Friends continua irresistível para novas gerações, mas nem todo roteiro resiste ao tempo. Reassistir hoje algumas tramas expõe piadas gordofóbicas, machistas ou transfóbicas que passaram batido nos anos 90.
Se a química entre Jennifer Aniston, Courteney Cox, Lisa Kudrow, Matt LeBlanc, Matthew Perry e David Schwimmer permanece afiada, certos capítulos revelam o contexto cultural de três décadas atrás. Abaixo, listamos dez episódios que envelheceram mal, destacando atuações, escolhas de direção e problemas de texto.
O choque cultural de Friends em pleno streaming
Mais de trinta anos após a estreia, Friends figura entre as produções mais vistas da Netflix e da HBO Max. O êxito impressiona, afinal a série disputou atenção com dramas prestigiados e, mesmo assim, sobreviveu como conforto televisivo. Contudo, maratonar hoje deixa claro que o programa reflete valores de outra era — e isso não se limita à falta de smartphones ou à decoração do Central Perk.
A redação liderada por Marta Kauffman e David Crane mirava o riso fácil, ainda que, ocasionalmente, tropeçasse em estereótipos. O diretor de episódio Kevin S. Bright, responsável por parte significativa da temporada inicial, muitas vezes optava por enquadramentos que reforçavam a gag física, mas não questionavam o teor das piadas. Esse conjunto faz com que algumas tramas soem antiquadas, ainda que o carisma do elenco alivie o impacto.
Os 10 episódios de Friends que não envelheceram nada bem
- Aquele com o Boato – temporada 8, episódio 9. Brad Pitt brilha como ex-colega rancoroso, porém o roteiro recorre a piadas gordofóbicas sobre Monica, tornando o capítulo desconfortável.
- Aquele em que Ross Sai com uma Aluna – temporada 6, episódio 18. A química entre Schwimmer e Alexandra Holden existe, mas a trama romantiza uma relação de poder desigual entre professor e estudante.
- Aquele em que Eddie Não Vai Embora – temporada 2, episódio 19. Adam Goldberg entrega um Eddie perturbador; mesmo assim, o texto transforma doença mental em punchline e faz Chandler gaslightar o colega.
- Aquele com o Túnel Metafórico – temporada 3, episódio 4. O conflito de Ross com o filho Ben por causa de uma Barbie escancara a visão engessada de masculinidade dos anos 90.
- Aquele com o Assistente da Rachel – temporada 7, episódio 4. Jennifer Aniston mantém o timing cômico, mas a personagem usa o cargo para flertar com o subordinado, algo inaceitável em ambiente corporativo pós-#MeToo.
- Aquele com as Doze Lasanhas – temporada 1, episódio 12. Paolo assedia Phoebe durante uma massagem; o episódio, porém, foca na reação de Rachel, minimizando o abuso sofrido por Phoebe.
- Aquele com a Prima de Ross e Monica – temporada 7, episódio 19. Denise Richards tem presença magnética, só que o enredo gira em torno da atração de Ross pela própria prima, gerando repulsa.
- Aquele com o Fator Ick – temporada 1, episódio 22. Courteney Cox demonstra vulnerabilidade, porém Monica, sem saber, se envolve com menor de idade, situação tratada como gag trivial.
- Aquele com a Babá Homem – temporada 9, episódio 6. Freddie Prinze Jr. encarna um cuidador sensível; ainda assim, Ross menospreza o profissional por ser do sexo masculino, refletindo estereótipos ultrapassados.
- Aquele com o Pai do Chandler – temporada 7, episódio 22. Kathleen Turner segura a cena, mas o roteiro faz da personagem trans alvo de piadas transfóbicas e uso constante de pronomes incorretos.
Atuações que salvam (ou pioram) a experiência
Boa parte do encanto de Friends reside na química do sexteto principal. Mesmo quando o texto derrapa, os atores entregam timing impecável. Jennifer Aniston domina o humor físico em “Aquele com o Assistente”, enquanto Courteney Cox mostra vulnerabilidade em “Aquele com o Fator Ick”. Por outro lado, David Schwimmer, embora comprometido, carrega as passagens mais problemáticas envolvendo Ross, seja por controle de gênero sobre Ben ou por romances impróprios.
Entre os convidados, Brad Pitt subverte a imagem de galã, e Kathleen Turner surge carismática como Helena Handbasket. O potencial desses nomes, porém, esbarra em piadas que hoje soam ofensivas. O contraste reforça como atuação e texto precisam andar juntos para evitar desgastes.
Imagem: Divulgação
Roteiristas e diretores presos aos anos 90
Marta Kauffman e David Crane buscavam leveza semanal, mas certos alívios cômicos provinham de alvos fáceis: gordofobia, homofobia e estereótipos de gênero. A escolha por mostrar Ross como “pai preocupado” ao proibir a Barbie de Ben exemplifica a visão limitada sobre masculinidade, algo repensado em séries contemporâneas. Basta comparar com produções oitentistas listadas neste guia de clássicos; percebe-se que Friends avançou em diversidade, mas ainda carregou vícios do passado.
Na condução de cena, diretores como Kevin S. Bright privilegiavam risadas instantâneas da plateia, sem espaço para reflexão. Hoje, narrativas priorizam arcos que respeitam identidades, como visto em Peaky Blinders (ranqueadas neste material). Friends, portanto, serve de documento histórico sobre o que era considerado humor aceitável.
Ainda vale maratonar Friends?
Friends continua divertido graças ao elenco afiado e à ambientação reconfortante. Contudo, quem revisita a série precisa ter em mente os contextos sociais que moldaram certas piadas. Entender essas limitações ajuda a apreciar os acertos sem ignorar os deslizes – postura que o Salada de Cinema sempre incentiva em suas análises.









