Jessie Buckley entrou para a história da Academia no domingo, 15 de março de 2026. Ao vencer o prêmio de Melhor Atriz, a irlandesa tornou-se a primeira de seu país a conquistar a estatueta na categoria, graças à sua interpretação de Agnes Shakespeare em Hamnet.
O longa, inspirado no best-seller de Maggie O’Farrell, retrata o luto do casal Shakespeare após a morte do filho de 11 anos, episódio que resultaria na criação de Hamlet. Mais do que um feito estatístico, a vitória de Buckley reacende o debate sobre a força de atuações centradas em sentimentos primais como dor, amor e saudade.
Grande noite para a Irlanda e para Hamnet
Buckley subiu ao palco visivelmente emocionada e não economizou afeto ao agradecer pais, marido e a filha de oito meses, reforçando o elo entre o tema do filme e sua própria experiência com a maternidade. O discurso, além de simpático, ressaltou a “belíssima confusão do coração de mãe”, expressão que se alinhou à proposta dramática da obra.
Além do prêmio de atuação, Hamnet acumulou indicações de peso: Melhor Filme, Direção, Roteiro Adaptado, Trilha Original, Elenco, Design de Produção e Figurino. Ainda que não tenha convertido todas, a produção saiu da cerimônia como um dos títulos mais comentados da 98ª edição, confirmando a relevância do drama lançado em 26 de novembro de 2025.
Atuações que sustentam o luto em cena
No centro da narrativa está Jessie Buckley, que entrega uma Agnes Shakespeare interiorizada, mas repleta de pequenos gestos que revelam um turbilhão interno. A atriz se apoia em silêncios prolongados, olhares fixos e respirações entrecortadas para traduzir a urgência da saudade, recurso que a Academia costuma reconhecer quando bem executado.
A química ao lado de Paul Mescal, intérprete de William Shakespeare, confere verossimilhança ao relacionamento retratado. Mescal equilibra vigor juvenil e exaustão emocional, complementando o retrato materno de Buckley. Não por acaso, a dupla foi destaque em debates online, assim como aconteceu com o elenco de O Sol Nunca Se Põe (crítica aqui), que também apostou em atuações para sustentar o roteiro.
O olhar de Chloé Zhao e Maggie O’Farrell sobre Shakespeare
Dirigido por Chloé Zhao e roteirizado a quatro mãos com a própria O’Farrell, Hamnet mantém a marca da cineasta: planos abertos que privilegiam a paisagem, mas não negligenciam a intimidade dos personagens. Zhao repete a parceria com diretores de fotografia minimalistas, usando luz natural para reforçar a atmosfera melancólica da Inglaterra elisabetana.
A adaptação é fiel ao espírito do livro ao transformar eventos reais em drama contemplativo. Sem apelar para grandes reviravoltas, o roteiro se concentra na construção de ambiência e nas nuanças emocionais, estratégia que já havia rendido prestígio a Zhao em trabalhos anteriores. Para o leitor assíduo do Salada de Cinema, vale notar como a cineasta lida com temas familiares sem abandonar seu ritmo pausado, semelhante ao visto em produções como Reminders of Him (confira análise).
Imagem: Divulgação
Indicações e impacto no Oscar 2026
Embora tenha saído apenas com a estatueta de Melhor Atriz, a pluralidade de indicações confirma a recepção calorosa de Hamnet dentro da Academia. Em especial, as indicações de Figurino e Design de Produção reforçam o cuidado na recriação do período, enquanto a menção em Elenco endossa a força do conjunto.
A presença de concorrentes de peso, como Emma Stone (Bugonia) e Kate Hudson (Song Sung Blue), não diminuiu o feito histórico alcançado por Buckley. A celebração ocorreu na mesma temporada em que a atriz já somava uma indicação anterior, por A Filha Perdida, consolidando-a como nome recorrente nas discussões sobre prêmios.
Vale a pena assistir Hamnet?
Para quem busca um drama centrado em emoções universais, Hamnet cumpre exatamente essa função. A proposta intimista de Chloé Zhao combina-se ao texto sensível de Maggie O’Farrell, resultando em um filme que valoriza silêncios e expressões sutis.
A performance de Jessie Buckley, agora coroada com o Oscar, legitima o investimento de duas horas na sala de cinema ou no streaming. Seu trabalho de composição captura a complexidade de uma mãe que perde um filho, ao passo que Paul Mescal traz densidade ao jovem Shakespeare em formação.
Somado a figurinos detalhados e fotografia que privilegia a luz natural, Hamnet consolida-se como experiência cinematográfica completa. Mesmo que o espectador conheça o destino trágico da família, a jornada interior dos personagens transforma cada cena em descoberta sensorial.



