Patrick Dempsey está de volta ao horário nobre com Memory Of A Killer, drama criminal que adapta o filme belga De Zaak Alzheimer. A série da Fox estreou em 25 de janeiro e ocupa as noites de segunda-feira, às 21h (ET), em busca de espaço entre os grandes títulos do gênero.
Com criadores experientes — Ed Whitmore e Tracey Malone — e um elenco que reúne nomes como Michael Imperioli, Odeya Rush e Gina Torres, a produção aposta em personagens complexos para prender o público. A seguir, o Salada de Cinema destrincha o que faz das performances e do texto os verdadeiros motores da trama.
O retorno de Patrick Dempsey à TV aberta
O protagonismo de Dempsey como Angelo Doyle oferece contraste marcante em relação ao icônico Derek Shepherd de Grey’s Anatomy. Em cena, o ator trabalha silenciosamente o desgaste mental de um matador profissional que encara o diagnóstico precoce de Alzheimer, evitando exageros e recorrendo a pequenos gestos para sugerir lapsos de memória.
Essa escolha minimalista se mostra eficiente: o espectador percebe a fragilidade do personagem em detalhes — a pausa prolongada antes de pegar a arma, o olhar perdido em meio a lembranças que se esvaem. A construção mantém a aura letal de Angelo, mas convida o público a compartilhar a angústia do protagonista.
Para Dempsey, a volta à TV aberta também marca um novo teste de popularidade. O ator passou anos focado no cinema e em corridas profissionais, e agora precisa comprovar que ainda dialoga com o grande público. O painel de audiência inicial foi morno, mas a performance segura indica fôlego para episódios futuros.
Parceiros de cena elevam o peso dramático
Michael Imperioli, imortalizado em Os Sopranos, assume o papel de Dutch, melhor amigo e mentor do protagonista. O intérprete traz a mesma intensidade moralmente ambígua que o consagrou, mas aqui a utiliza para criar uma figura quase fraterna. Quando Dutch percebe os lapsos de Angelo, a cumplicidade se transforma em desconfiança, e Imperioli imprime tensão apenas com o tom de voz.
Richard Harmon, conhecido por The 100, surge como Joe, o assassino em ascensão na quadrilha. O ator adota ritmo acelerado e impetuoso, servindo de espelho ao protagonista: enquanto Angelo desacelera, Joe quer provar seu valor. Essa oposição estabelece um conflito interno interessante.
Odeya Rush interpreta Maria, filha do protagonista. A atriz equilibra doçura e firmeza ao descobrir a verdadeira ocupação do pai, criando interações que ampliam o debate sobre lealdade familiar. Sua presença ganha ainda mais peso quando compartilha tela com Peter Gadiot, o vizinho e detetive Dave, personagem que adiciona o componente investigativo à equação.
Entre os coadjuvantes, vale destacar Gina Torres como Linda Grant, financiadora silenciosa dos crimes. A atriz preenche pouco tempo de tela com autoridade instantânea, repetindo a força vista em produções como Suits. Esse conjunto faz do elenco um dos trunfos da série, assim como ocorreu com títulos que atravessam plataformas e mantêm relevância, caso de Mayor of Kingstown, que dominou o streaming antes de chegar à Netflix neste ano.
Direção e roteiro: adaptação belga ganha novos contornos
Whitmore e Malone aproveitam a premissa do longa original, porém aprofundam a dualidade do protagonista. Em vez de focar apenas na deterioração da memória, o texto explora a fragilidade da estrutura criminosa quando o pilar principal começa a falhar. O resultado é um suspense que dialoga tanto com dramas familiares quanto com thrillers de perseguição.
Imagem: Divulgação
A direção mantém câmera próxima aos rostos, enfatizando os brancos de memória de Angelo. A fotografia aposta em tons frios — azuis e cinzas — que reforçam a atmosfera lúgubre, enquanto o som pontua silêncios incômodos que precedem crises de confusão.
Os roteiristas também inserem flashbacks esporádicos, sempre motivados por gatilhos visuais. Essa mecânica oferece pistas sobre eventos passados sem entregar respostas completas, estimulando teorias de fãs e ampliando o engajamento, recurso já testado em séries de suspense psicológico.
Dinâmica familiar e tensão policial sustentam a narrativa
Memory Of A Killer alterna dois eixos: a cadeia criminosa que cobra resultados e a família de Angelo, que desconhece sua verdadeira profissão. Esse equilíbrio faz a série escapar do rótulo de “apenas mais uma história de máfia”. Maria, grávida e em conflito com o marido Jeff (Daniel David Stewart), personifica o impacto do segredo paterno no núcleo doméstico.
No outro extremo, o detetive Dave, vizinho sem saber do passado violento de Angelo, investiga crimes que facilmente se conectam ao protagonista. A proximidade geográfica entre polícia e assassino gera tensão constante em cenas aparentemente cotidianas: um churrasco de bairro ou a simples luz acesa na varanda ganham contornos suspeitos.
A escolha de ambientar a trama numa cidade pequena, Hudson Springs, reforça essa sensação claustrofóbica. Todos se conhecem, e qualquer deslize vira rumor. Esse ambiente fechado realça a perda de controle de Angelo, contribuindo para a atmosfera opressora.
Vale a pena assistir Memory Of A Killer?
A série estreia com avaliações divididas, mas a crítica converge ao reconhecer o trabalho de elenco. Dempsey lidera com sobriedade, enquanto Imperioli e Rush acrescentam camadas emocionais que sustentam os episódios iniciais. A dupla de roteiristas, ao adaptar o material belga, entrega ritmo que alterna ação e reflexão sem arrastar a narrativa.
Para quem busca dramas policiais centrados em personagens, Memory Of A Killer oferece conteúdo suficiente para manter a curiosidade, sobretudo pela representação respeitosa — ainda que dolorosa — do Alzheimer em meio a um universo de violência. A fotografia fria e a direção contida reforçam o tom realista, o que pode agradar a quem valoriza detalhes visuais.
Com um horário competitivo na Fox e a missão de firmar audiência semanal, a série ainda precisa provar consistência a longo prazo. Entretanto, o conjunto de atuações e o texto calculado indicam potencial para conquistar plateias que apreciam suspenses de construção gradual, algo semelhante ao que ocorre em produções como a minissérie Dead Set, marcada por atuações afiadas e direção eficiente segundo crítica recente.









