Quando um crime desaparece dos livros escolares, não significa que ele esteja resolvido. A série Como um Relâmpago, nova aposta da Netflix em quatro episódios, reabre o caso do presidente James A. Garfield, baleado em 1881, e transforma um episódio quase esquecido em experiência audiovisual pulsante.
Baseada no livro Destiny of the Republic, de Candice Millard, a produção combina investigação histórica com suspense político. Entre diálogos afiados e reconstituição de época meticulosa, o público acompanha os últimos meses de Garfield enquanto a câmera alterna entre os bastidores da Casa Branca e a mente perturbada de Charles J. Guiteau.
A reconstrução do período e o centro da narrativa
A série Como um Relâmpago se apoia na pergunta “por que um homem aparentemente improvável chegou à presidência e, tão rapidamente, virou alvo de complô?”. Ao detalhar convenções partidárias, disputas internas e choque de egos, o roteiro estabelece o cenário dos Estados Unidos pós-Guerra Civil, ainda marcado pela tensão entre democratas e republicanos.
James Garfield, vivido por Michael Shannon, surge como advogado de Ohio que preferia a sala de aula à tribuna. Mesmo relutante, ele entra na política a pedido de correligionários. O roteiro de Mike Makowsky destaca a ironia: um candidato sem grandes ambições acaba indicado, vence Winfield Scott Hancock na eleição de 1880 por margem apertada e logo enfrenta uma tempestade de vaidades em Washington.
Direção de Matt Ross: didatismo sem perder a elegância
Matt Ross dedica boa parte do primeiro episódio a mostrar a vida doméstica do presidente: o casamento com Lucretia, os sete filhos, os dilemas de um pai que não queria deixar Ohio. Esse recorte íntimo evita a armadilha do “filme aula” e aproxima o espectador dos afetos que sustentam Garfield antes do tiro fatídico.
Ao mesmo tempo, Ross abraça o didatismo quando precisa contextualizar a Convenção Nacional Republicana de 1880. Ele lança mão de painéis, legendas e panorâmicas que posicionam rapidamente quem é quem no tabuleiro. O resultado é um equilíbrio raro entre clareza histórica e ritmo dramático, algo que favorece a experiência na Netflix e mantém o conteúdo discover-friendly.
Michael Shannon e Matthew Macfadyen em duelo de alta voltagem
A força de Como um Relâmpago reside nas atuações. Michael Shannon encarna Garfield com a mistura certa de serenidade e senso de dever. O ator encontra terreno fértil para explorar nuances: o idealista que frequenta reuniões partidárias sem pretensão eleitoral, o marido atento que contraria a esposa ao aceitar concorrer e, finalmente, o líder que lida com um partido rachado.
Imagem: Divulgação
Do outro lado, Matthew Macfadyen interpreta Charles J. Guiteau, ex-pregador falido que se acredita merecedor de um cargo diplomático. Rejeitado, Guiteau transforma frustração em obsessão. Macfadyen alterna euforia pueril e rancor doentio, dando contornos trágicos a um antagonista que jamais conquista compaixão alheia. O embate verbal entre os dois atores pesa tanto quanto o disparo de uma Bulldog calibre .44.
Roteiro de Mike Makowsky revela fissuras da democracia
Ao adaptar a obra de Candice Millard, Makowsky evita a simples cronologia dos fatos. Ele costura reflexões sobre poder, polarização e o preço da glória. A narrativa sublinha como a crença na vontade popular convive com ressentimentos de quem fica fora da festa política — tema que dialoga com cenários contemporâneos, mas sem anacronismos forçados.
Além disso, o texto se atreve a criticar o sistema médico da época. Garfield não morre imediatamente; resiste até 19 de setembro de 1881, vítima de sepse. Entre médicos rivais e tratamentos improvisados, a série expõe falhas que custaram a vida de um chefe de Estado. Cada detalhe reforça o suspense, mesmo quando o desfecho já é conhecido.
Vale a pena assistir à série Como um Relâmpago?
Com direção precisa, roteiro que valoriza o contexto e um duelo de interpretações inesquecível, a série Como um Relâmpago conquista quem busca drama histórico sem abrir mão de ritmo. No Salada de Cinema, o título certamente entra para a lista de produções que provam como a Netflix segue tirando histórias esquecidas da penumbra — e revelando que a política, ontem e hoje, pode ser campo de batalhas tão letais quanto silenciosas.









