Timothée Chalamet já viveu heróis espaciais, poetas atormentados e até líderes messiânicos, mas, segundo o próprio ator, nada foi tão ousado quanto dar vida ao jovem Willy Wonka. Durante um evento realizado pela Variety e pela CNN na Universidade do Texas, ele revelou que a aventura musical dirigida por Paul King representou o passo mais “desconfortável” de sua trajetória.
Mesmo com uma bilheteria mundial de US$ 634,7 milhões e críticas majoritariamente positivas, Chalamet sente que Wonka ainda não teve “a devida chance” na conversa sobre seu trabalho. A fala reacendeu o debate sobre a versatilidade do intérprete de Paul Atreides, que em breve retorna em Duna: Parte Três, produção em que, conforme o próprio Timothée Chalamet promete um Paul “mais intenso”.
Um instinto guiado por diretores consagrados
Perguntado sobre o critério que mais pesa na hora de aceitar um personagem, o ator foi direto: “O instinto é trabalhar com grandes diretores”. Essa bússola o levou de Christopher Nolan (Interestelar) a Greta Gerwig (Lady Bird), passando por Denis Villeneuve (Duna) e, mais recentemente, Paul King, responsável pelos elogiados Paddington e Paddington 2.
Segundo Chalamet, sem alguém “capaz de domar” a atuação, o resultado não aparece. Por isso, mesmo sendo conhecido por papéis dramáticos, ele enxergou na fantasia musical de King uma oportunidade de manter a parceria artística de alto nível que vem marcando sua filmografia desde 2017, ano de sua indicação ao Oscar por Me Chame Pelo Seu Nome.
O desvio de rota que levou ao chocolate
Depois de obras densas como Adoráveis Mulheres e Duna, topar cantar e dançar como um jovial Wonka soou, nas palavras do ator, “punk rock”. Para ele, assumir um longa “que não fala sobre drogas ou assuntos considerados cool” fugiu do roteiro habitual e, justamente por isso, representou risco.
A aposta contrastou com participações mais curtas em projetos cômicos, como Não Olhe Para Cima, onde seu papel era coadjuvante. Em Wonka, Chalamet carregou a narrativa e virou o principal rosto de divulgação, algo que intensifica qualquer comparação com Gene Wilder, intérprete clássico do fabricante de chocolates em 1971.
Como a performance se sustenta na tela
Os números de aprovação no Rotten Tomatoes — 82 % da crítica e 90 % do público — indicam que o trabalho deu certo. Muitos elogios se concentraram justamente na maneira como o ator equilibrou leveza e melancolia, traço que já aparecia em filmes anteriores, mas ganhou tom mais luminoso sob a batuta de Paul King.
Imagem: PA s
A trilha sonora e as coreografias ajudaram a moldar essa impressão, porém a composição de Chalamet, alternando sotaque delicado e olhares de fascínio infantil, foi destaque frequente nas resenhas. Ao comentar a experiência, ele reforçou que ganhou “chocolate grátis”, mas brincadeiras à parte, deixou claro que a ousadia de abandonar territórios dramáticos trouxe aprendizado técnico — especialmente no controle vocal exigido por números musicais.
Reconhecimento x expectativa: onde Wonka perdeu espaço?
Apesar do sucesso financeiro — lucro expressivo diante do orçamento estimado em US$ 125 milhões —, Wonka não chegou ao patamar de prêmios das demais produções de Chalamet. O próprio ator reconhece que esperava um “retorno mais justo”, sentimento que contrasta com a recepção calorosa de títulos como Duna: Parte Dois e de sua atuação no futuro drama biográfico A Complete Unknown.
Esse hiato entre boa bilheteria e menor atenção em premiações faz ecoar a fala do intérprete: “Sinto que o filme não teve chance de fato”. Ainda assim, a carreira do nova-iorquino segue em alta. Ele venceu o Globo de Ouro por Marty Supreme e aparece como favorito ao Oscar, enquanto negociações de mercado, a exemplo da pressão sobre distribuidoras após estreias mornas, mostram o valor de apostas certeiras como Wonka para os estúdios.
Vale a pena assistir Wonka?
A julgar pelo resultado nas salas e pela chancela “Certified Fresh”, Wonka entrega uma leitura refrescante do clássico personagem. Para quem acompanha o Salada de Cinema e procura ver Timothée Chalamet em um registro diferente, o longa de Paul King surge como curiosa vitrine do alcance artístico do ator, sem comprometer a ambição de seus próximos passos em franquias mais sisudas.









