O conflito envolvendo propriedade intelectual e ferramentas de inteligência artificial acaba de ganhar um novo capítulo. A Netflix notificou formalmente a ByteDance, dona do TikTok, após detectar a circulação de vídeos criados pela plataforma Seedance 2.0 que reproduziam séries e filmes do catálogo do streaming.
Em carta enviada na terça-feira, 17 de fevereiro, a gigante do entretenimento uniu-se a Warner Bros., Disney e Paramount no envio de cease and desist à empresa chinesa. A Motion Picture Association (MPA) e o sindicato SAG-AFTRA endossaram a reclamação, classificando o material como “violação flagrante de direitos autorais”.
Entenda o embate entre Netflix e ByteDance
A discussão ganhou força quando conteúdos gerados por IA, que imitavam tramas e personagens de sucessos como Stranger Things, Squid Game, Bridgerton e o longa animado KPop Demon Hunters, começaram a viralizar no TikTok. Segundo Mindy LeMoine, chefe do contencioso da Netflix, a plataforma jamais autorizou a exploração dessas propriedades intelectuais.
Para LeMoine, o uso de obras protegidas na criação de um produto comercial concorrente fere diretamente a legislação de direitos autorais. A executiva argumenta que a prática vai além do conceito de fair use, uma vez que o resultado “regurgita o original” ao invés de transformá-lo.
Quais produções estão no centro da disputa
Na notificação, a Netflix lista quatro pilares do seu catálogo: a série de ficção científica Stranger Things, o fenômeno sul-coreano Squid Game, o romance de época Bridgerton e a animação KPop Demon Hunters. Todas tiveram cenas recriadas pela Seedance, gerando milhões de visualizações no TikTok sem qualquer licença.
A popularidade desses títulos, cada qual com identidade visual marcante — do Demogorgon aos uniformes vermelhos dos guardas sul-coreanos —, tornou suas versões apócrifas instantaneamente reconhecíveis. Para o Salada de Cinema, casos assim reforçam a urgência de regras claras sobre o uso de IA em produtos audiovisuais.
Os pedidos formais da plataforma de streaming
Com prazo de três dias para resposta, a carta estabelece quatro exigências:
- Interrupção imediata da geração de conteúdo que se assemelhe a personagens, cenários ou títulos da Netflix.
- Remoção de todos os dados que contenham obras do streaming dos bancos de treinamento da Seedance, além da exclusão dos vídeos já publicados.
- Relatório detalhado enumerando cada vez que a IA produziu material derivado de produções da empresa.
- Bloqueio de acesso de terceiros que usem a API da Seedance para criar trabalhos não autorizados baseados nessas obras.
A ByteDance, que recentemente afirmou estar “fortalecendo salvaguardas” contra uso não autorizado de imagens e marcas, ainda não divulgou resposta definitiva. A expectativa é de que um posicionamento oficial seja acelerado pela pressão conjunta dos estúdios de Hollywood.
Imagem: Divulgação
Impacto para o futuro do conteúdo gerado por IA
A movimentação faz parte de uma tendência que se intensificou após as greves da WGA e da SAG-AFTRA em 2023 e 2024, motivadas, entre outros pontos, pela crescente adoção de IA nos fluxos de trabalho dos estúdios. Desde então, empresas como Disney e Universal também adotaram postura mais rígida — embora a Disney tenha fechado, por outro lado, um grande acordo com a OpenAI para uso legal de suas marcas.
Especialistas apontam para um cenário parecido com o do YouTube, onde algoritmos automáticos identificam material protegido e bloqueiam seu uso. Caso as demandas da Netflix prosperem, plataformas que hospedam ou geram conteúdo via IA poderão ter de criar filtros semelhantes para evitar processos vultosos.
Enquanto isso, curiosidades de bastidor continuam a circular em produções de peso. Basta lembrar a participação de Grogu em The Mandalorian, que rendeu memes e comparações com criações virtuais — um lembrete de que a linha entre homenagem e infração segue cada vez mais tênue.
Vale a pena assistir às séries envolvidas?
Para quem ainda não conferiu os títulos citados, Stranger Things mantém ritmo eletrizante ao misturar suspense oitentista e desenvolvimento sólido de elenco jovem. Já Squid Game oferece crítica social potente, com direção precisa e atuações que exploram nuances de desespero humano. Em Bridgerton, o charme está no texto afiado dos roteiristas, apoiado em química invejável entre os protagonistas, enquanto KPop Demon Hunters investe numa animação vibrante, coreografias musicais bem ensaiadas e humor leve.
Mesmo com a polêmica atual, essas produções continuam disponíveis no catálogo oficial da Netflix, onde podem ser vistas com qualidade garantida e, claro, respeito aos direitos de criadores, atores e equipes técnicas.



