Peter Jackson confirmou no Festival de Cannes que está escrevendo o roteiro de As Aventuras de Tintim 2 — e que pretende dirigir o filme ele mesmo, cumprindo um acordo firmado com Steven Spielberg há mais de quinze anos. A notícia transforma o que parecia desenvolvimento eterno num projeto com roteiro em andamento e diretor definido.
Um pacto que sobreviveu à Terra Média, aos Beatles e à pandemia
A lógica por trás da sequência nunca foi mistério: desde o início, Spielberg e Jackson combinaram que um dirigiria o primeiro filme e o outro, o segundo. “O acordo era que Steven dirige um e eu dirijo outro”, disse Jackson em Cannes. “Steven fez o dele, e faz 15 anos que eu não fiz o meu.” O que chama a atenção não é o atraso em si — é a quantidade de projetos monumentais que Jackson atravessou nesse intervalo sem que o acordo fosse esquecido ou repassado a outro diretor.
A sequência ficou em desenvolvimento por mais de uma década enquanto Jackson se dedicava à trilogia O Hobbit, a They Shall Not Grow Old e a The Beatles: Get Back. Agora, Jackson anunciou em sua masterclass no festival que está pronto para voltar à cadeira de diretor depois de mais de uma década, e que já concluiu o roteiro do segundo filme animado de Tintim.
O detalhe que muda o peso da notícia: ele disse que escrevia o roteiro no próprio quarto de hotel em Cannes. “É uma coisa real e ativa, e estou voltando para o mundo de Tintim — e realmente estou adorando.”

O roteiro muda de mãos e isso importa mais do que parece
O primeiro filme foi escrito por um trio britânico de peso: Steven Moffat (co-criador de Sherlock), Joe Cornish (diretor de Attack the Block) e Edgar Wright (Shaun of the Dead). Jackson e Walsh escrevendo o roteiro da sequência representa uma mudança em relação ao primeiro filme, que reuniu três renomados talentos criativos ingleses. A parceria Jackson-Walsh tem histórico sólido: foi ela que construiu a espinha dramática de toda a trilogia O Senhor dos Anéis. A pergunta legítima é se a voz dos dois vai funcionar num universo de aventura mais leve, de inspiração europeia, diferente da épica tolkieniana.
Quanto ao material a ser adaptado, Jackson não confirmou nada oficialmente. Especula-se amplamente que a sequência seria baseada na dupla “As Sete Bolas de Cristal” e “Prisioneiros do Sol”, mas Jackson não confirmou qual história ou histórias serão adaptadas. Quinze anos atrás, quando foi anunciado que Jackson dirigiria a sequência, rumores de Hollywood indicavam que o segundo filme adaptaria Prisioneiros do Sol, que leva Tintim numa busca por uma antiga civilização inca em busca do Professor Girassol.
As Aventuras de Tintim foi subestimado comercialmente — e isso adiou tudo
O primeiro filme nunca foi um fracasso, mas tampouco virou o fenômeno que justificaria produção acelerada de sequências. As Aventuras de Tintim foi bem recebido pela crítica e arrecadou US$ 374 milhões globalmente, com apenas US$ 77,5 milhões no mercado doméstico americano, com aberturas recordes no exterior. Esse desequilíbrio entre bilheteria internacional e americana foi o nó central: as portas fechadas do mercado norte-americano às histórias em quadrinhos franco-belgas sempre formaram uma barreira, já que Tintim nunca foi popular nos EUA — mas na última década, o modelo hollywoodiano tornou-se menos dependente das bilheterias americanas e passou a usufruir do crescimento dos cinemas ao redor do mundo.
Em termos de reconhecimento, o filme foi além do esperado para uma animação em captura de movimentos: tornou-se o primeiro filme totalmente digital em captura de movimentos e o primeiro fora da Pixar a ganhar o Globo de Ouro de Melhor Filme de Animação. O filme também recebeu duas indicações ao BAFTA, nas categorias de Filme Animado e Efeitos Visuais Especiais.

Jackson livre da Terra Média pela primeira vez em décadas
Há outro ângulo nessa história que raramente é discutido: enquanto Jackson e Spielberg mantêm o acordo original de trocar os papéis de produtor e diretor na sequência de Tintim, Jackson está feliz em dar um passo atrás em The Lord of the Rings: The Hunt for Gollum. O filme de O Senhor dos Anéis será dirigido por Andy Serkis — o mesmo ator que viveu o Capitão Haddock no primeiro Tintim e que, segundo fontes, teria interesse em retornar ao papel na sequência.
Isso significa que, pela primeira vez desde 2001, Jackson entra num projeto de ficção narrativa que não tem O Senhor dos Anéis ou O Hobbit no centro. Depois de uma década focado em documentários e tecnologia cinematográfica, Jackson se prepara para retornar ao cinema de ficção: primeiro como produtor no filme de Andy Serkis em 2027, depois com a sequência de Tintim — o que marcaria sua primeira direção desde O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos, em 2015.
A tecnologia também não será a mesma de 2011: Jackson confirmou que o projeto usará tecnologia avançada de captura de movimentos desenvolvida pela Weta FX, a empresa de efeitos visuais por trás de várias de suas produções anteriores. A Weta é co-fundada pelo próprio Jackson, o que garante controle criativo sobre o processo visual — diferente da maioria das produções de animação hollywoodianas.
O acordo de 15 anos entre os dois diretores é incomum na indústria. Num mercado em que franquias mudam de mãos por decisões corporativas a cada ciclo de estúdio, dois cineastas mantendo um pacto pessoal sobre uma propriedade intelectual durante mais de uma década e meia é, no mínimo, uma anomalia. Se o roteiro de Jackson e Walsh resultar num filme, As Aventuras de Tintim 2 vai chegar aos cinemas carregando o peso raro de uma promessa realmente cumprida.
Fonte: screenrant.com









