O capítulo derradeiro de Dona Beja coloca Ana Jacinta diante de uma verdade libertadora: inocentada oficialmente, a personagem percebe que só alcançará autonomia ao abandonar Araxá. O roteiro transforma a vitória jurídica da protagonista em um autoexílio que corta qualquer possibilidade de final romântico.
Ao optar por um desfecho amargo, a produção estrelada por Grazi Massafera troca a fantasia de reconciliação por um comentário direto sobre estruturas de poder. A protagonista vence, mas precisa abrir mão de tudo o que a cidade representou – inclusive da própria lenda que ajudou a criar.
Grazi Massafera sustenta a complexidade de Ana Jacinta
Grande parte do impacto do último capítulo recai sobre a performance de Grazi Massafera. Nos minutos finais, a atriz equilibra alívio, culpa e raiva sem recorrer a gestos exagerados, reforçando o caráter contraditório da heroína. Quando a absolvição é lida em tribunal, o leve desarme corporal contrasta com o olhar ainda tenso, sinalizando que a liberdade chega carregada de dor.
Logo depois, na cena em que decide deixar a Chácara do Jatobá, Grazi troca o tom combativo por uma serenidade melancólica. O contraste ajuda o público a entender que Ana Jacinta não foge: ela rompe. Essa nuance amarra a trajetória da personagem, que jamais se encaixou no papel de vítima pacífica nem no de justiceira absoluta.
Roteiro prefere o exílio à reparação romântica
Os roteiristas estruturam o final em três momentos: a confissão de Maria, a revelação do verdadeiro culpado pelos crimes em Araxá e a escolha de Beja de partir. A sequência é cronológica e direta, eliminando reviravoltas adicionais para concentrar a tensão no efeito moral do julgamento.
A confissão de Maria é o motor da virada. Ela expõe que a violência na cidade não é exceção, mas reflexo de uma engrenagem que beneficia homens influentes e silencia mulheres. Desmascarado o culpado, Beja é absolvida. No entanto, a vitória pública vem acompanhada da consciência de que permanecer em Araxá significaria legitimar a mesma estrutura que a perseguiu.
Ao recusar um epílogo romântico, o roteiro segue linha semelhante à adotada em Algo Horrível Vai Acontecer, que também evita finais confortáveis para privilegiar a autonomia feminina.
Imagem: Ti Morais
Direção aposta em simbolismo político para selar a despedida
Visualmente, o capítulo final usa enquadramentos amplos para destacar a solidão da protagonista. A cena da saída de Ana Jacinta da cidade é filmada em plano aberto, com as fachadas coloniais encolhendo ao fundo, enquanto o som ambiente de vozes locais vai se tornando distante. A escolha da direção reforça que o núcleo social que tentou domá-la fica, literalmente, para trás.
Num dos momentos mais fortes, a câmera percorre lentamente a sala vazia da Chácara do Jatobá. Objetos que antes simbolizavam poder – como o espelho no qual Beja se arrumava para receber admiradores – agora aparecem cobertos por lençóis, indicando que aquela fase não será retomada. O recurso lembra o minimalismo usado em Marshals, onde a mise-en-scène também funciona como comentário político.
Símbolos finais reforçam o peso da vitória
A morte de Antônio, ocorrida pouco antes do julgamento, é tratada como ponto sem retorno. O roteiro impede qualquer ilusão de reconciliação amorosa, sublinhando que Ana Jacinta carrega marcas que nem a absolvição judicial consegue apagar. A presença do caixão fechado durante o velório contrasta com a plateia do tribunal, escancarando que vida pública e dor íntima não se conciliam.
Por fim, o adeus de Beja à cidade não inclui cortejos nem beijos de despedida. Ela monta no cavalo e segue sozinha pela estrada, enquanto a trilha musical reduz a orquestra a poucos acordes. É a vitória, mas também o esvaziamento: a protagonista leva apenas a própria integridade, deixando para trás bens, afetos e reputação.
Vale a pena assistir a Dona Beja?
Dona Beja não entrega romance reconfortante, e sim uma análise incisiva sobre opressão e autonomia. A força da atuação de Grazi Massafera, aliada a um roteiro que privilegia o impacto político do desfecho, faz da novela uma experiência intensa. Para quem acompanha o Salada de Cinema em busca de obras que desafiam fórmulas tradicionais, o projeto vale cada episódio – especialmente pelo final que transforma vitória em ruptura.



