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Supergirl: A Mulher do Amanhã estreou nos cinemas brasileiros com um final que rapidamente dividiu fãs dos quadrinhos. A cena em que Kara decide executar o vilão Krem, assumindo uma responsabilidade que na história original caberia à jovem Ruthye, foi pensada desde as primeiras etapas do roteiro, segundo a roteirista Ana Nogueira.

O que torna a discussão mais complexa é que a própria obra de Tom King, nos quadrinhos, nunca deixou totalmente claro se Krem morreu. E essa ambiguidade, que funciona como motor do debate ético na página, foi descartada na adaptação para o cinema.

A lógica de Nogueira: poupar Ruthye do peso moral

Em entrevista à Variety, Ana Nogueira explicou que o desfecho dos quadrinhos apresentava um obstáculo prático: nos HQs, Ruthye mata Krem em um futuro muito distante da linha temporal principal, e esse tipo de salto não funcionaria no filme.

“Os quadrinhos terminam com Ruthye matando Krem, mas em um futuro muito, muito distante. Sabíamos que não íamos conseguir fazer esse tipo de salto temporal, e acho que é um final bem sombrio dos quadrinhos”, declarou a roteirista.

A solução encontrada foi transferir o ato para Kara. Segundo Nogueira, a ideia central era preservar a inocência da jovem alienígena: “Queríamos que Kara se importasse em preservar a inocência de Ruthye, e que sentisse que poderia assumir matar Krem — que ela poderia ser a pessoa a trazer justiça para esse homem, e fazer isso sem sobrecarregar essa criança.”

A roteirista ainda reconheceu que o momento pesa diferente para a heroína kryptoniana: “É diferente para Supergirl, e acho que vai parecer diferente para o público.”

O problema com a leitura dos quadrinhos

O argumento de Nogueira pressupõe que Ruthye de fato mata Krem nos HQs. Mas Tom King já admitiu publicamente que, em sua visão autoral, o antagonista permanece vivo ao fim da história. A narrativa de King foi construída com ambiguidade deliberada — próxima à estrutura de Batman: A Piada Mortal, onde nunca fica claro se Batman executa o Coringa ou não.

Remover essa dúvida é uma escolha válida para o cinema, mas muda o que a obra discute. Nos quadrinhos, a pergunta sobre os limites éticos dos heróis fica em aberto. No filme de Craig Gillespie, Supergirl responde por conta própria — e o público reage a uma conclusão definitiva, não a um dilema.

A comparação com a adaptação animada de Batman: A Piada Mortal é precisa: naquele caso, os realizadores também optaram por eliminar a ambiguidade original, o que gerou críticas similares de leitores da HQ.

O que o debate sobre o final de Supergirl revela para o DCU

Supergirl é um dos primeiros filmes do novo DCU a chegar às telas, e o tipo de discussão que o desfecho gerou importa além da cena em si. Um herói que mata — mesmo com justificativa moral clara — sinaliza um tom mais sombrio para o universo que James Gunn está construindo.

Milly Alcock, que já convenceu como vilã em A Casa do Dragão, aqui precisa carregar o peso oposto: uma heroína que faz uma escolha moralmente pesada para proteger outra pessoa. Se a cena funciona emocionalmente no cinema é algo que cada espectador vai responder diferente. Mas a intenção criativa, ao menos, está explicada.

Fonte e Informações complementares: Variety, DCU Brief, Tom King (declarações públicas).

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Toni Morais Ferreira editor do Salada de Cinema, cobre cinemas, séries e streaming desde 2021. Especializado em análise de séries de plataformas como Netflix, Prime Video e Paramount+, acompanha estreias, finais e bastidores com foco em cobertura aprofundada para o público brasileiro. Já analisou produções de mais de 30 países e escreve críticas, finais explicados e coberturas semanais de séries em alta.

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