Todo fã de anime conhece a fama de Naruto quando o assunto é filler, mas a verdade é que o ninja de Konoha nem figura no topo do ranking dos excessos. Existem produções que, na ânsia de alcançar o mangá ou manter a audiência, transformam episódios extras em verdadeiras maratonas de paciência.
Nesta análise, o Salada de Cinema mergulha em sete títulos que elevaram o “arco provisório” a outro patamar. Além da contagem de capítulos, avaliamos o trabalho de diretores, roteiristas e, claro, o esforço do elenco de voz para manter a chama do interesse acesa — às vezes, sem muito sucesso. Para efeito de comparação, vale lembrar que a direção e elenco de Naruto já foram bastante criticados pelo vai-e-vem entre ação principal e conteúdo paralelo.
Prince of Tennis transforma cada raquetada em jornada épica
Lançado em 2001 sob a direção de Takayuki Hamana, Prince of Tennis começa como um drama esportivo sobre o prodígio Ryoma Echizen, mas logo adota tom quase fantasioso. A equipe de roteiro estica jogadas simples por minutos inteiros, repetindo enquadramentos em câmera lenta e comentários redundantes do narrador. O resultado: partidas que caberiam em meio episódio ocupam a programação de uma semana inteira.
Apesar da competência de dubladores como Junko Minagawa (Ryoma), o esforço vocal esbarra em diálogos reciclados. A falta de criatividade nos fillers prejudica até as trilhas sonoras de Cher Watanabe, que se repetem à exaustão. O excesso de close-ups dramáticos, recurso constante de Hamana, evidencia a tentativa de preencher tempo sem acrescentar profundidade aos personagens.
Endless Eight: quando Haruhi Suzumiya brinca com a sanidade do público
O estúdio Kyoto Animation costuma primar pela ousadia visual, mas exagerou na segunda temporada de The Melancholy of Haruhi Suzumiya. O arco Endless Eight força o espectador a reviver oito episódios quase idênticos, sustentados pela trama de looping temporal. Tecnicamente não se trata de filler clássico — há impacto na narrativa — mas a execução lembra um experimento de resistência.
A direção de Tatsuya Ishihara gravou cada repetição do zero, trocando ângulos e leves inflexões no diálogo. Aya Hirano (Haruhi) e Tomokazu Sugita (Kyon) mostram habilidade ao variar entonações mínimas, mas, na prática, o público assiste à mesma história oito vezes. O roteiro de Nagaru Tanigawa, adaptado fielmente, salienta o conceito de déjà vu, porém falha em dosar frustração e recompensa. Muitos fãs abandonam a série antes do desfecho, exaustos pela sensação de estagnação.
Detective Conan: mais de 500 casos que pouco movem a trama principal
Case Closed, no ar desde 1996, é recordista em conteúdo paralelo. São mais de 500 episódios autossuficientes que não avançam a investigação de Shinichi Kudo sobre a Organização Negra. Gosho Aoyama, autor do mangá, fornece pistas centrais esparsas, e a Toei opta por preencher lacunas com crimes da semana. O formato repete a fórmula: descoberta do cadáver, linha de raciocínio de Conan e a tradicional explicação final.
Minami Takayama, que dubla Conan, sustenta bem a curiosidade do espectador, assim como Wakana Yamazaki (Ran) traz leveza em momentos cômicos. Contudo, o volume de fillers dilui o peso emocional das revelações canônicas. A direção de Yasuichiro Yamamoto prioriza rotina e raramente ousa na cinematografia, reforçando a ideia de “episódio de plantão” que pode ser assistido fora de ordem — algo prático, mas que desgasta a fidelidade de quem busca progresso real.
Imagem: Divulgação
Shonen colossos: One Piece, Dragon Ball Z, Boruto e Bleach alongam batalhas e perdem ritmo
One Piece encara desde 1999 o dilema de alcançar o mangá de Eiichiro Oda. Para evitar hiatos, a Toei introduziu arcos originais e recaps extensos que reduzem a adaptação para menos de meio capítulo por episódio. Mesmo com a performance carismática de Mayumi Tanaka (Luffy), o público sente a quebra no ritmo. Não por acaso, discussões sobre estrutura narrativa ressurgem sempre que Luffy interrompe a busca pelo One Piece para uma aventura sem impacto na história. As recusas memoráveis em One Piece mostram que o protagonismo ousado de Luffy não salva um filler mal posicionado.
Dragon Ball Z, sob direção de Daisuke Nishio, elevou o “grito de carregamento” a arte. As vozes intensas de Masako Nozawa (Goku) e Ryo Horikawa (Vegeta) compensam, mas não disfarçam episódios dedicados a olhares de desafio. A demora para soltar um Kamehameha ou a “conversa” entre golpes diminui o impacto dramático criado por Akira Toriyama no mangá.
Boruto: Naruto Next Generations tentou agradar nova audiência, mas pecou pela dependência de tramas laterais. Junko Takeuchi, agora no papel de um Naruto adulto, e Yuko Sanpei (Boruto) entregam química sólida, porém enfrentam roteiros que adiam confrontos importantes com missões escolares ou vilões descartáveis. Parte da comunidade migrou direto para as páginas do mangá para fugir dessas interrupções.
Bleach não fica atrás. O diretor Noriyuki Abe precisou empurrar a produção até o retorno de Tite Kubo das pausas. O infame Arco Bount, com 28 episódios, traz antagonistas que jamais serão citados novamente. Mesmo com o vigor vocal de Masakazu Morita (Ichigo), a falta de relevância narrativa trava a imersão. Quando a trama principal finalmente retoma, muitos espectadores já desistiram.
Vale a pena maratonar mesmo com tantos fillers?
Se a intenção é acompanhar apenas a história canônica, a resposta passa por seleções criteriosas ou guias de corte. Quem aprecia a energia dos elencos de voz, curiosidades de bastidores e certas liberdades criativas pode até encontrar charme nos fillers. Ainda assim, a regra é clara: quanto melhor o equilíbrio entre direção, roteiro e atuação, menor a sensação de tempo desperdiçado. Em tempos de streaming, o botão de pular episódio se tornou aliado, permitindo que cada fã decida a medida certa de paciência para enfrentar esses gigantes do anime.









