Lançada em 21 de janeiro no Prime Video, Steal surgiu como a nova aposta do streaming para quem curte roubos bilionários, detetives obstinados e dilemas morais espinhosos. A minissérie tem apenas seis episódios, mas prometia condensar adrenalina de filme de ação em ritmo televisivo.
O primeiro capítulo entrega exatamente isso: um assalto meticuloso, cortes acelerados e a sensação de que qualquer deslize detonará bilhões de libras. A impressão, contudo, dura pouco. Entre altos e baixos, o projeto se sustenta mesmo na força do elenco, liderado por Sophie Turner.
O assalto que hipnotiza logo no início
Steal abre com Zara Dunne (Sophie Turner) na mesa apertada de uma gestora de investimentos, rotina que vira do avesso quando uma quadrilha de profissionais invade o prédio e orquestra a transferência dos fundos de pensão da empresa. Filmada em corredores estreitos e salas espelhadas, a sequência deixa claro o calibre da produção: edição certeira e uso de silêncio dramático para potencializar o perigo.
Dirigida por Hettie Macdonald ao lado de Sam Miller, a estreia lembra a pegada frenética de Moses the Black analisada pelo Salada de Cinema, mas trocando explosões por cliques de teclado e ameaças murmuradas. O choque inicial prende o público e apresenta com eficiência o trio central: a vítima, o detetive Rhys Covac (Jacob Fortune-Lloyd) e os ladrões sem rosto.
Sophie Turner conduz a tensão emocional
Turner assume a protagonista sem vestígios de sua Sansa Stark. Em Steal, a atriz equilibra fragilidade e audácia, revelando camadas logo que a polícia a transforma em peça-chave para desvendar o golpe. Seu olhar vacilante transporta a culpa de quem teme ser cúmplice e, ao mesmo tempo, vítima da própria ambição.
Jacob Fortune-Lloyd responde à intensidade da colega com um investigador pragmático, levemente cínico. O embate entre os dois domina cenas posteriores, pois cada palavra trocada pode incriminar ou inocentar Zara. O jogo de gato e rato lembra a construção de tensão vista na produção francesa Sirat exibida em Cannes, ainda que Steal permaneça menos ousada no campo visual.
Direção certeira vs. roteiro cambaleante
A dupla de diretores demonstra talento para filmar ação compacta: a segunda metade do assalto, flashbacks nos servidores da empresa e perseguições a pé aproveitam uma fotografia fria, quase metálica, coerente com o universo financeiro. Cada plano contribui para a sensação de que números podem ser tão letais quanto revólveres.
O que enfraquece é o texto. Os roteiristas estabelecem reviravoltas que, em tese, deveriam transformar o jogo, mas muitas surgem anunciadas, sem surpresa real. O público atento percebe cedo quem manipula quem, reduzindo o impacto dramático. Essa dificuldade em manter tensão lembra os tropeços narrativos de Vanished comentados aqui no site.
Além disso, criminosos secundários recebem pouco desenvolvimento. Faltam motivações que justifiquem tamanha operação internacional, problema que impede o espectador de sentir o perigo expandir além dos corredores da Lochmill Capital.

Imagem: Divulgação
Ritmo em zigue-zague ameaça o suspense
Depois de um piloto explosivo, Steal desacelera; o episódio dois investe em longos diálogos sobre ética corporativa, enquanto o três recorre a exposições de bastidores da polícia. Essas escolhas diluem a urgência que o gênero pede. Mesmo com seis partes, a minissérie parece esticar situações para preencher o tempo de tela.
Quando a ação volta a ganhar corpo, já no quinto capítulo, parte da tensão se perdeu. A montagem tenta compensar com flashbacks encadeados, mas as conexões soam corridas. Falta o equilíbrio alcançado por Rock Springs em seu terror histórico, que alterna clímax e respiro com mais atenção ao compasso.
A trilha sonora, outro elemento vital em thrillers, acompanha a oscilação. Há faixas eletrônicas energéticas durante o assalto, substituídas por acordes sutis nas investigações. A variação ajudaria, não fosse o hiato emocional entre as cenas.
Vale a pena assistir Steal?
Para quem busca uma série curta com boa entrega de elenco, Steal cumpre serviço. Sophie Turner carrega a narrativa com nuances que prendem o espectador, enquanto Jacob Fortune-Lloyd sustenta a química nos interrogatórios. A direção, quando precisa acelerar, prova que sabe criar set pieces eficientes.
Porém, quem espera um thriller recheado de surpresas talvez se frustre. As revelações chegam sem o impacto prometido e o ritmo irregular quebra o suspense em momentos cruciais. Ainda assim, a mistura de drama psicológico e ação corporativa oferece passagens envolventes, principalmente nas cenas meticulosamente coreografadas de Miller.
No fim, Steal vale a maratona de fim de semana se a sua prioridade for apreciar boas atuações em ambiente de alta tensão financeira. Se procura um quebra-cabeça narrativo mais complexo, pode considerar outras opções no catálogo do Prime Video ou revisitar série como The Beauty famosa pelo humor ácido e horror corporal.




