Stephen King continua imbatível quando o assunto é ver sua obra ganhar vida em outras mídias. No catálogo brasileiro da Netflix, nove produções baseadas nos livros ou contos do autor disputam espaço entre romances, thrillers e histórias de terror.
Nem todas vieram ao mundo com a mesma força. Enquanto algumas acertam em cheio na condução de elenco, roteiro e direção, outras patinam em soluções fáceis ou desperdiçam premissas promissoras. O Salada de Cinema destrinchou cada título para entender onde moram os acertos — e onde os tropeços se escondem.
Fracassos que não assustam
Firestarter (2022) reimagina a menina piromaníaca criada por King, mas não encontra combustível narrativo suficiente. Dirigido por Keith Thomas, o longa investe em 94 minutos de atuação contida de Zac Efron e Sydney Lemmon. A jovem Ryan Kiera Armstrong, embora dedicada, não recebe apoio de um roteiro capaz de construir verdadeira tensão. O resultado é um filme que termina antes de provocar o menor vestígio de medo.
Outro tropeço, In the Tall Grass (2019), dirigido por Vincenzo Natali, transforma um conto claustrofóbico em labirinto visual repetitivo. A ambientação é competente e Laysla De Oliveira surge intensa, mas a repetição de sustos e a estrutura em looping cansam. Harrison Gilbertson tenta variar a dinâmica dramática, porém as reviravoltas previsíveis diluem o impacto.
Fechando o bloco dos menos inspirados, Mr. Harrigan’s Phone (2022) aposta em metáfora sobre dependência de celulares e na química de Jaeden Martell com Donald Sutherland. A direção de John Lee Hancock mantém ritmo seguro, mas a trama deixa o terror em segundo plano e não entrega a catarse prometida. A dupla principal sai ilesa, mas o filme se despede sem deixar marca profunda.
Suspense em ascensão
Entre os títulos que merecem redescoberta está 1922 (2017). O diretor Zak Hilditch adapta a novela homônima com atenção à atmosfera rural sufocante. Thomas Jane assume o protagonismo e, com sotaque carregado e olhar perdido, conduz o espectador ao declínio moral do fazendeiro Wilf James. Dylan Schmid, no papel do filho, sustenta o peso emocional e cria contraste essencial para a espiral de culpa que domina o enredo.
A fotografia explorando a decadência da fazenda e o design de som que valoriza o rangido de portas e o zumbido dos insetos compõem o pesadelo. Sem recorrer a sustos fáceis, o filme investe em horror psicológico e entrega uma das adaptações de Stephen King na Netflix mais fiéis ao tom sombrio do texto original.
Clássicos que resistem ao tempo
Lançado em 1983, Christine carrega a assinatura de John Carpenter. O diretor injeta seu estilo de terror retrô em cada cena, aproveitando o carisma estranho de Keith Gordon para construir o arco do adolescente dominado por um Plymouth Fury vermelho. Os efeitos práticos — destaque para a carroceria que se regenera — ainda impressionam, e a trilha de Carpenter reforça o suspense de forma elegante.
Imagem: Yeider Chac
Mais recente, Gerald’s Game (2017) marca o primeiro grande acerto de Mike Flanagan com a plataforma. Carla Gugino sustenta praticamente sozinha o confinamento angustiante de Jessie Burlingame, alternando fragilidade e força em cena. A montagem intercala alucinações e memórias sem perder o fio da tensão, enquanto Bruce Greenwood contribui como presença opressora mesmo após deixar de participar fisicamente da história.
Fechando a lista de longas, Stand By Me (1986) se mantém como o drama de amadurecimento favorito do próprio King. A direção de Rob Reiner extrai atuações naturais de River Phoenix, Wil Wheaton, Corey Feldman e Jerry O’Connell. Ao lado deles, Kiefer Sutherland encarna o antagonista ameaçador que equilibra doçura e perigo. A trilha liderada por “Stand By Me”, de Ben E. King, ajuda a cimentar o filme entre as mais queridas adaptações de Stephen King na Netflix.
Quando a TV supera o cinema
No formato seriado, a Netflix reúne dois exemplos de que tempo de tela prolongado pode beneficiar as tramas de King. 11.22.63 (2016) traz James Franco sob direção de Kevin Macdonald no piloto, encarando a viagem temporal para impedir o assassinato de JFK. A minissérie equilibra ritmo de thriller e reconstrução de época, enquanto Daniel Webber rouba a cena como Lee Harvey Oswald, imprimindo humanidade inquietante ao antagonista.
Já Castle Rock (2018–2019) mergulha no universo compartilhado do autor com produção de J. J. Abrams. Sam Shaw e Dustin Thomason conduzem o mosaico de referências que inclui desde Shawshank até a misteriosa cidade que dá nome ao projeto. Bill Skarsgård, André Holland, Sissy Spacek e Lizzy Caplan entregam atuações hipnotizantes, sustentando camadas de suspense que se desdobram em ritmo de quebra-cabeça.
Vale a pena maratonar as adaptações de Stephen King na Netflix?
Mesmo com altos e baixos, o catálogo oferece panorama interessante da obra do escritor. Quem busca compreender diferentes estilos de terror, drama e suspense encontrará nos títulos acima um retrato de quase quatro décadas de cinema e televisão inspirados por Stephen King.



