Matt Murdock voltou a calçar as botas vermelhas e, desta vez, não há espaço para hesitar. A segunda leva de episódios de Daredevil: Renascido (Daredevil: Born Again) chega ao Disney+ carregando a promessa de retomar tudo que o público amava na série original da Netflix.
Comandada agora por Dario Scardapane, roteirista de O Justiceiro, a produção abraça a violência coreografada, mergulha em dilemas morais mais densos e afirma de vez que, sim, ainda há fôlego para o Demolidor dentro do MCU.
Direção e roteiro recuperam a alma urbana do Demolidor
Logo nos primeiros minutos fica evidente a mudança de rota. Scardapane conduz a narrativa com ritmo mais sombrio, adotando enquadramentos fechados e planos-sequência que remetem aos tempos da Netflix. A fotografia investe em luzes vermelhas e becos enevoados, refletindo uma Nova York dominada pelo medo desde que Wilson Fisk foi eleito prefeito e baniu vigilantes.
O roteiro, assinado por uma equipe que inclui nomes vindos de O Justiceiro, aposta em arcos paralelos para explorar propaganda política e autoritarismo. A inclusão dos quadros do BB Report – mostrados pela primeira vez na temporada anterior – humaniza a cidade, fazendo eco ao que séries como Jury Duty fizeram ao evidenciar a voz do cidadão comum.
Charlie Cox e Vincent D’Onofrio dominam, mas quem rouba a cena é Bullseye
Charlie Cox está em forma impecável. Suas lutas exibem fluidez impressionante, cada golpe combina técnica de artes marciais com brutalidade crua – ossos estalam e o sangue volta a jorrar, algo que muitos sentiram falta no primeiro ano. Mais interessante é ver Matt lidar com a perda de sua vida como advogado depois de ser declarado fora da lei. A dualidade fé x justiça, sempre central, ganha novos contornos quando ele precisa liderar uma rede de aliados para retomar a cidade.
Do outro lado, Vincent D’Onofrio entrega o melhor arco de Wilson Fisk até agora. Como prefeito, o Rei do Crime governa com punho de ferro, cercado por conselheiros que mais parecem capangas engravatados. Ainda assim, a série encontra espaço para momentos íntimos que revelam inseguranças do vilão, aprofundando sua humanidade.
Entretanto, o grande destaque é Wilson Bethel. Seu Benjamin Poindexter, o Bullseye, ganha tempo de tela generoso e faz valer cada segundo. Das cenas de ação – em que objetos banais viram armas mortais – aos diálogos recheados de dor contida, Bethel hipnotiza. O embate psicológico entre ele e Matt Murdock coloca fogo em sequências que já eram incendiárias fisicamente.
Coadjuvantes ganham camadas e Jessica Jones volta afiada
Deborah Ann Woll retoma Karen Page com vigor. Após presença discreta na temporada anterior, Karen assume posição estratégica na “tropa” de Matt, questionando decisões do herói e jogando luz sobre temas como responsabilidade civil. A parceria turbulenta dos dois sustenta subtrama emocional que impede a série de virar apenas uma sucessão de socos.
Os novatos Buck, Daniel e Kirsten, introduzidos no primeiro ano, deixam de ser figuras decorativas. Buck e Daniel, em especial, servem de espelho moral do lado de Fisk, mostrando como o poder corrompe até quem acredita estar fazendo o certo. Já Kirsten injeta humor pontual sem quebrar a tensão.
Heather Glenn melhora, mas ainda carece de carisma para disputar atenção. Matthew Lillard, por sua vez, desperdiça o potencial do misterioso Sr. Charles, que se mostra protocolar diante de personagens tão vibrantes.

Imagem: Divulgação
O retorno mais celebrado é o de Krysten Ritter. Jessica Jones ressurge depois de anos, com cicatrizes físicas e emocionais, mas mantendo a língua afiada. A química entre Ritter e Cox faz lembrar a minissérie Os Defensores, criando faíscas toda vez que dividem cena. Tony Dalton, como o Espadachim Jack Duquesne, traz charme irreverente e funciona como alívio cômico elegante.
Violência estilizada e temas politizados: promessa cumprida
Se o começo da temporada parece cadenciado demais, é questão de paciência. Os dois primeiros capítulos gastam tempo contextualizando o estado de sítio instaurado por Fisk, mas essa base se prova essencial. Do episódio três em diante a narrativa dispara e culmina em um final explosivo, considerado por muitos o mais intenso já visto numa série de super-herói.
A coreografia das lutas é mais “suja” do que em outros produtos do MCU – uma escolha que aproxima a produção de obras que não temem a violência gráfica, como Invencível. A edição evita cortes excessivos, permitindo ao espectador acompanhar cada movimento e sentir o peso dos impactos.
Além da pancadaria, a série discute censura, manipulação midiática e o perigo de leis criadas sob o pretexto da segurança. Esses temas, tratados com maturidade, lembram que histórias em quadrinhos podem (e devem) dialogar com dilemas contemporâneos.
Vale a pena maratonar a 2ª temporada de Daredevil: Renascido?
Com oito episódios e classificação indicativa para maiores, a nova leva consolida Daredevil: Renascido como o projeto televisivo mais consistente da Marvel desde os tempos da Netflix. O Salada de Cinema destaca a ousadia de Scardapane em não suavizar a violência e, ao mesmo tempo, enriquecer personagens secundários.
Charlie Cox reafirma-se como Demolidor definitivo, Vincent D’Onofrio eleva Fisk a novo estágio de malícia política e Wilson Bethel transforma Bullseye na peça mais intrigante do tabuleiro. Quem procura ação visceral, drama psicológico e discussões sociopolíticas encontrará aqui o pacote completo.
No fim, a série planta pistas concretas para a já confirmada terceira temporada, mas encerra o segundo ano com sensação de dever cumprido. Para os fãs que aguardavam a volta do “Homem Sem Medo” em toda sua glória, a espera terminou.



