ficção científica e misticismo.
Quase 16 anos após o episódio final, ainda revemos a série para revisitar a ilha, mas uma leva de produções tentou herdar a coroa. A lista a seguir relembra onze apostas – todas carregadas de bons atores, ideias ambiciosas e criadores conhecidos – que pintaram como “o próximo Lost” e, por diferentes razões, não alcançaram o mesmo impacto.
Por que ainda buscamos o “novo Lost”?
A resposta passa pelo formato “mystery box”, popularizado por J.J. Abrams: roteiros que entregam peças de um quebra-cabeça ao longo dos capítulos, convidando o público a teorizar. A sensação de comunidade criada em fóruns e redes sociais reforça essa busca – e o Salada de Cinema sabe bem disso ao acompanhar debates intermináveis sobre cada pista.
As 11 apostas que quase chegaram lá
- Travelers – 3 temporadas
Criação de Brad Wright, o mesmo de Stargate. A trama coloca Eric McCormack à frente de um elenco que precisa “encarnar” corpos do passado para consertar o futuro, ideia sustentada pela química dos protagonistas e pelo roteiro que alia ficção científica a dilemas morais. Cancelada antes da prometida virada na quarta temporada, deixou fãs órfãos de respostas.
- Yellowjackets – 2 temporadas (em andamento)
Com Melanie Lynskey e Juliette Lewis, o drama alterna linha temporal entre o presente e o passado, mostrando sobreviventes de um acidente aéreo no Canadá. O trabalho visceral do elenco juvenil contrasta com a trilha sonora noventista, enquanto roteiristas brincam com elementos que sugerem canibalismo e culto. As teorias fervilham, mas o fenômeno ainda é modesto perto da série da ABC.
- Person of Interest – 5 temporadas
Jonathan Nolan escreve e Michael Emerson – saudoso Ben Linus – interpreta o bilionário Finch. A inteligência artificial “Máquina” rouba a cena, virando quase um personagem místico. A pegada de vigilância em massa, somada às viradas de roteiro, mantém a tensão; porém, o tom procedural afastou parte do público que buscava enigmas à moda Lost.
- Fringe – 5 temporadas
Anna Torv, Joshua Jackson e John Noble formam um trio afinado que investiga fenômenos “de fronteira”. Doze roteiristas liderados por J.H. Wyman criam um emaranhado de realidades paralelas e símbolos ocultos. Mesmo com fãs devotos, a audiência irregular impediu a série de explodir, tornando-a hoje um tesouro cult.
- Silo – 1 temporada (continuará)
Rebecca Ferguson carrega o drama distópico baseado na trilogia de Hugh Howey. Tudo acontece dentro de um abrigo subterrâneo de 144 níveis, cenário claustrofóbico que acentua a performance do elenco. A conspiração sobre a origem do silo lembra os segredos da ilha, mas ainda falta tempo de tela para atingir o patamar de culto.
- The OA – 2 temporadas
Brit Marling, também corroteirista, brilha como Prairie, jovem que ressurge após anos desaparecida. A produção explora dimensões paralelas, coreografias místicas e um grupo de apoio improvável. O cancelamento abrupto, porém, congelou um cliffhanger que prometia elevar a narrativa a um nível épico.
- From – 2 temporadas (renovada)
Com direção de Jack Bender – veterano de Lost – a série apresenta Harold Perrineau comandando moradores de uma cidade cercada por criaturas. O roteiro valoriza o elenco ao enfatizar o pânico noturno e a esperança diurna. Embora a crítica tenha abraçado (93 % no Rotten Tomatoes na segunda temporada), a produção segue escondida no catálogo da MGM+.
- The Leftovers – 3 temporadas
Justin Theroux e Carrie Coon conduzem a adaptação do romance de Tom Perrotta, sob supervisão de Damon Lindelof – cocriador de Lost. O recorte dramático sobre luto coletivo, mais do que o mistério da “Partida Repentina”, destaca interpretações intensas. A história fechada em três anos não deu margem para o burburinho prolongado que marca o fenômeno da ilha.
Imagem: Divulgação
- Manifest – 4 temporadas
Josh Dallas e Melissa Roxburgh lideram o elenco de passageiros que pousam cinco anos no futuro. A série usa “chamados” sobrenaturais para mover a trama, mas a comparação direta com Lost – voo 828 versus 815 – ofuscou a originalidade. Mesmo concluindo o arco na Netflix, carrega o rótulo de derivada.
- Dark – 3 temporadas
Baran bo Odar dirige um elenco alemão afinado, com destaque para Louis Hofmann e Lisa Vicari, em um enredo sobre viagens no tempo sem pontas soltas. A complexidade matemática dos ciclos temporais, mais a fotografia sombria, conquistou críticas entusiasmadas, mas a barreira da língua e o quebra-cabeça denso limitaram o alcance mainstream.
- Lost – 6 temporadas
Fechando a lista, o próprio fenômeno que originou a busca. Matthew Fox, Evangeline Lilly e Terry O’Quinn entregaram performances marcantes, enquanto Lindelof e Carlton Cuse arquitetavam flashbacks, flash-forwards e simbolismo religioso. A série redefiniu a TV aberta e colocou o “mystery box” no mapa.
Como cada elenco tentou sustentar o mistério
O fio condutor dessas produções é a aposta em personagens à flor da pele. De Harold Perrineau enfrentando monstros em From a Brit Marling metafísica em The OA, a entrega dos atores é o ponto alto. Sem um elenco capaz de humanizar teorias quânticas ou sociedades subterrâneas, o público dificilmente embarcaria nessas tramas.
É curioso notar que vários intérpretes já tinham passagem por grandes títulos. Michael Emerson migrou de vilão enigmático em Lost para gênio recluso em Person of Interest, enquanto Rebecca Ferguson, consagrada no cinema de ação, aceitou o confinamento dramático de Silo. Essa reciclagem de talentos reforça a impressão de “segurança” que emissoras e streamings buscam quando desejam criar o próximo grande hit.
O papel dos criadores e roteiristas
Na televisão de alto conceito, a visão autoral faz toda a diferença. Damon Lindelof leva o trauma coletivo de Lost para The Leftovers; Jonathan Nolan transforma debates sobre algoritmos em paranoia de estado; Brad Wright olha para viagens no tempo com o mesmo entusiasmo que tinha em Stargate. Ainda assim, a pressão por audiência precipita cancelamentos – caso emblemático de Travelers e The OA, que terminaram antes do clímax prometido.
A disponibilidade de plataformas também pesa. From, por exemplo, encontra dificuldade para explodir devido à distribuição limitada, realidade diferente de Dark, que se beneficiou do alcance global da Netflix. Produções que não viram fenômeno imediato acabam entrando em listas de séries injustiçadas, guardadas no coração de nichos fiéis.
Vale a pena maratonar?
Se a curiosidade por enigmas faz parte do seu DNA de espectador, todas as séries citadas oferecem algo valioso: atuações seguras, direções inventivas e roteiros que estimulam teorias. Nem todas entregam todas as respostas, mas cada uma amplia o repertório de quem, até hoje, escuta o barulho do monstro de fumaça quando apaga as luzes.









