O suspense sobrenatural Undertone chegou aos cinemas oito meses após ser exibido no Fantasia International Film Festival e já se tornou assunto na comunidade cinéfila. Enquanto a bilheteria doméstica ultrapassa confortáveis US$ 4,3 milhões, a recepção no Rotten Tomatoes mostra uma divisão rara: 76 % de aprovação da crítica contra apenas 52 % do público.
A discrepância acende um alerta curioso: como um filme de custo enxuto – apenas US$ 500 mil – consegue conquistar especialistas e, ao mesmo tempo, provocar tédio em parte do público? A seguir, o Salada de Cinema destrincha pontos‐chave dessa jornada ruidosa.
Recepção dividida no Rotten Tomatoes
Antes mesmo da estreia comercial, Undertone já ostentava um respeitável 76 % entre os críticos cadastrados no Rotten Tomatoes. O consenso ressaltava a atmosfera imersiva criada pelo design de som e pelo mistério em torno das gravações que a protagonista investiga.
Com as luzes das salas finalmente abertas ao grande público, a maré mudou. Espectadores concederam apenas 52 % de aprovação, rotulando o longa como “sem propósito” ou “arrastado”, mesmo com duração enxuta de 84 minutos. A quebra de expectativa talvez explique parte da resistência: quem foi atrás de sustos constantes encontrou, em vez disso, um terror de clima e paranoia.
Lucro expressivo para um orçamento enxuto
Se a pontuação popular decepciona, o caixa faz o estúdio sorrir. Produzido por meros US$ 500 mil, o filme arrecadou US$ 4,3 milhões nos EUA em pouco tempo, tornando‐se uma das operações mais lucrativas da distribuidora em 2026. O feito coloca a obra ao lado de outros títulos da A24 que vêm surpreendendo nas projeções.
Além disso, Undertone representa o segundo acerto de bilheteria do estúdio no ano, acompanhando o desempenho saudável de Pillion, protagonizado por Harry Melling e Alexander Skarsgård. A resposta financeira robusta fortalece os planos do diretor Ian Tuason de transformar a narrativa em trilogia.
O olhar de Ian Tuason atrás das câmeras
Undertone marca a estreia de Ian Tuason na direção de longas e também no roteiro. O cineasta abraça um conceito minimalista: poucos cenários, elenco contido e foco absoluto na experiência sonora que corrompe a segurança da protagonista.
Em entrevista recente, Tuason confirmou conversas iniciais com a A24 para desenvolver duas continuações, ideia incentivada pelos números fortes de bilheteria. Caso avance, a expansão poderá esclarecer mistérios deixados em aberto, um dos fatores que alimentam as reações polarizadas.
Imagem: Divulgação
Elenco jovem sustenta o terror sonoro
Nina Kiri conduz a trama na pele da podcaster Evy, cética que se vê desmoronar quando escuta fitas de um casal aterrorizado por ruídos inexplicáveis. Kiri investe em olhares tensos e silêncios prolongados, ferramentas essenciais num enredo onde o barulho – ou a falta dele – dita as regras.
Ao redor da protagonista, nomes como Adam DiMarco, Michèle Duquet, Keana Lyn Bastidas, Jeff Yung, Sarah Beaudin e Brian Quintero reforçam o clima claustrofóbico com participações breves, mas funcionais. A contenção ajuda o público a se concentrar na paranoia crescente, ainda que parte da audiência reclame do ritmo contemplativo.
Vale a pena assistir Undertone?
Para quem busca um terror escorado em sustos fáceis, Undertone pode soar frustrante. A narrativa privilegia inquietação psicológica, silêncio e gravações enigmáticas em vez de sequências explícitas.
Por outro lado, admiradores de experiências imersivas, embaladas por mixagem de som inventiva e atuação de fôlego de Nina Kiri, encontram um exemplar ousado dentro do catálogo da A24. O retorno financeiro comprova que há público para propostas arriscadas, ainda que nem todos saiam satisfeitos.
No fim das contas, a divisão de opiniões não diminui o feito comercial do longa, que custou pouco, gerou lucro rápido e já pavimenta espaço para uma possível trilogia. Se vale a sessão? Depende do apetite do espectador por ruídos que, mais do que assombrar, perturbam em silêncio.



