Scream 7 chega aos cinemas carregando o peso de uma produção turbulenta e a missão de manter viva a franquia inaugurada em 1996. A troca de diretores, a saída de nomes queridos pelo público e o retorno de veteranos transformaram o set em um verdadeiro parque de diversões – só que com facas afiadas.
Entre refilmagens, rumores e troca de lideranças, Kevin Williamson – roteirista do clássico original – volta agora também como diretor, tentando provar que ainda sabe onde o terror pulsa. A seguir, o Salada de Cinema destrincha como cada decisão de bastidor repercute na tela e no desempenho dos atores.
O legado de Radio Silence e a ideia que ficou no papel
Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, dupla responsável pelos bem-sucedidos Scream (2022) e Scream 6 (2023), pretendiam partir para um capítulo “para lá de brutal”. Conforme revelaram à EW, o objetivo era testar o quão sombrio a franquia poderia ficar, encolhendo o escopo depois da aventura por Nova York e mantendo o espectador refém minuto a minuto.
Esse conceito nunca passou do estágio de conversa; antes de convidar roteiristas, a dupla trocou Ghostface por Abigail (2023). Ainda assim, a provocação “Scream 7 vai te detonar” paira sobre o novo longa como uma possibilidade frustrada – comparação inevitável para quem acompanhou o tom crescente de violência nos dois filmes anteriores.
Kevin Williamson e o desafio de assumir o leme
Com a cadeira de direção vazia, Christopher Landon chegou a ser anunciado, mas abandonou após a saída de duas protagonistas. Coube a Kevin Williamson, criador dos personagens, reescrever o roteiro e comandar as filmagens. A troca tardia fez Scream 7 parecer, em alguns momentos, uma colcha de retalhos: há ecos do humor metalinguístico original, misturados a uma urgência que tenta emular o plano “ultra contido” imaginado por Radio Silence.
Williamson concentra a narrativa em Sidney Prescott, vivida novamente por Neve Campbell depois de ficar fora de Scream 6 devido a disputa salarial. O roteiro introduz a filha adolescente da protagonista como nova isca de Ghostface, recurso que busca renovar o perigo sem depender das irmãs Carpenter, Sam e Tara, ausentes após a demissão de Melissa Barrera e conflitos de agenda de Jenna Ortega.
Mesmo lidando com feridas abertas, o cineasta arma sequências de tensão eficientes em espaços reduzidos – a cena de perseguição em uma casa suburbana durante blecaute é exemplo claro desse retorno às origens. Porém, a montagem acelerada entrega pouco impacto real, refletindo a pressa de quem precisou reorganizar todo o tabuleiro.
Atuações: o respiro de Neve Campbell e o vazio deixado por Barrera e Ortega
Neve Campbell assume novamente a franquia com a naturalidade de quem conhece cada curva da personagem. A atriz dosa fragilidade e firmeza, principalmente ao dividir cena com a jovem intérprete da filha – cujo nome o estúdio mantém em sigilo até a estreia para preservar mistérios.
Courtney Cox, agora em participação especial, acerta o timing cômico de Gale Weathers, mas sua presença reduzida denuncia mais uma mudança de roteiro: algumas falas claramente foram enxertadas para justificar sua volta depois de rumores de que também ficaria de fora.
Imagem: Paramount Pictures
Por outro lado, a ausência de Melissa Barrera e Jenna Ortega pesa. Depois de dois filmes posicionando Sam e Tara como sucessoras naturais de Sidney, vê-las fora de cena cria um descompasso emocional. A química das irmãs era motor narrativo e, sem ela, os coadjuvantes não suprem o buraco – embora tentem, com entrega honesta, manter o público envolvido.
Recepção fria: notas baixas e projeção de bilheteria alta
Mesmo com elenco enxugado e mudanças radicais, Scream 7 mira um fim de semana de estreia acima de 60 milhões de dólares, podendo quebrar recorde interno da série. O apetite do público por Ghostface continua vivo, ainda que os críticos não tenham o mesmo entusiasmo: o filme estacionou em 33 % no Rotten Tomatoes, a pior marca da franquia.
A discrepância revela dois fenômenos. Primeiro, a força da marca Scream, que se sustenta mesmo quando a execução vacila. Segundo, o interesse mercadológico em reciclar propriedades conhecidas – algo que também se observa em franquias como Matrix, cuja nova sequência continua em pauta, de acordo com o roteirista de The Matrix 5. No caso de Scream, cada facada rende discussão calorosa nas redes, impulsionando ingressos.
Fato é que, embora o longa traga set pieces bem coreografadas, falta coesão tonal. A promessa de explorar limites extremos – eco das conversas de Bettinelli-Olpin e Gillett – aparece diluída, talvez pela necessidade de reorganizar trama e personagens em tempo recorde.
Vale a pena assistir a Scream 7?
Para fãs de longa data, a simples chance de rever Sidney Prescott enfrentando um novo Ghostface já justifica o ingresso. Neve Campbell conduz o terror com a dignidade habitual e entrega momentos que lembram porque a personagem se tornou ícone pop.
Quem procura continuidade direta dos dois capítulos anteriores pode sair frustrado: a ausência das irmãs Carpenter altera o centro emocional da narrativa e, inevitavelmente, reduz o peso dramático. Ainda assim, o filme oferece suspense sólido e mortes criativas suficientes para uma sessão pipoca.
No saldo geral, Scream 7 funciona como reinício forçado que tenta honrar o passado enquanto prepara terreno para Scream 8 – já em desenvolvimento. Resta saber se, até lá, o estúdio seguirá o conselho inicial de Radio Silence e permitirá que a franquia realmente “vá até o fim” na violência que prometeu.



