Quem acompanha o selo Absolute da DC Comics acaba de receber mais uma sacudida. A revelação de um Absolute Esquadrão Suicida, capitaneado por Zatanna e distante dos protocolos de Amanda Waller, fecha a edição 16 de Mulher-Maravilha com um gancho que promete repercussão nas próximas semanas.
Nas linhas que seguem, analisamos como a dupla Kelly Thompson (roteiro) e Hayden Sherman (arte) conduziu a estreia da equipe, discutindo ritmo narrativo, construção de personagens e o reflexo dessa novidade no já movimentado universo da linha. O Salada de Cinema mergulhou nos quadros para destrinchar a performance de cada integrante.
Um Esquadrão sem coleira: a decisão criativa por trás da nova formação
A primeira grande ruptura apresentada por Thompson está na ausência de todo o aparato governamental que historicamente define o Esquadrão Suicida. Sem Amanda Waller, bombas implantadas ou Força-Tarefa X, a roteirista opta por uma gênese baseada em conspiração estatal envolvendo Veronica Cale, antagonista recorrente de Diana. A escolha desloca o grupo de sua zona de conforto e abre espaço para tensões morais inexploradas.
Numa jogada de economia dramática, Thompson introduz a equipe apenas nos quadros finais, depois de dedicar a maior parte da edição ao crescimento da ameaça que força Zatanna a recrutar nomes improváveis como Doutora Veneno e Giganta. A decisão favorece o suspense, mas exige fôlego do leitor para processar o volume de informações lançado de uma só vez.
Visualmente, Hayden Sherman abandona o excesso de sombras que marcou passagens anteriores do selo e aposta em traços angulares, quase fragmentados, para sublinhar a urgência do momento. O resultado é um contraste bem-vindo com a abordagem mais clássica vista em títulos como Absolute Batman, reforçando a identidade única da nova equipe.
Além disso, a colorização recorre a uma paleta quente que destaca a gravidade da conspiração sem tornar a leitura opressiva. Essa combinação entre roteiro pactuado e arte nervosa serve de cartão-de-visita para a proposta, ainda que não responda de imediato a todas as perguntas sobre os verdadeiros objetivos de Cale.
Zatanna no comando: liderança e tensão interna
Colocar Zatanna na linha de frente do Absolute Esquadrão Suicida é, por si só, uma inversão curiosa. A personagem, tradicionalmente ligada à Liga da Justiça Dark, assume papel estratégico de mentora e coordenadora. Kelly Thompson entrega a maga em sua faceta mais pragmática, disposta a sujar as mãos quando a ameaça atinge aliados próximos.
O texto explora bem o conflito ético de Zatanna ao recrutar figuras como Mulher-Leopardo. A sinergia – ou a falta dela – entre heroína e vilãs fornece a tensão necessária para futuras tramas internas. Thompson planta diálogos curtos e secos, sinalizando que a confiança entre os membros ainda é volátil.
Na arte, Sherman trabalha closes que enfatizam olhares trocados durante a formação do grupo, sugerindo desconfiança latente. É um recurso simples, mas eficiente, para evitar longas exposições verbais. O leitor sente a corda esticada sem precisar que o roteiro sublinhe tudo.
Vale lembrar que a própria escolha de Zatanna ecoa iniciativas recentes da editora, como quando Batman precisou confrontar novos laços familiares em Knightfight. A DC segue inclinada a testar seus ícones em posições desconfortáveis, e essa guinada da feiticeira se encaixa na tendência.
Vilãs em destaque: Doutora Veneno, Giganta, Nina Mazursky e Mulher-Leopardo
O quarteto que compõe o Absolute Esquadrão Suicida tem histórico variado, mas Kelly Thompson dedica atenção equilibrada ao dar pequenos momentos de “performance” para cada uma. Doutora Veneno surge como cérebro científico do time, fornecendo explicações técnicas que dispensam jargão excessivo. A roteirista dosa bem o tempo de fala, evitando que a personagem soe caricata.
Giganta, por sua vez, assume o estereótipo de força bruta, mas Sherman insere sutilezas no gestual: mãos tensas, postura corporal pouco relaxada e semblante sempre semicerrado sugerem que a gigante não está totalmente convencida do plano. Esses detalhes, comuns à linguagem cinematográfica, falam muito sem precisar de texto explanatório.
Imagem: Divulgação
No caso de Nina Mazursky, a narrativa a coloca em terreno cinzento: ex-trabalhadora de agências governamentais fictícias, a personagem transita entre vítima e comparsa. Thompson usa flashbacks rápidos para contextualizar motivações, evitando a exposição exaustiva que emperraria o ritmo. Mulher-Leopardo, por fim, funciona como carta fora do baralho, sempre prestes a fugir ao controle – um tempero essencial para que o enredo não deslize rumo à previsibilidade.
Interessante notar que essa dimensão multifacetada das vilãs conversa com discussões mais amplas sobre antagonistas subestimados, tema reacendido quando Michael Mando retornou ao radar dos fãs como Escorpião em Um Novo Dia. A DC parece responder com seu próprio leque de vilãs de peso.
Ritmo editorial e expectativas para a próxima edição
Absolute Mulher-Maravilha #16 funciona como prelúdio, deixando no ar questões fundamentais: qual é o real escopo do experimento de Veronica Cale? Como a união de heroína e vilãs vai repercutir entre outras figuras do universo Absolute? Em termos de pacing, Thompson entrega uma edição mais cadenciada, priorizando construção de suspense a cenas de ação pura.
Hayden Sherman, acostumado ao noir futurista de minisséries independentes, mostra versatilidade ao representar tanto ambientes burocráticos quanto cenários místicos associados a Zatanna. O contraste visual reforça o choque de mundos na nova formação. Nada indica, até agora, um vilão unificado ou ameaça cósmica; a ênfase parece recair sobre jogos políticos, terreno fértil para a arte expressionista de Sherman.
Do ponto de vista editorial, a inclusão do Esquadrão em Mulher-Maravilha sinaliza que a linha Absolute seguirá compartilhando tramas de forma orgânica, um modelo parecido ao que a Marvel pretende adotar em seus futuros eventos, segundo ressaltou Rob Liefeld ao indicar Deniz Camp como solução para a crise criativa da concorrente. A tendência sugere 2026 igualmente agitado para ambas as editoras.
Em nível de produção, a dupla criativa equilibra texto e imagem sem recorrer a excesso de diálogos explicativos, escolha que favorece leitores de longa data e novatos. A edição encerra com splash page impactante, carimbando o “to be continued” que, se bem aproveitado, pode consolidar o Absolute Esquadrão Suicida como novo pilar da linha.
Vale a pena acompanhar o Absolute Esquadrão Suicida?
Para quem busca uma abordagem fora do convencional e aprecia tramas onde moralidade é assunto em aberto, a estreia impressiona. Kelly Thompson constrói tensão suficiente para justificar a leitura da próxima edição, enquanto Hayden Sherman entrega arte que reflete o caos controlado desse grupo improvável.
A ausência de Amanda Waller e das velhas coleiras explosivas não diminui o peso dramático; pelo contrário, amplia o risco ao tornar cada integrante responsável por suas escolhas. A liderança de Zatanna adiciona camadas espirituais e amplia o leque de possibilidades narrativas em comparação com iterações anteriores.
Se o roteiro mantiver o equilíbrio entre conspiração e desenvolvimento de personagens, há grande chance de o Absolute Esquadrão Suicida conquistar espaço definitivo dentro da linha. Até lá, resta aguardar a próxima edição para ver quais cartas Kelly Thompson ainda esconde na manga.



