Quando V de Vingança chegou aos cinemas em fevereiro de 2006, o público já conhecia o rosto por trás da icônica máscara de Guy Fawkes: Hugo Weaving. Poucos sabiam, porém, que o papel havia sido interpretado por outro ator durante boa parte das filmagens. Duas décadas depois, o diretor James McTeigue finalmente detalha o motivo da troca.
Em entrevista para divulgar a versão 4K comemorativa de 20 anos, o cineasta contou que James Purefoy, escalado inicialmente, não se adaptou às limitações de atuar sem mostrar o rosto. A decisão, segundo ele, não foi fruto de “diferenças criativas”, mas de adequação ao personagem — e definiu o destino do longa.
Troca de protagonista sacudiu o set
Purefoy gravou várias semanas como o vingador anarquista antes de ser dispensado. McTeigue lembra que, em seu primeiro trabalho como diretor, demitir o ator principal beirava o desastre, mas a urgência de manter a produção viva falou mais alto. “Você não quer trocar o protagonista na estreia como diretor, a não ser que exista um bom motivo”, recordou.
O bom motivo, segundo ele, era a máscara. Privado da ferramenta facial, Purefoy sentiu a atuação limitada e demonstrou desconforto. Weaving, por outro lado, foi convidado e aceitou “esconder-se” atrás do símbolo. “Para ele, o disfarce virou liberdade”, disse o cineasta. A mudança reposicionou a energia do set e permitiu que as filmagens corressem sem novos abalos.
Hugo Weaving e a arte de atuar sem rosto
Hugo Weaving, celebrado à época por Matrix e Senhor dos Anéis, mergulhou no desafio. Ele reencontrou McTeigue com quem já havia trabalhado na trilogia das irmãs Wachowski e, segundo o diretor, trouxe total disponibilidade para experimentar. Como a máscara impedia microfones no set, boa parte dos diálogos foi regravada em pós-produção; mesmo assim, Weaving repetia toda a fisicalidade diante do microfone, inclusive gestos de arremessar facas, para preservar cadência e respiração.
O resultado pode ser medido pelos 90% de aprovação do público no Rotten Tomatoes e pelas citações frequentes às falas do personagem — “Ideias são à prova de balas” segue tatuada na cultura pop. A performance se apoia na voz, na postura e na musicalidade das palavras, recurso que ecoa em outros trabalhos de atuação “mascarada”, como o recente Hokum, onde a ausência de expressões faciais também vira trunfo dramático.
Direção de James McTeigue e roteiro das Wachowski
Mesmo com a troca de elenco, McTeigue manteve firme o tom político do quadrinho de Alan Moore. O diretor buscava equilibrar a vingança pessoal de V com o objetivo maior de libertar o povo de um regime fascista. Nos bastidores, contava com a parceria de Lana e Lilly Wachowski, responsáveis pelo roteiro. O trio já se conhecia dos sets de Matrix — afinidade que ajudou a resolver problemas de produção rapidamente.
Imagem: Divulgação
Natalie Portman, intérprete de Evey Hammond, também abraçou a proposta. A química entre Portman e Weaving transpira tensão e empatia, fator que faz o espectador acompanhar de perto a evolução da jovem de cidadã amedrontada a aliada revolucionária. Figurinos e fotografia reforçam o subtexto político, enquanto a trilha de Dario Marianelli aponta o caminho emocional sem se sobrepor às atuações.
Legado de V de Vingança duas décadas depois
Além da nova edição em 4K, o longa continua a render frutos: a HBO desenvolve uma série ambientada no mesmo universo, com produção de James Gunn e Peter Safran. Ainda que detalhes permaneçam em sigilo, a adaptação promete reacender discussões sobre autoritarismo, vigilância e resistência — temas que mantêm o filme circulando em redes sociais e fóruns de debate.
Enquanto isso, o elenco original segue ativo. Weaving alterna blockbusters e produções independentes; Portman transita entre Marvel e projetos autorais; e Purefoy, mesmo após a saída conturbada, consolidou carreira versátil em títulos como The Following e The Witcher. Para McTeigue, olhar para trás confirma que a difícil decisão de 2005 foi vital para que V de Vingança se tornasse um marco cultural — algo que o Salada de Cinema revisitava sempre que o assunto era “figuras mascaradas” no cinema.
Vale a pena assistir hoje?
Absolutamente. A força de V de Vingança reside na simbiose entre direção ousada, roteiro afiado e uma atuação que venceu o obstáculo de não mostrar o rosto. Weaving entrega um protagonista que fala com o corpo inteiro, e Portman conduz o público pelo labirinto moral do enredo. Se a máscara virou símbolo de rebelião global, é porque a obra soube canalizar emoção e mensagem em igual medida. Duas décadas depois, assistir — ou revisitar — continua tão relevante quanto em 2006.



