Chris Pine aproveitou a passagem pelo Festival de Sundance para cortar o barato dos fãs que ainda sonham com Star Trek 4. Questionado sobre a produção, o intérprete de James T. Kirk foi direto: “Vocês provavelmente sabem mais do que eu”. A declaração contrasta com o otimismo que ele demonstrava até o início de 2024, quando reforçava o desejo de revisitar o personagem quase dez anos depois de Além da Escuridão e Sem Fronteiras.
A fala seca do protagonista reaquece a discussão sobre como a quarta aventura da linha temporal criada por J. J. Abrams se tornou um verdadeiro enigma no calendário da Paramount. Afinal, elenco, direção e roteiristas já mudaram de mãos inúmeras vezes, mas nada saiu do papel. O Salada de Cinema reuniu os principais pontos para entender por que a nave Enterprise segue presa no hangar.
O desabafo no Sundance e o clima entre os atores
Uma simples pergunta em meio à maratona de entrevistas do festival bastou para expor o impasse. Pine, cordial porém visivelmente frustrado, reconheceu que não recebeu qualquer atualização concreta do estúdio. O máximo que ofereceu aos possíveis novos tripulantes foi o tradicional “divirtam-se, boa sorte, vida longa e próspera”.
A surpresa é que, até poucos meses antes, o ator comemorava a chance de viver um Kirk mais experiente, algo que poderia enriquecer seu arco dramático. Entre 2009 e 2016, ele mostrou uma combinação rara de carisma juvenil e responsabilidade crescente, elementos que ajudaram o reboot comandado por Abrams a se conectar com uma geração que não cresceu assistindo à série clássica.
Entre os colegas, Zachary Quinto mantém a porta entreaberta. Intérprete de Spock, ele lembra que o elenco original da franquia filmou até a terceira idade e reforça que histórias mais reflexivas caberiam bem na fase atual. Ainda assim, o ator também admite que a distância de quase uma década sem câmeras ligadas dificulta a retomada do projeto.
Atuações que conquistaram fãs e críticos
A força de Star Trek 4, caso saia, reside justamente na química consolidada entre Pine, Quinto e Zoe Saldaña. Em Sem Fronteiras, por exemplo, o trio aproveitou a direção de Justin Lin para mergulhar em sequências que equilibravam ação e desenvolvimento de personagem. Pine conduziu cenas de batalha com a mesma naturalidade com que debatia dilemas éticos na ponte de comando.
Quinto, por sua vez, traduziu o conflito interno de Spock entre a lógica vulcana e a emoção humana sem nunca parecer caricato. E Saldaña, como Uhura, roubou a atenção ao ampliar a relevância da oficial de comunicações, antes relegada a participações pontuais na série original. É justamente esse conjunto de atuações sólidas que torna a ausência de avanços em Star Trek 4 tão frustrante para os admiradores.
Karl Urban (Bones), Simon Pegg (Scotty) e John Cho (Sulu) completam um elenco que sempre demonstrou entrosamento em entrevistas e painéis, ajudando a vender ingressos mesmo quando a crítica dividia opiniões sobre os roteiros. O falecido Anton Yelchin, que viveu Chekov, também é lembrado com carinho nas poucas vezes em que o grupo ainda se reúne em eventos.
Direção, roteiros e o labirinto dos bastidores
A cadeira de direção passou por Quentin Tarantino, Noah Hawley e, mais recentemente, Matt Shakman, mas nenhum deles conseguiu levar adiante o quarto filme. Shakman, elogiado por WandaVision, chegou a receber sinal verde, mas a agenda apertada com Quarteto Fantástico forçou sua saída. No papel, Lindsey Beer e Geneva Robertson-Dworet assinariam o roteiro, mas revisões constantes minaram o cronograma.
Para complicar, a Paramount encomendou outro longa de ficção científica ambientado no mesmo universo, mas fora da linha Abrams, escrito por Jonathan Goldstein e John Francis Daley — dupla que trabalhou com Pine em Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes. A notícia, prevista para chegar aos cinemas só depois de 2025, aumentou a sensação de que Star Trek 4 virou item secundário na prancheta executiva.
Imagem: Divulgação
Essa indecisão lembra o que ocorreu com Cloverfield, outra franquia de ficção da Paramount que alterna reboots e continuações sem um fio condutor claro. A estratégia mantém a marca viva, mas confunde quem acompanha a saga de perto.
Franquia além de Star Trek 4: onde o elenco pode brilhar
Mesmo que Star Trek 4 não decole, a marca permanece onipresente. Séries como Discovery, Strange New Worlds e animações voltadas ao público jovem seguem alimentando a base de fãs. É possível, portanto, que Pine e Quinto apareçam em participações especiais, algo que Leonard Nimoy fez no primeiro filme de Abrams e que agradou puristas e novatos.
Outra possibilidade é o retorno apenas em formato de voz, abrindo caminho para crossovers na TV ou no streaming. A adaptação funcionaria bem, já que o ator de Spock domina o timbre contido do personagem, enquanto Pine mostrou versatilidade em dublagens anteriores. A própria Paramount+ reforça esse movimento ao apostar em conteúdo derivado, a exemplo de séries esportivas e dramas como Hardball — produção estrelada por Keanu Reeves que recentemente ganhou novo lar na plataforma.
Por fim, a idade dos atores, longe de ser obstáculo, pode adicionar camadas à narrativa. A ideia de acompanhar um Capitão Kirk mais maduro dialoga com a jornada de fãs que envelheceram junto com a franquia. Se bem explorado, o foco em dilemas políticos, alianças diplomáticas e questões internas da Frota Estelar daria fôlego para novos capítulos, mesmo com menos correria nos planetas alienígenas.
Vale a pena esperar por um novo capítulo?
No momento, o retorno de Chris Pine como Capitão Kirk parece estacionado em órbita, mas não completamente fora de rota. A energia que o elenco demonstrou nos três filmes anteriores continua sendo o principal trunfo. Qualquer sinal verde que reúna Pine, Quinto e companhia ainda desperta expectativa, especialmente pela forma como eles conectaram legado e modernidade.
Do ponto de vista artístico, Star Trek 4 ofereceria uma chance rara de observar performances amadurecidas, algo que rendeu ótimos frutos à franquia original nos anos 1980 e 1990. A química comprovada do elenco, aliada à possibilidade de roteiristas explorarem conflitos mais complexos, mantém vivo o apelo do projeto.
Enquanto o estúdio decide se a Enterprise levanta voo novamente, resta ao público revisitar a trilogia recente — ou embarcar nas séries atuais — para matar a saudade. Se e quando Star Trek 4 sair do papel, a simples presença de Chris Pine no comando da nave deve bastar para justificar a permanência na sala de cinema.



