Demorou, mas chegou. Colossal, a ousada mistura de ficção científica, comédia e horror estrelada por Anne Hathaway, acaba de entrar no catálogo da Netflix e reacende o debate sobre uma das performances mais corajosas da atriz.
Lançado em 2017, o longa passou quase despercebido nos cinemas, porém conquistou 82% de aprovação no Rotten Tomatoes. Agora, com a força da plataforma de streaming, o filme tem a chance de finalmente encontrar o público que perdeu nas bilheterias.
Premissa gigante: quando o drama encontra o kaiju
Colossal abraça uma ideia tão simples quanto maluca: cada vez que Gloria, protagonista vivida por Hathaway, entra de madrugada em um parquinho de sua cidade natal, um monstro colossal surge em Seul e copia seus movimentos. A ligação entre a jovem alcoólatra e a criatura de destruição em massa causa, ao mesmo tempo, estranhamento e fascínio.
A proposta funciona por dois motivos. Primeiro, a alegoria é clara: o kaiju representa os danos que hábitos autodestrutivos provocam não apenas no indivíduo, mas em quem está ao redor. Segundo, o roteiro de Nacho Vigalondo sabe equilibrar o humor ácido com reflexões densas sobre controle, culpa e redenção. O resultado é um filme que transita com naturalidade entre o drama íntimo e o espetáculo de efeitos práticos e digitais.
Ideias igualmente arriscadas vêm ganhando espaço no streaming — basta lembrar da comédia fantástica Good Fortune, com Keanu Reeves, que também brinca com gêneros híbridos para falar de temas adultos.
Anne Hathaway se entrega ao papel
Se Colossal impressiona, grande parte do mérito recai sobre a atuação de Anne Hathaway. A atriz retrata o alcoolismo de Gloria sem glamourizar o vício. Há tremores, lapsos de memória e ataques de autopiedade que soam dolorosamente reais. O espectador se vê dividido entre empatia e frustração, sensação que aproxima a narrativa da realidade de quem convive com dependentes químicos.
Hathaway não recorre aos tiques dramáticos mais comuns. Em vez disso, aposta em silêncios incômodos e olhar perdido para transmitir a perda de controle. Quando Gloria percebe que comanda um monstro do outro lado do planeta, a expressão de incredulidade logo dá lugar a um brilho de responsabilidade recém-descoberta. Essa virada é o coração emocional do filme.
A atriz já tinha mostrado versatilidade em produções tão distintas quanto O Diabo Veste Prada e Interstellar, mas aqui entrega um registro mais cru. É como se aproveitasse a liberdade de um projeto menor para arriscar nuances que superproduções costumam podar.
Jason Sudeikis e companhia oferecem contrapeso sombrio
Jason Sudeikis, conhecido pelo carisma de papéis cômicos, aparece invertido: seu Oscar começa como bom moço, mas revela uma toxicidade crescente que dialoga com relacionamentos abusivos. O ator demonstra timing para o terror psicológico, criando um antagonista que dispensa maquiagem monstruosa; o terror brota da manipulação emocional.
Dan Stevens, Austin Stowell e Tim Blake Nelson completam o elenco com presenças pontuais, porém eficientes para destacar os ciclos de codependência. Cada um funciona como espelho dos problemas de Gloria, reforçando a metáfora do kaiju interno.

Imagem: Roger Wg/INSTARs
A interação entre Hathaway e Sudeikis sustenta os melhores momentos. Quando o par divide a tela, o espectador sente a tensão quase palpável, intensificada por diálogos carregados de subtexto. Essa química sombria é o que mantém o terceiro ato ancorado na realidade, mesmo durante a sequência explosiva em Seul.
A assinatura de Nacho Vigalondo no roteiro e na direção
Nacho Vigalondo, cineasta espanhol indicado ao Oscar por seu curta 7:35 de la Mañana, conduz Colossal como quem faz terapia em público. O diretor já declarou que colocou muito de sua própria experiência com sensação de descontrole nos personagens principais, o que explica a franqueza de certas cenas.
Visualmente, o filme evita o excesso digital e usa maquetes combinadas a CGI econômico, estratégia que evoca produções de Godzilla dos anos 60. O design do monstro, embora não revolucionário, carrega personalidade suficiente para que o público identifique imediatamente sua ligação com Gloria.
Vigalondo também assina o roteiro, costurando humor negro e crítica social em diálogos ágeis. Ele mantém ritmo firme durante os 109 minutos, alternando sequências de destruição em massa com conversas intimistas em um bar decadente. Esse vaivém mantém a história fresca e impede que o conceito se esgote.
O diretor volta ao radar de Hollywood em momento oportuno: enquanto cineastas como Dan Trachtenberg expandem franquias de gênero — vide o interesse contínuo do realizador em Predator, detalhado aqui —, Vigalondo comprova que ainda há espaço para autoralidade na ficção científica.
Vale a pena assistir Colossal no Netflix?
Para quem busca apenas um espetáculo de monstros, Colossal pode surpreender pela carga dramática. Já quem procura um estudo sobre vício e abuso, encontrará no filme analogias visuais inventivas. O equilíbrio entre gêneros torna a obra singular no catálogo da Netflix.
A entrada do longa na plataforma facilita o acesso a um título que antes circulava em serviços sob demanda pouco populares. É oportunidade ideal para ver Anne Hathaway em estado bruto, antes de seus grandes projetos recentes.
Colossal não quebrou recordes de bilheteria, mas tem tudo para conquistar nova audiência agora. No Salada de Cinema, continua sendo recomendado para quem gosta de experimentos que fogem do previsível. E, convenhamos, ver um kaiju dançando bêbado já vale o tempo investido.



