Virgin River – Temporada 7 chegou à Netflix depois de um hiato de um ano e quatro meses com promessa de resolver uma penca de pendências deixadas pelo sexto ano. A expectativa era alta: adoção de Mel e Jack, investigação de Doc, sumiço de Charmaine e o nascimento do bebê de Lizzie.
O resultado, porém, oscila demais. Quando a temporada abraça o drama familiar, encontramos o coração da série. No restante, o roteiro parece atirar para todos os lados, diluindo impacto e ritmo. A seguir, analisamos as principais virtudes e tropeços do sétimo ano, sempre de olho nas atuações, no trabalho da direção e nas escolhas dos roteiristas.
Enredo disperso compromete a coesão
Logo de cara, o roteiro assinado pelo time comandado por Sue Tenney tenta equilibrar mais de dez frentes narrativas. Além do arco central de Mel (Alexandra Breckenridge) e Jack (Martin Henderson), há a investigação médica de Doc (Tim Matheson), o desaparecimento de Charmaine (Lauren Hammersley), a proposta de Mike para Brie e, claro, todo o impasse amoroso envolvendo Brie, Brady e o próprio Mike.
A direção alterna essas tramas sem transições suaves. Em vários episódios, o espectador é jogado de uma cena de tensão hospitalar para um triângulo amoroso sem qualquer respiro, o que evidencia problemas de montagem. Essa sensação de “macarrão no teto” — ideias lançadas para ver se grudam — faz a temporada perder foco e torná-la, no geral, a mais irregular da série baseada nos romances de Robyn Carr.
Quando a paternidade brilha, Virgin River reencontra o coração
Apesar da bagunça estrutural, dois arcos ligados à paternidade lembram o público por que Virgin River conquistou uma base tão fiel. O primeiro acompanha Mel e Jack decidindo se estão prontos para adotar. A dupla vive momentos ternos, mas também conflitos autênticos, nunca soando forçados. Breckenridge entrega nuances na insegurança de Mel, enquanto Henderson mostra maturidade de Jack ao encarar as frustrações do passado.
A segunda história potente envolve Lizzie (Sarah Dugdale) e Denny (Kai Bradbury). Considerados um dos casais menos carismáticos até então, eles surpreendem com cenas carregadas de empatia após o parto complicado de Lizzie. Dugdale, inclusive, protagoniza o melhor momento dramático da temporada, segurando a câmera em close enquanto desaba no chão com o bebê nos braços. Uma sequência digna de nota pela verdade emocional impressa ali.
Atuações que sustentam o sétimo ano
Quando o texto falha, cabe ao elenco salvar o dia. É o que faz Teryl Rothery no arco sobre o tratamento de câncer de Muriel. Longe de cair no chamado “pornô de trauma”, a veterana imprime dignidade e leveza, humanizando cada consulta, cada olhar. A interação com Doc, por sinal, rende alguns dos diálogos mais afiados da temporada.
Por outro lado, boa parte do triângulo Brie-Brady-Mike não engrena. Zibby Allen, Marco Grazzini e Ben Hollingsworth já provaram química em anos anteriores, mas aqui esbarram em falas truncadas e motivações rasas. A sensação de novela mal resolvida contamina essas sequências, impossibilitando o público de escolher um lado. Até Preacher (Colin Lawrence) sofre com subtrama rasa, reforçando a tese de que menos teria sido mais.
Imagem: Divulgação
Roteiro e direção tropeçam, mas entregam momentos de ouro
À frente dos episódios, a direção mantém a marca registrada de cenários pitorescos e fotografia calorosa, mas peca na cadência. Ainda assim, quando a escrita consegue respirar, surgem joias que lembram o melhor de Virgin River. O clímax do arco de Lizzie, por exemplo, é montado com cortes que intensificam a ansiedade do pós-parto.
Também vale citar a cena íntima entre Doc e Hope que acena para um possível derivado focado no casal — ideia que, se bem conduzida, poderia repetir a química impecável vista entre Elle Fanning e Michelle Pfeiffer no longa “Margo Está Com Problemas de Dinheiro”. Esses lampejos provam que a sensibilidade da sala de roteiristas ainda existe; só precisa de direção mais firme.
Vale a pena assistir Virgin River – Temporada 7?
No cômputo geral, a sétima temporada recebe nota 5/10: nem desastre completo, nem retorno triunfal. Quem acompanha a série desde 2019 deve encontrar conforto nos arcos de paternidade e em atuações pontuais. Já o espectador casual talvez se irrite com a quantidade de subtramas iniciadas e largadas pelo caminho, caso do enigmático sumiço de Charmaine.
A boa notícia é que Virgin River já foi renovada. Com filmagens previstas para abril de 2026, a equipe tem tempo para analisar os tropeços e repetir apenas o que funcionou. Se replicar a honestidade emocional vista nas histórias de Mel, Jack e Lizzie, há esperança de que o próximo ano recoloque a acolhedora cidade no eixo.
Enquanto isso, Salada de Cinema seguirá de olho, torcendo para que a oitava leva foque menos em reviravoltas aleatórias e mais no drama humano que fez do título um fenômeno da Netflix.









