A Apple TV+ já provou que sabe brincar com ficção científica: Severance satiriza escritórios, Foundation revisita a space opera e Silo encara um futuro pós-apocalíptico. No meio dessa coleção, a plataforma lançou Dark Matter, adaptação em nove episódios do romance de Blake Crouch que tenta preencher o espaço deixado pelo fenômeno Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo (Everything Everywhere All at Once).
Premiado com sete Oscars em 2023, o longa colocou a narrativa multiversal em outro patamar. Dark Matter não chega a replicar aquela inventividade absoluta, mas percorre caminhos parecidos ao apostar em realidades paralelas gigantescas, algumas povoadas por insetos colossais, outras devastadas por pandemias. Sempre, porém, com o pé fincado no drama de um homem que só quer voltar para a própria família.
Universo audiovisual de Dark Matter
A trama acompanha Jason Dessen, vivido por Joel Edgerton, sequestrado para fora de sua linha temporal e forçado a atravessar mundos alternativos. Esse percurso funciona como vitrine de possibilidades visuais: luzes estroboscópicas, corredores que se multiplicam, desolação digna de filme-catástrofe. Cada parada reforça a ambição dos realizadores em ilustrar, com clareza, a ideia de escolhas que se fragmentam em rotas infinitas.
Os diretores Jakob Verbruggen, Alik Sakharov, Roxann Dawson e Logan George se revezam na condução dos capítulos, o que ajuda a tornar o mosaico de universos ainda mais diverso. Enquanto Sakharov investe em clima sombrio, Dawson prefere acentuar o aspecto emocional das cenas em família. Essa alternância sustenta o ritmo da minissérie, que parte devagar, mas engrena quando Jason percebe a dimensão real de seu dilema.
Atuações que ancoram o caos multiversal
Para que o público se importe com tantas versões alternativas, Dark Matter valoriza o elenco. Joel Edgerton assume papel duplo – Jason e a variante Jason2 – e precisa diferenciar pequenas nuances de expressão a cada universo, reforçando o desgaste emocional de alguém em busca de casa. Sem exageros, a interpretação guia o espectador por sensações de autodescoberta e culpa, elementos já sugeridos pelo livro original.
Jennifer Connelly interpreta Daniela Dessen, esposa que vira bússola moral da história. Mesmo limitada a participações pontuais nos primeiros episódios, a atriz traz o peso necessário para que o desejo de retorno de Jason não soe abstrato. Connelly constrói Daniela com afeto contido, permitindo que o sofrimento do casal permaneça crível em meio ao espetáculo de realidades divergentes.
A dupla se beneficia de diálogos que evitam jargões científicos excessivos. Ao explicar conceitos de mecânica quântica, Blake Crouch – que também assina o roteiro – prefere metáforas simples, garantindo que qualquer um entenda o tamanho do perigo. Esse equilíbrio entre teoria e emoção remete à estratégia usada pela série Academia da Frota Estelar, que mistura física e relações pessoais sem afastar o público.
Imagem: Everett Collecti
Direção e roteiro: Blake Crouch em sintonia com Apple TV
Crouch atua como showrunner, condição que favorece uma adaptação fiel ao material literário. O encerramento da primeira temporada espelha o clímax do livro, guardando espaço para expansões inéditas no futuro. A decisão revela confiança da Apple TV+ no potencial de Dark Matter como franquia de ficção científica capaz de conviver com títulos já consagrados do serviço.
Nos bastidores, a divisão de direção citada acima contribui para evitar repetição visual. Ainda assim, a identidade de Crouch prevalece: obsessão por escolhas, medo de perder o controle e reflexões sobre destino. São temas recorrentes em sua obra literária, aqui ampliados por cenários ora claustrofóbicos, ora vastos, mas sempre conectados ao ponto central: a batalha íntima por conexões verdadeiras.
O que esperar da segunda temporada
Confirmada pela Apple TV+, a próxima leva de episódios seguirá por caminho totalmente original, já que o arco do livro foi concluído. A deixa está no final do nono capítulo, quando o multiverso se abre para outros personagens além de Jason. Isso promete ampliar o foco narrativo e aprofundar as consequências do caos causado pelas viagens dimensionais.
A renovação também sugere oportunidade de explorar melhor Amanda, personagem de Alice Braga que surge no episódio nove. Ela e outras figuras secundárias poderão dividir o protagonismo, tornando o cenário ainda mais plural. A expectativa é de que, com a base já cimentada, a série avance sem a lentidão inicial e se aproxime do impacto emocional que consagrou Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo.
Vale a pena assistir Dark Matter?
Dark Matter preenche um nicho: espectadores fascinados por multiversos que desejam, ao mesmo tempo, narrativas calcadas em laços familiares. Ao combinar efeitos práticos, direção variada e atuações contidas, a série sustenta interesse ao longo dos nove episódios e prepara terreno para histórias maiores. Para o Salada de Cinema, o projeto representa mais um passo da Apple TV+ rumo ao domínio da ficção científica no streaming.



