Friends continua presente na cultura pop quase duas décadas após sua despedida, mas nem todos os aspectos da série envelheceram bem. Um dos pontos que mais geram discussão é o comportamento de Ross Geller, vivido por David Schwimmer.
Embora o ator entregue uma performance elogiada e garanta boas risadas, certas atitudes do personagem deixaram um gosto amargo no público. Abaixo, revisitamos dez situações em que Ross foi, sem rodeios, o pior.
O legado de Friends e a construção de Ross Geller
Lançada em 1994 pela NBC, Friends tornou-se fenômeno global sob a batuta dos criadores Marta Kauffman e David Crane. A direção de nomes como Kevin S. Bright e Gary Halvorson, aliada a roteiros leves, firmou o tom cômico baseado em dinâmicas cotidianas.
No centro dessas interações, Ross Geller foi concebido como o romântico indeciso do grupo. David Schwimmer abraçou a proposta com timing cômico preciso, mas a evolução do roteiro — sempre assinada em conjunto por uma sala diversa de roteiristas — acabou levando o paleontólogo a escolhas cada vez mais questionáveis. É aí que o charme do intérprete colide com ações moralmente duvidosas.
Por que Ross Geller provoca tanto debate?
Parte do fascínio em torno do personagem surge da dualidade entre sua imagem de “cara legal” e comportamentos tóxicos. O roteiro, ao mesmo tempo que o coloca como alívio cômico, expõe inseguranças e uma forte necessidade de controle — ingredientes perfeitos para cenas memoráveis, porém problemáticas.
A recepção crítica atual — apoiada em maratonas de streaming e em discussões online — costuma apontar que muitos episódios tratam temas sensíveis de maneira superficial. Nesse contexto, Ross destaca-se negativamente, principalmente em assuntos como relacionamentos, consentimento e machismo.
Imagem: Divulgação
Os 10 piores momentos de Ross Geller
- Sabotar o emprego dos sonhos de Rachel – Temporada 10, episódio 18
Ross tenta impedir Rachel de aceitar uma oferta de trabalho em Paris, chegando a convencê-la a reatar com o antigo chefe e, depois, correndo para o aeroporto para barrar o voo. A interferência demonstra egoísmo e manipulação. - Propor casamento a Emily ainda apaixonado por Rachel – Temporada 4, episódio 24
Mesmo consciente de seus sentimentos mal resolvidos, Ross faz um pedido impulsivo. O resultado é o famoso “I take thee, Rachel”, que destrói a confiança de Emily. - Esquecer o próprio filho, Ben – Diversos episódios após a 6ª temporada
Ben some da narrativa à medida que Emma nasce. Ross praticamente deixa de mencioná-lo, expondo um desequilíbrio gritante na dedicação paterna. - Trair Rachel com Chloe – Temporada 3, episódio 15
Já no dia seguinte, Ross mente, esconde a funcionária da cópia e tenta varrer tudo para debaixo do tapete. O famoso debate “estávamos dando um tempo” não apaga o comportamento culposo. - Desrespeitar a crença de Phoebe sobre reencarnação – Temporada 4, episódio 2
Quando a amiga acredita que a mãe reencarnou em um gato, Ross ridiculariza a ideia, grita “Não é sua mãe, é um gato!” e só recua depois de perceber a própria grosseria. - Ser um namorado controlador – Vários momentos
Ciúmes patológicos em relação a Rachel, críticas à profissão dela, listas comparativas entre parceiras e vigilância constante transformam Ross em um parceiro tóxico em diferentes arcos. - Namorar a aluna Elizabeth – Temporada 6, episódio 21
Apesar da diferença de poder, ele insiste no romance e, ironicamente, se espanta com atitudes imaturas de uma estudante de 20 anos. - Menosprezar o casal Carol e Susan – Desde a 1ª temporada
Ross reage mal ao término com Carol e, por anos, solta piadas homofóbicas e questiona a validade do casamento das duas. - “Aula” de unagi com agressão – Temporada 6, episódio 17
Para provar um ponto sobre alerta constante, Ross tenta surpreender Rachel e Phoebe em becos, ignorando o medo real de violência que mulheres enfrentam. - Gravar Rachel durante o sexo e guardar a fita – Temporada 8, episódio 4
Sem consentimento, ele registra o momento íntimo e, ao invés de destruir a gravação, a mantém e ainda usa como ameaça quando a discussão esquenta.
Decisões de roteiro, direção e a interpretação de Schwimmer
Boa parte dessas situações nasce da busca de roteiristas por conflitos humorísticos rápidos, comuns em sitcoms dos anos 1990. Porém, sob a lente atual, muitos desses ganchos evidenciam machismo ou abuso de poder. Diretores como James Burrows e Michael Lembeck priorizaram o timing da piada, enquanto Schwimmer precisava equilibrar vulnerabilidade e comicidade.
O resultado é um personagem tridimensional, capaz de transitar entre a gargalhada e o desconforto. A entrega do ator evita que Ross se torne mera caricatura; ao mesmo tempo, escancara as falhas humanas do protagonista, o que mantém o debate vivo e atrai novos públicos ao catálogo da série no streaming — inclusive leitores do Salada de Cinema, que sempre buscam tramas instigantes como as das séries distópicas perfeitas do começo ao fim.
Vale a pena rever Friends em 2024?
Friends continua divertida e influente, mas exige olhar crítico para comportamentos como os de Ross Geller. Quem revisita a série hoje pode enxergar piadas datadas e, ainda assim, apreciar a química do elenco e a evolução da comédia televisiva.




