Quase vinte anos após o lançamento, Como Se Fosse a Primeira Vez segue conquistando novas audiências na Netflix. Dirigida por Peter Segal, a produção combina romance, humor e uma leve dose de drama, sustentada pela química inegável de Drew Barrymore e Adam Sandler.
No centro da história, a trama coloca Henry Roth, veterinário marinho que evita compromissos, e Lucy Whitmore, jovem que sofre de perda recente de memória. A premissa simples já seria curiosa por si só, mas o elenco e a direção transformam o enredo em um estudo sobre repetição, afeto e persistência.
Elenco garante o carisma necessário
Como Se Fosse a Primeira Vez depende da veracidade do casal principal, e é nesse ponto que Drew Barrymore e Adam Sandler se destacam. Ela entrega uma Lucy afetuosa, com nuances suficientes para não se limitar à condição médica que a personagem enfrenta. Ele, por sua vez, modera o estilo mais escrachado que costuma adotar em outras comédias e aposta em um Henry vulnerável, às vezes desajeitado, sempre disposto a tentar novamente.
Além dos protagonistas, Rob Schneider surge como um aliado cômico eficiente. Seu personagem, de humor físico e comentários fora de hora, ajuda a aliviar momentos potencialmente dramáticos sem roubar a cena principal. A família Whitmore, formada por Blake Clark e Sean Astin, reforça a dinâmica doméstica que sustenta o roteiro, impondo limites claros ao pretendente e, ao mesmo tempo, evidenciando o desgaste diário de proteger Lucy.
Direção de Peter Segal evita exageros melodramáticos
Conhecido por comédias como “Tratamento de Choque”, Peter Segal adota um ritmo que prioriza diálogos sobre grandes gestos. A decisão beneficia Como Se Fosse a Primeira Vez, uma vez que o conflito central se repete diariamente. Ao evitar recursos melodramáticos, o diretor permite que o espectador se concentre nos pequenos ajustes de cada reencontro entre Henry e Lucy.
Essa abordagem também se reflete na escolha de locações havaianas, utilizadas mais como pano de fundo que como elemento turístico. O mar, sempre presente, reforça a sensação de ciclos e recomeços, mas não distrai o público. O mesmo vale para a trilha sonora, que alterna faixas leves de reggae-pop e canções pop dos anos 1980, gerando tom nostálgico alinhado à lembrança contínua do passado de Lucy.
Roteiro aborda repetição como desafio, não como piada pronta
Escrito por George Wing, o roteiro explora as limitações da memória de Lucy sem recorrer a humor fácil. Cada nova tentativa de Henry precisa contornar obstáculos conhecidos e, por isso, os diálogos evitam repetições literais. A estrutura espelhada — acordar, encontrar, conquistar — ganha variações que mantêm a atenção do espectador.
Imagem: Divulgação
Outro mérito do texto é reconhecer as consequências práticas da condição de Lucy. O pai e o irmão adaptam a casa diariamente, reencenando o mesmo domingo para evitar confusões. Essa dinâmica cria tensão adicional, pois cabe a Henry provar, dia após dia, que suas intenções são legítimas. O filme, dessa forma, ilustra o trabalho contínuo de um relacionamento quando não há memória para sustentá-lo.
Aspectos técnicos reforçam a proposta romântica
Na fotografia, Jack N. Green aposta em cores quentes para destacar o cenário havaiano, mas mantém iluminação suave nos encontros mais íntimos. Essa variação ajuda a separar o cotidiano ensolarado das cenas que exigem maior carga emocional. A edição de Jeff Gourson, por sua vez, acelera ou desacelera o ritmo conforme a repetição dos eventos, garantindo que o espectador não se sinta preso em um ciclo idêntico.
No design de produção, chamam atenção os pequenos detalhes da casa dos Whitmore: calendários adulterados, jornais antigos e bolos de aniversário repetidos ilustram o esforço coletivo de proteger Lucy. Esses objetos funcionam como lembretes visuais de que, em Como Se Fosse a Primeira Vez, o amor exige logística.
Vale a pena assistir?
Para quem procura uma comédia romântica que equilibre leveza e honestidade, Como Se Fosse a Primeira Vez continua relevante. A parceria de Barrymore e Sandler oferece carisma, o roteiro evita soluções fáceis e a direção mantém o foco no aspecto humano da história. Não à toa, o longa segue ocupando espaço de destaque no catálogo da Netflix e rende discussões frequentes em sites especializados, incluindo o Salada de Cinema.









