Gravar um filme onde o relógio parece perder o sentido pode soar poético, mas também confuso. Foi exatamente nesse cenário – dias que quase não acabam – que Dakota Fanning rodou O Sol Nunca Se Põe (The Sun Never Sets), nova dramédia indie de Joe Swanberg.
A produção, exibida pela primeira vez no SXSW, faz da experiência extrema no Alasca um componente tão importante quanto qualquer personagem. Entre mudanças bruscas de humores, triângulos amorosos e muito café às três da manhã, o longa entrega um estudo de personagens centrado na honestidade de diálogos e na química do elenco.
Ambientação extrema no Alasca vira personagem
No roteiro escrito pelo próprio Swanberg, Wendy (Fanning) tenta reorganizar a vida quando o namorado mais velho decide “dar um tempo”. A pausa forçada acontece justamente quando a luz do dia parece eterna, situando a protagonista num limbo emocional amplificado pela claridade constante.
A iluminação natural de Anchorage – onde a equipe passou semanas – cria um efeito quase surreal. Fanning descreveu como “doce” observar crianças brincando às 21h45, enquanto colegas acharam a paisagem “meio The Walking Dead”. Essa estranheza se reflete em cena: a fotografia evita filtros fechados e abraça a exposição alta, reforçando a sensação de tempo suspenso.
Química de elenco sustenta o triângulo amoroso
Jake Johnson interpreta Jack, namorado divorciado que coloca Wendy em espera; Cory Michael Smith surge como Chuck, o ex que reaparece no momento menos oportuno. Johnson, veterano de Homem-Aranha no Aranhaverso, revisita a parceria com Swanberg após Drinking Buddies e Win It All e, novamente, aposta no improviso para construir um sujeito carismático, ainda que problemático.
Smith, por sua vez, encara o desafio de viver um piloto sem qualquer experiência prévia. Ele passou dias acompanhando aviadores locais para soar autêntico. O esforço valeu: suas cenas transmitem nervosismo contido, criando contraste com o descompromisso verbal de Johnson. Essa oposição dá a Fanning espaço para brilhar; seu olhar atento e gestos contidos guiam o espectador pelas contradições de Wendy.
Debby Ryan, Anna Konkle, Lamorne Morris e Karley Sciortino completam o time, aparecendo pontualmente para ampliar o mosaico de relações. Mesmo com pouco tempo de tela, cada um contribui para o humor agridoce que impera – solução parecida com a usada na antologia Grind, outro título do festival que equilibra drama e comédia em episódios enxutos.
Imagem: Divulgação
Processo de Joe Swanberg reforça naturalismo
Swanberg defende a espontaneidade. Sem script fechado, ele estimula conversas que parecem arrancadas da vida real. A técnica requer confiança plena entre diretor e atores, algo que Johnson elogiou ao afirmar ter sentido a “visão mais clara” de Swanberg desde 2017.
O cineasta, habituado a orçamentos modestos e cronogramas curtos, aproveitou a logística complicada do Alasca para intensificar ensaios rápidos e gravações longas. O resultado é um filme que evita cortes bruscos, permitindo que silêncios incômodos – especialmente nas discussões do casal – se estendam até beirar o constrangimento. Esse realismo verbal lembra a abordagem de obras que misturam rotina e bizarrice, como o sci-fi satírico The Saviors.
Destaques individuais nas atuações
• Dakota Fanning – Entrega vulnerabilidade sem soar frágil. Sua Wendy reage rápido, mas pondera cada palavra, expondo conflitos internos com expressões mínimas.
• Jake Johnson – Usa timing cômico conhecido para amenizar atitudes questionáveis de Jack. A balança entre humor e desleixo mantém o personagem humano.
• Cory Michael Smith – Reveste Chuck de tensão silenciosa. A insegurança do piloto ganha contornos físicos, do aperto da mandíbula ao olhar que evita contato direto.
A soma dessas escolhas sustenta o filme durante os 102 minutos de duração, mesmo quando a narrativa repete o padrão “termina e recomeça” típico de relações mal resolvidas.
Vale a pena assistir O Sol Nunca Se Põe?
Para quem aprecia dramas de relacionamento guiados por interpretações sólidas, O Sol Nunca Se Põe oferece um retrato honesto – e curioso – do que significa se perder em pleno dia claro. O Salada de Cinema destaca que a obra ainda busca distribuição mundial, mas já desponta como um dos trabalhos mais coesos de Joe Swanberg.









