O Prime Video acaba de liberar Metas de Relacionamento, adaptação do best-seller de Michael Todd. A produção reúne 93 minutos de discussões espirituais, mas quase não encontra espaço para a leveza típica de uma comédia romântica.
Nesta análise, o Salada de Cinema observa como as escolhas do roteiro e da direção reverberam na performance de Kelly Rowland, Clifford “Method Man” Smith e companhia, sem ignorar ritmo, fotografia e a recepção de quem procura apenas diversão.
Elenco limitado por personagens unidimensionais
Kelly Rowland interpreta Leah Caldwell, jornalista competitiva que rejeita qualquer manifestação de fé. A cantora entrega vigor nas cenas de estúdio, sobretudo quando o roteiro exige ironia ou sarcasmo. No entanto, a personagem recebe pouquíssimas camadas: falta dúvida interna, sobra certeza de que tudo se resolverá após uma única orientação pastoral.
Clifford Smith, o Method Man, surge como Jarrett Roy, ex-namorado arrependido de uma traição antiga. Sua virada de vilão doméstico para porta-voz do pastor acontece em segundos, sem conflito convincente. O ator, conhecido pelo carisma, fica preso a frases motivacionais que minam qualquer tensão dramática.
Entre os coadjuvantes, nomes como Robin Thede, Annie Gonzalez, Dennis Haysbert, Matt Walsh e Ryan Jamaal Swain aparecem em participações relâmpago. A falta de subtramas impede o espectador de se envolver com essas figuras, repetindo o problema visto em Quando a Morte Sussurra 3, que também desperdiça um elenco talentoso em papéis rasos.
Roteiro transforma livro religioso em propaganda estendida
A base de Metas de Relacionamento é Relationship Goals: How to Win at Dating, Marriage, and Sex. Quase cada obstáculo amoroso recebe a mesma resposta: consulte o livro do pastor Michael Todd. O resultado lembra menos cinema e mais infomercial, afastando o público que esperava um “enemies to lovers” tradicional.
O arco central até poderia funcionar. Leah e Jarrett disputam a ancoragem do principal programa matinal de Nova York, premissa que promete faíscas profissionais e amorosas. Porém, o texto opta por longas lições sobre perdão incondicional, ignorando a gravidade da infidelidade e empurrando a reconciliação para o campo espiritual. Assim como em Caminhos do Crime, existe a tentativa de equilibrar dilemas pessoais com jornada de fé; a diferença aqui é que a balança cai inteira para o lado dos sermões.
Imagem: Divulgação
Direção didática reforça clima de sala de aula
Linda Mendoza filma em dois ambientes principais: redações envidraçadas e templos cuidadosamente iluminados. A câmera mantém close-ups prolongados sempre que um personagem “recebe” a mensagem divina, recurso que repete tantas vezes que interrompe o fluxo narrativo.
Enquanto filmes do gênero investem em montagem paralela para aumentar a química entre o casal, Metas de Relacionamento prefere enquadrar capas de livros e telões com versículos. A disputa pelo programa matinal — potencial terreno para humor físico e tensão profissional — vira pano de fundo estático, lembrando o didatismo presente em produções religiosas que priorizam o recado em detrimento da dramaturgia.
Ritmo arrastado mesmo com curta duração
Com 93 minutos, o longa supostamente caberia em um fim de noite, mas a cadência de falas expositivas alonga a experiência. Quase não há pausas para gags visuais ou diálogos espirituosos. As poucas tiradas cômicas, como a comparação entre mulheres e nuggets de frango, soam desconfortáveis e quebram qualquer empatia que o público ainda nutria.
Para quem gosta de narrativas explicitamente religiosas, a caminhada contemplativa pode fazer sentido. Contudo, espectadores a fim de algo leve podem sentir a mesma fadiga relatada por fãs de sitcoms que apontam como Barney Miller equilibrou discussão social e bom humor sem perder o ritmo.
Vale a pena assistir?
Metas de Relacionamento encontra boas intenções ao falar de perdão, autoconhecimento e fé. Entretanto, personagens unidimensionais, viradas repentinas e ausência de química romântica limitam o talento de Kelly Rowland e Method Man. A direção de Linda Mendoza reforça a sensação de sermão, deixando o material dramático em segundo plano. Quem procura mensagens espirituais diretas talvez encontre valor; já o público interessado em risadas e romance poderá sair antes dos créditos.









