James Cameron deixou o próprio Titanic afundar em lenços de papel. Ele confessou ter chorado duas vezes durante a sessão de Hamnet, novo longa de Chloé Zhao indicado ao Oscar. A revelação veio num encontro de diretores que discutiam o poder do cinema em explorar amor, perda e memória.
Com estreia marcada para 26 de novembro de 2025, o drama inspirado no romance de Maggie O’Farrell reconstrói a intimidade de William Shakespeare e Anne Hathaway após a morte do filho. Mais do que um retrato histórico, o filme aposta em sutilezas que fizeram até o comandante de Avatar: Fire and Ash desabar na poltrona.
Direção de Chloé Zhao mantém a lente colada na dor silenciosa
Conhecida por Nomadland e Eternos, Chloé Zhao troca as paisagens norte-americanas pelo interior inglês do século XVI sem perder a identidade autoral. A cineasta filma a rotina do casal com câmeras leves, buscando luz natural e ângulos que prendem o espectador dentro da casa de campo onde a tragédia explode. Essa escolha declina a pompa habitual de produções de época e sublinha cada respiração contida dos personagens.
A diretora também assina o roteiro ao lado da própria O’Farrell. Juntas, priorizam o ponto de vista de Anne, chamada de Agnes no livro, e reduzem a presença de Shakespeare ao essencial. O conflito ganha peso pelo não dito: quando Paul Mescal tenta escrever Hamlet em silêncio absoluto, a câmera prefere focar em Jessie Buckley costurando uma peça do filho morto. Esse contraste visual escancara o abismo que cada um cava para encarar o luto.
Jessie Buckley e Paul Mescal entregam atuações que sangram sem melodrama
Jessie Buckley, intérprete de Anne, comprova mais uma vez que domina personagens de forte interioridade. A atriz irlandesa regula cada microexpressão; um tremor no maxilar, por exemplo, substitui páginas de diálogo. A contenção convence o público de que a dor é tão física quanto psicológica. Não surpreende que críticos já comparem seu trabalho aqui com o de Leonardo DiCaprio em O Regresso, relançado recentemente em IMAX e celebrado pelo Salada de Cinema.
Do outro lado da mesa, Paul Mescal humaniza o autor mais celebrado do planeta. Ele evita a caricatura do gênio iluminado pelo sucesso; em vez disso, mostra um jovem pai que enxerga no teatro a única saída para elaborar o trauma. Sua voz falha ao tentar recitar versos para a esposa, e os olhos marejados sustentam a honestidade de cada cena. O resultado cria química palpável entre o casal, mesmo quando quase não se tocam depois da tragédia.
Fotografia e trilha ampliam a sensação de luto coletivo
O diretor de fotografia Joshua James Richards, parceiro habitual de Zhao, utiliza paleta dessaturada que evoca outonos eternos. A textura lembra pinturas a óleo rachadas pelo tempo, reforçando a ideia de que a narrativa poderia ter saído de um pergaminho. Planos sequência acompanham os personagens pelos corredores apertados, capturando ecos de vozes infantis que não estão mais ali.
Imagem: Divulgação
Já a trilha composta por Hildur Guðnadóttir adota violoncelo grave e percussão quase inaudível. A música surge em fade-ins sutis sempre que Shakespeare rabisca trechos da peça que o consagraria. Esse recurso sonoro amarra emoção e metalinguagem, lembrando que o próprio roteiro funciona como catarse, tanto para o escritor retratado quanto para quem assiste.
Reconhecimento na temporada de prêmios e impacto entre colegas de profissão
Hamnet já garantiu indicações em categorias de Melhor Filme, Direção, Ator, Atriz e Roteiro Adaptado, além de aspectos técnicos. O suporte de produtores como Sam Mendes e Steven Spielberg impulsionou a campanha, mas o comentário emocionado de James Cameron gerou novo fôlego publicitário. Quando o criador da franquia Avatar admite ter chorado “várias vezes”, a indústria presta atenção.
A identidade temática aproxima Zhao e Cameron mais do que se imagina. Assim como o luto assombra Hamnet, Avatar: Fire and Ash desenha a jornada dos Na’vi após a morte de Neteyam. A questão familiar, portanto, conecta não só as narrativas, mas também a sensibilidade de ambos os cineastas. Aos que acompanham movimentações de bastidores, chama atenção que Cameron questione Zhao sobre como manter o coração aberto em Hollywood, comentário que reverbera questões presentes em discussões sobre projetos como Piratas do Caribe 6, onde estúdios também negociam franqueza artística e bilheteria.
Vale a pena assistir?
Para quem busca drama de época tradicional, Hamnet surpreende ao priorizar sensações internas em vez de pompa shakespeariana. O longa evita grandes discursos e posiciona o público ao lado de dois pais que precisam reaprender a respirar. As atuações de Jessie Buckley e Paul Mescal sustentam cada minuto da narrativa, enquanto a direção de Chloé Zhao imprime lirismo sem cair em sentimentalismo exagerado.
Somados fotografia intimista, trilha emocional e texto que transforma sofrimento em arte, o resultado é um filme que, apesar do tema pesado, convida à reflexão sobre a própria função do ato de contar histórias. Não espanta que Cameron tenha se desarmado. Quem se permitir entrar naquele universo, provavelmente, também sairá tocado.









