Quem acompanha produções de terror sabe o quanto é raro encontrar uma série que mantenha o nível — ou eleve a régua — conforme os episódios avançam. Evil, exibida entre 2019 e 2023, fez justamente isso. A prova está nos números: 96% de aprovação no Rotten Tomatoes e um último ano avaliado com 100%.
O carimbo de aprovação de Stephen King ajudou a transformar o suspense sobrenatural em item obrigatório para fãs do gênero. Mesmo assim, a atração foi interrompida na quarta temporada, deixando diversas pontas soltas. A seguir, o Salada de Cinema revisita os principais méritos da produção.
História por trás de Evil
Evil acompanha a psicóloga forense Kristen, o seminarista David e o técnico Ben enquanto analisam casos que podem — ou não — envolver forças demoníacas. No primeiro ano, a narrativa segue o formato “caso da semana”, mas logo abandona essa estrutura para investir em episódios cada vez mais experimentais, flertando com o surrealismo.
A mudança de casa, da rede aberta CBS para o streaming Paramount+, foi decisiva. Com menos restrições, a série passou a exibir imagens perturbadoras e humor negro, recursos que potencializaram a atmosfera mórbida sem perder a leveza irônica destacada por King ao descrevê-la como “engraçada, espirituosa e muito afiada”.
Um trio principal afinado e coadjuvantes que brilham
Boa parte do encanto de Evil reside na química do elenco. Katja Herbers entrega uma Kristen incrédula, mas nunca cínica, equilibrando o cansaço da rotina familiar com o fascínio pelo inexplicável. Mike Colter, como David, funde fé e dúvida em cenas que evitam o estereótipo do “santo” e aproximam o personagem do público. Já Aasif Mandvi injeta pragmatismo científico como Ben, aliviando a tensão com comentários ácidos.
Apesar do foco no trio, a série sabe valorizar coadjuvantes. Figuras como o sinistro Leland de Michael Emerson ou a carismática Sheryl de Christine Lahti fogem de papéis decorativos e acabam transformadas em ímãs de atenção. O tempo de tela bem distribuído explica por que até personagens secundários ganharam status de favoritos entre os fãs.
Direção e roteiro: a assinatura de Michelle King
A showrunner Michelle King — que também dirige e assina roteiros — é a força motriz criativa de Evil. Sob seu comando, a trama transita entre horror religioso, crítica tecnológica e toques de comédia sombria, mantendo coerência interna. A alternância de tons nunca soa gratuita; cada susto ou piada serve ao arco maior, que questiona o limite entre fé, ciência e loucura.
Imagem: Divulgação
Outro mérito é o controle de ritmo. Mesmo com episódios autossuficientes, King planta pistas que germinam temporadas depois, recompensando o espectador atento. A audácia lembra a liberdade visual vista recentemente em Dark Matter, embora aqui a ousadia se concentre no macabro.
Da TV aberta ao streaming: como Evil ficou mais ousada
O salto criativo de Evil coincide com a migração para o streaming. Sem a limitação de horário nobre, a série passou a explorar temas mais viscerais, incorporando cenas de violência gráfica e discussões sobre dependência tecnológica, sempre com um viés quase tecnofóbico.
A direção de arte abraçou o bizarro: criaturas animatrônicas, filtros de cor nauseantes e trilhas sonoras dissonantes reforçam a sensação de pesadelo acordado. Esse pacote visual destacou a produção em um mercado saturado e a tornou comparável a clássicos como Arquivo X, mas com identidade própria.
Vale a pena assistir Evil?
Com quatro temporadas que evoluem em complexidade e coragem, Evil oferece um estudo de caso sobre como atores afiados, roteiro inteligente e direção sem amarras podem fazer a diferença no terror televisivo. A interrupção precoce é um desperdício, porém não diminui o valor do que foi entregue. Enquanto não surge um resgate por outra plataforma, vale maratonar a série — disponível no Paramount+, Netflix e Prime Video — e comprovar por que até Stephen King engrossou o coro de admiradores.



