Guillermo del Toro surpreendeu o público do Festival de Sundance ao anunciar, durante a exibição da cópia restaurada de Cronos, que a tão falada versão estendida de Frankenstein está pronta. O cineasta descreveu o novo corte como o “all the stitches cut”, brincadeira que remete à quantidade de costuras do próprio monstro e, claro, às cenas recolocadas na narrativa.
Embora sem data ou plataforma definidas, o realizador adiantou que veremos material suficiente para alterar o ritmo do longa e aprofundar temas apenas sugeridos na edição que chegou aos cinemas e à Netflix em 2025. Com isso, cresce a expectativa dos fãs de horror gótico e dos apreciadores de cortes do diretor, tendência que também rendeu destaque recente a produções como Inception de Christopher Nolan.
O que muda na versão estendida de Frankenstein
O filme original, de 149 minutos, já causou comentários pela estrutura circular que acompanha Victor Frankenstein (Oscar Isaac) desde a megalomania científica até o reconhecimento trágico de suas falhas. Del Toro, agora, devolve sequências inteiras de laboratório e diálogos que reforçam a relação pai e filho entre criador e criatura. Segundo relatos de quem assistiu a trechos, a narrativa ganha respiro para explorar o sofrimento silencioso do monstro, interpretado por Jacob Elordi, e o sentimento de culpa que corrói Victor.
Quem sentiu falta de um clímax mais longo deve se animar: o “all the stitches cut” traz cenas adicionais no Ártico, local em que a perseguição entre os dois personagens atinge o ponto máximo. Nesses momentos, o design de som, premiado na versão de 2025, volta a ser peça-chave, agora sem cortes, ressaltando a respiração ofegante do monstro e o gelo quebrando sob seus pés. Del Toro costuma afirmar que horror e melancolia caminham juntos; a montagem ampliada, ao que tudo indica, consolida essa visão.
Atuações ganham novo peso dramático
Oscar Isaac foi amplamente elogiado pela transformação gradativa de Victor, que começa altivo, quase messiânico, até desmoronar diante das consequências éticas de seus experimentos. Na versão estendida, mais close-ups e pausas silenciosas prometem destacar microexpressões que antes passavam rápido, incluindo a sequência em que ele chama o monstro de “filho” segundos antes de morrer.
Jacob Elordi, por sua vez, utiliza toda a sua altura e presença física para impor respeito, mas a adição de diálogos internos — gravados em off durante a pós-produção — confere vulnerabilidade rara. Ele torna o monstro menos vingativo e mais defensivo, abordagem alinhada à proposta de del Toro de humanizar a criatura. O contraste entre a fala pausada de Elordi e o olhar desesperado de Isaac potencializa o drama, oferecendo ao público um duelo de atuações que relembra embates intensos de projetos como o elogiado The Weight, estrelado por Ethan Hawke e Russell Crowe.
Direção e roteiro: costuras reforçadas
Guillermo del Toro divide o roteiro com a mentora literária Mary Shelley, listada oficialmente nos créditos. A versão estendida realça o trabalho de adaptação ao permitir que o texto original emerja nas entrelinhas: há trechos quase literais do livro nos monólogos de Victor sobre responsabilidade científica. Esse cuidado literário se soma à estética barroca típica do diretor, presente nos corredores úmidos do castelo e no brilho enevoado das lamparinas que iluminam o rosto do monstro.
Imagem: Divulgação
Do ponto de vista técnico, a fotografia de Dan Laustsen ganha segundos preciosos de contemplação: planos no cemitério, antes breves, agora revelam a textura das lápides cobertas de musgo. A trilha de Alexandre Desplat também retorna com passagens completas, dispensando cortes abruptos que comprometiam o crescendo emocional. O resultado antecipa uma experiência mais imersiva, característica celebrada no Salada de Cinema quando o site analisou a estreia original.
Lançamento ainda indefinido, mas com múltiplas possibilidades
Durante o painel em Sundance, del Toro não confirmou se o novo Frankenstein chegará primeiro à Netflix, onde o filme segue disponível. O cineasta insinuou tanto um lançamento exclusivo na plataforma quanto uma rota híbrida, com exibições limitadas em IMAX e posterior distribuição em mídia física. Há, inclusive, a chance de edições colecionáveis em Blu-ray 4K, algo raro no catálogo do streaming.
Enquanto a data não é oficial, analistas do mercado apontam que a janela pode coincidir com o Halloween, período perfeito para reposicionar a obra nas listas de horror. A estratégia de marketing deve explorar o apelido “all the stitches” como selo de autenticidade, reforçando a ideia de que esta será a montagem definitiva. Para del Toro, oferecer cortes alternativos não é novidade; o diretor já lançou versões ampliadas de A Forma da Água e O Labirinto do Fauno em festivais menores antes de disponibilizá-las ao grande público.
Vale a pena ficar de olho na nova versão?
Se você apreciou a primeira edição, o corte estendido de Frankenstein tende a oferecer camadas adicionais sem comprometer o ritmo. O reforço no arco emocional de Oscar Isaac e Jacob Elordi, aliado à assinatura visual de Guillermo del Toro, sugere um mergulho mais profundo na culpa, na solidão e na busca por aceitação. Para os curiosos em ver como pequenas costuras transformam a anatomia de um filme, a resposta promete ser positiva.



