Ryan Murphy volta a explorar o terror, agora em A Beleza, série que mistura ficção científica, thriller e humor ácido para contar a história de uma droga capaz de oferecer juventude eterna. Longe de caber em um único rótulo, a produção de 11 episódios aposta no exagero visual e em atuações intensas para captar o espectador desde os primeiros minutos.
Com um bilionário ambicioso no centro da trama — interpretado por Ashton Kutcher — e dois agentes tentando conter o caos, A Beleza envolve corrupção, desejo e consequências grotescas. O resultado é uma experiência que exige estômago, mas recompensa quem encara o desafio.
Elenco conduz a trama com energia e destaque para Evan Peters
A força de A Beleza reside, em primeiro lugar, no trabalho de seu elenco principal. Evan Peters domina a tela ao compor um agente dividido entre repulsa e fascínio pelo composto que altera corpos. Sua entrega física lembra momentos marcantes de American Horror Story, mas ele evita repetições ao mergulhar em nuances de vulnerabilidade raras em personagens desse tipo.
Rebecca Hall faz contraponto inteligente, exibindo frieza calculada que se desfaz à medida que o enredo avança. A sintonia entre os dois torna crível a parceria dos agentes, permitindo que o público acompanhe as descobertas sem questionar motivações. Já Anthony Ramos, em participação menos extensa, injeta humor sarcástico que alivia a tensão sem diluir o horror corporal.
Ashton Kutcher, por sua vez, encarna o magnata obcecado pela juventude com familiar ironia. Embora repita trejeitos vistos em papéis anteriores, ele funciona como símbolo da vaidade ilimitada que move o universo criado por Murphy. As aparições de nomes convidados — cuja lista a produção mantêm em segredo — surgem pontuais e, felizmente, têm função dramática, evitando o mero fan service.
Direção e roteiro equilibram sátira e grotesco
Ryan Murphy divide a direção com Alexis Martin Woodall e garante ritmo frenético, auxiliado pelos roteiristas Jason A. Hurley, Jeremy Haun e Matthew Hodgson. O trio de escritores estrutura os 11 episódios para que cada capítulo aprofunde um ponto específico: os efeitos colaterais da droga, a corrida empresarial pelo lucro ou o impacto social do produto. A opção cria uma escalada de tensão que, gradualmente, substitui a estranheza inicial por dependência narrativa.
Visualmente, A Beleza se assume opulenta. Cores saturadas, maquiagem prostética detalhada e cenários que remetem a laboratórios higienizados contrastam com corpos deformados, criando metáfora clara sobre aparência versus essência. Ao mesmo tempo, a série não se furta ao humor. Piadas surgem quando a autopromoção de Kutcher beira o patético, lembrando que lucro e ridículo caminham juntos.
Imagem: Divulgação
Estrutura episódica favorece maratona, apesar de início confuso
Os três capítulos já disponíveis no Hulu funcionam como imersão turbulenta. A narrativa joga o espectador em meio às transformações sem didatismo, o que pode causar estranhamento. No entanto, a partir do quarto episódio — que chega na próxima quarta-feira — o quebra-cabeça se encaixa. É quando os roteiros revelam camadas de corrupção governamental, efeitos psicológicos do fármaco e conflitos éticos dos protagonistas.
Esse ritmo calculado lembra a própria dinâmica da substância fictícia: primeiro causa choque, depois torna-se irresistível. Para quem curte maratonar, a sensação de “só mais um” é inevitável. A estratégia conversa bem com o modelo de lançamento semanal, gerando expectativa nas redes e contribuindo para o buzz que Ryan Murphy domina tão bem.
Efeitos visuais elevam o body horror a outro patamar
Fãs de gore encontrarão material de sobra. A equipe de efeitos práticos faz questão de mostrar músculos reconfigurando-se, pele esticando-se e ossos quebrando-se para atingir a “versão perfeita” prometida pela pílula milagrosa. A violência gráfica, porém, não é gratuita. Ela reforça a crítica ao culto à aparência, tema recorrente na obra do criador.
Além disso, a fotografia aposta em close-ups que realçam texturas e colocam o espectador frente a frente com o desconforto. Iluminação neon azul e rosa contrasta com o vermelho do sangue, gerando tableaux quase pop-art, um estilo que tem tudo a ver com a estética grandiosa de Murphy. A trilha sonora, repleta de batidas eletrônicas, acompanha o pulso acelerado dos personagens, amplificando a sensação de urgência.
Vale a pena assistir A Beleza?
Se o espectador suporta horror corporal e busca narrativa provocativa, A Beleza merece atenção. O elenco entrega performances envolventes, a direção sustenta ritmo cativante e o roteiro discute vaidade, poder e ética sem perder o bom humor. Para leitores do Salada de Cinema que apreciam séries ousadas, a produção surge como forte candidata a assunto da temporada.









