Entre lançamentos diários e catálogos que parecem infinitos, joias televisivas acabam soterradas pelo excesso de oferta. Ainda assim, há produções que conquistam pela combinação de atuações afiadas, direção inventiva e roteiros que fogem do óbvio.
Do romance coreano que abriu o ano à volta do advogado que trabalha dentro de um Lincoln Navigator, listamos dez séries que, apesar da pouca repercussão, entregam entretenimento de primeira linha. Confira por que cada título merece um lugar na sua fila de maratonas.
Can This Love Be Translated? aposta em química inegável e direção leve
Lançado em janeiro na Netflix, o K-drama Can This Love Be Translated? acompanha o intérprete Joo Ho-jin (Kim Seon-ho) lidando com a ascensão da atriz Cha Mu-hee (Go Youn-jung). A criativa dupla de criadoras Hong Jeong-eun e Hong Mi-ran opta por uma abordagem mais ensolarada do que o habitual no gênero, investindo em diálogos espirituosos e ritmo ágil.
O trabalho de câmera valoriza olhares e gestos sutis, fundamental para que a química entre Kim e Go salte da tela. A leveza da direção se reflete na montagem, que intercala bastidores de gravações e cenas intimistas sem perder o tom de comédia romântica. Para quem acompanha a onda de doramas e quer fugir dos enredos trágicos, trata-se de um sopro de ar fresco — algo que dialoga com o interesse crescente por novelas asiáticas, como mostra esta lista de 20 K-dramas esportivos que marcaram época.
St. Denis Medical e Shrinking confirmam a força da comédia de personagens
Na NBC, St. Denis Medical chega à terceira temporada apostando na fórmula mockumentary. A direção de Ruben Fleischer usa planos-sequência para explorar a bagunça do hospital subfinanciado, enquanto roteiro de Eric Ledgin extrai humor das limitações de recursos. Wendi McLendon-Covey lidera o elenco com timing impecável, e Allison Tolman oferece um contrapeso dramático que evita a caricatura.
No Apple TV+, Shrinking retorna para o terceiro ano elevando o patamar. Bill Lawrence dirige com a energia que marcou Ted Lasso, mas dá espaço a momentos silenciosos em que Jason Segel e Harrison Ford discutem luto, ética e afeto. O roteiro, assinado também por Brett Goldstein, equilibra piada fácil e análise psicológica, gerando um resultado empático e surpreendentemente agridoce.
Ambas as séries provam que o humor funciona melhor quando ancorado em personagens tridimensionais, tendência que o Salada de Cinema já destacou em análises sobre produções que combinam comédia e reflexão, como certos títulos limitados de direção afiada.
School Spirits, Will Trent e High Potential equilibram suspense e emoção
Em School Spirits, da Paramount+, Peyton List interpreta Maddie Nears com vulnerabilidade incomum em séries teen. A direção de Hannah Macpherson evita sustos fáceis e investe em atmosfera, criando tensão enquanto questiona o que significa amadurecer preso a um colégio, mesmo após a morte.
Imagem: Divulgação
Na ABC, Will Trent foge do padrão “caso da semana”. A câmera acompanha Ramon Rodriguez em closes desconfortáveis que reforçam o trauma do personagem, enquanto roteiristas Inda Craig-Galván e Karine Rosenthal costuram tramas pessoais ao procedural policial. O resultado é uma narrativa que avança sem sacrificar a autonomia de cada episódio.
Também na ABC, High Potential ganha fôlego na segunda temporada. A química entre Kaitlin Olson e Daniel Sunjata transforma investigações em duelo de egos, e a showrunner Todd Harthan corrige o ritmo irregular do primeiro ano, apostando em sequências mais contidas que deixam o elenco brilhar.
Starfleet Academy, Ponies e The Lincoln Lawyer concluem a seleção com versatilidade
No universo de Jornada nas Estrelas, Star Trek: Starfleet Academy transporta o espectador para o século 32, apresentando cadetes em reconstrução após a catástrofe vista em Discovery. Alex Kurtzman dirige o piloto com escala cinematográfica, mas reserva close-ups para Holly Hunter, cuja presença segura o drama institucional.
Já Ponies, novo suspense de época da Peacock, mistura espionagem e luto. A co-criadora Susanna Fogel equilibra tons ao lado dos roteiristas Carolyn Cicalese e David Iserson, enquanto Emilia Clarke e Haley Lu Richardson demonstram química que lembra clássicos da espionagem — um prato cheio para quem curte thrillers capazes de fazer True Detective parecer passeio no parque.
Por fim, a Netflix entrega a quarta temporada de The Lincoln Lawyer. David E. Kelley conduz episódios que mantêm o charme do protagonista Mickey Haller, vivido por Manuel Garcia-Rulfo, mas adiciona novas camadas ao mostrar o personagem lutando para equilibrar sobriedade e ética. A escolha de filmar boa parte das cenas dentro do famoso Lincoln Navigator, agora quase um coadjuvante, reforça a identidade visual da série e valoriza a direção de fotografia ensolarada de Los Angeles.
Vale a pena assistir a essas produções escondidas?
Se a disputa por atenção deixou essas dez séries fora do radar, a qualidade de atuação, direção e roteiro faz delas apostas certeiras. Entre comédias que abraçam o absurdo, dramas que repensam fórmulas policiais e ficções científicas que expandem universos consagrados, há conteúdo suficiente para manter qualquer cinéfilo — ou seriador — ocupado por bons meses.



