Anima chega embalado pela repercussão de sua première no SXSW e pelo encontro inusitado entre duas trajetórias em ascensão na ficção científica. De um lado, Sydney Chandler, que já havia transitado do psicodelismo de “Não Se Preocupe, Querida” ao noir de “Sugar”, volta a explorar dilemas futuristas. Do outro, Takehiro Hira, indicado ao Emmy por “Shōgun”, troca o épico samurai por um road movie minimalista.
Dirigido e roteirizado por Brian Tetsuro Ivie, estreante em longas de ficção, o filme aposta numa produção “feita à mão” — definição do próprio cineasta — para examinar temas como luto, legado e conexões humanas em meio à promessa tecnológica de armazenar consciências na nuvem. A seguir, analisamos as escolhas de elenco, direção e roteiro que moldam essa aposta indie de 90 minutos.
Da estrada ao interior: o enredo que impulsiona as emoções
À primeira vista, Anima parece um típico filme de estrada ambientado em futuro próximo. Beck (Chandler), engenheira recém-demitida de uma start-up, aceita conduzir Paul (Hira) até uma clínica onde ele pretende digitalizar sua mente antes da morte. O detalhe que transforma o trajeto em catarse emocional é a clássica Nissan 300ZX exigida por Paul e as paradas aleatórias que ele impõe para acertar contas com o passado.
Esse caminho físico espelha o percurso interno dos personagens: Beck busca entender o luto pelo pai músico, enquanto Paul corre contra o tempo para reparar laços familiares. A estrutura mantém tensão sem recorrer a cenas de ação, confiando no diálogo contido e nos silêncios carregados de significado.
Sydney Chandler e a vulnerabilidade de Beck
Chandler confirma seu domínio sobre protagonistas complexas. Em Beck, ela equilibra antissociabilidade e curiosidade quase infantil. Segundo a atriz, parte dessa natureza surgiu nos ensaios já durante as filmagens, pois a pré-produção foi adiada em uma semana para que ela resolvesse questões pessoais. A improvisação, portanto, se tornou ferramenta de descoberta.
O resultado é uma personagem que, mesmo fechada, não se furta a decifrar Paul — especialmente quando percebe o medo escondido por trás da serenidade dele. Chandler intercala olhares longos, explosões repentinas de frustração e breves respiros de humor, criando camadas que lembram a “cebola do Shrek” citada por ela própria em entrevista. Trata-se de um trabalho contido, mas cheio de micro-expressões que sustentam a credibilidade da trama futurista.
Takehiro Hira encontra poesia no silêncio de Paul
Se Chandler carrega a inquietação, Hira representa o contraponto estoico. Paul é um fabricante de botões solitário, dono de uma doença terminal e aferrado ao carro vintage como último refúgio de identidade. O ator revelou que o set teve “muita experimentação” e que cenas refeitas o fizeram repensar decisões: em suas palavras, “pensar demais não funciona; é preciso sentir”.
Imagem: Kebrado
A técnica dá frutos. Hira evita sentimentalismo fácil e constrói, no olhar distante, a culpa de quem se afastou da família. Quando finalmente verbaliza arrependimentos, o impacto é maior porque o público já percebeu a tempestade interna. O timing cômico ocasional — algo que Chandler adora destacar — suaviza a melancolia e impede o personagem de se tornar unidimensional.
A estreia de Brian Ivie e sua abordagem artesanal
Ivie, conhecido por documentários, quis capturar a história “enquanto filmava”. Por isso, boa parte da equipe veio recém-saída de escolas de cinema, o que poderia assustar veteranos como Hira. Contudo, o ator permaneceu e abraçou o espírito colaborativo, cenário que o diretor descreve como “cósmico e bonito”.
Gravado em 16 mm, o longa exibe textura granulada e paleta retrô-futurista reforçada por trilha sonora de folk japonês e rock alternativo dos anos 1990. O cineasta enviou aos protagonistas um CD player com músicas-guia — gesto que evoca memórias analógicas e reforça a ideia de preservar lembranças, tema central da narrativa. Esse cuidado lembra produções independentes recentes que mesclam humor ácido e sci-fi, como o elogiado “I Love Boosters” sci-fi criminal citado aqui no Salada de Cinema.
Vale a pena assistir a Anima?
Anima não busca grandiosidade visual nem reviravoltas mirabolantes. Sua força reside em atuações sensíveis, diálogo econômico e direção que privilegia detalhes — como a insistência de Paul em sintonizar o rádio ou o jeito de Beck acariciar peças de “pets eternos” robóticos. Para quem aprecia ficções científicas que questionam a condição humana mais do que a tecnologia em si, a viagem desses dois estranhos vale cada quilômetro.



