Goku é sinônimo de triunfo, mas basta uma revisão atenta dos principais arcos de Dragon Ball para perceber que o saiyajin passou ileso por situações que deveriam ter terminado muito mal. O roteiro de Akira Toriyama, somado às escolhas de direção e às performances dos dubladores, transformou derrotas anunciadas em vitórias épicas – e, muitas vezes, pouco críveis.
Nesta análise do Salada de Cinema, revisitamos sete confrontos decisivos e avaliamos não apenas o que aconteceu na história, como também o trabalho de direção, roteiro e atuação de voz que sustentou cada reviravolta.
Piccolo Daimaoh paralisa o coração de Goku
No auge da Saga do Rei Demônio, Toriyama enfrentava prazos apertados e problemas de saúde. A direção de Daisuke Nishio na série de 1988 soube driblar o cansaço do autor com enquadramentos claustrofóbicos, criando a impressão de que Piccolo era invencível. A sequência em que o vilão perfura o peito de Goku, exibindo o coração literalmente parado, ainda hoje causa impacto.
O curioso é que a morte dura poucos quadros. Sem explicação médica ou mágica, o herói volta a respirar, algo que a trilha de Shunsuke Kikuchi tenta vender como momento de superação. Na prática, é o roteiro puxando o freio de mão: se o protagonista ficasse morto, não haveria tempo para a resolução esperada no mangá semanal. Mas vale destacar a atuação de Masako Nozawa, que alterna agonia e fôlego heroico em questão de segundos, mantendo o público envolvido mesmo diante da improbabilidade da cena.
Vegeta e o preço de virar Oozaru
Quando Vegeta decide criar uma Lua artificial na Saga Saiyajin, o roteiro abre mão de uma vitória praticamente certa. A direção de Nishio imprime urgência ao transformar a tela num espetáculo de luzes, mas é impossível ignorar o gasto brusco de ki que enfraquece o príncipe saiyajin. Do ponto de vista dramático, a transformação em Oozaru rende imagens inesquecíveis; do ponto de vista lógico, é um tiro no pé.
A batalha reforça o talento do elenco de voz brasileiro: Wendel Bezerra (Goku) e Alfredo Rollo (Vegeta) adicionam camadas de rivalidade, segurando a tensão mesmo quando a coerência se esvai. Ainda assim, fica evidente que a estratégia do macaco gigante só existe para nivelar Gohan e Kuririn à disputa, permitindo que Goku sobreviva tempo suficiente para o célebre Kamehameha x Galick Gun. Sem esse “erro tático”, Vegeta teria liquidado o confronto antes da chegada dos coadjuvantes.
Freeza e a virada do Super Saiyajin
A luta em Namekusei é um dos capítulos mais bem dirigidos de toda a franquia. Seiji Yokoyama usa silêncio e planos abertos para destacar a impotência de Goku após o ataque da Genki Dama. Nesse intervalo, Freeza poderia, e deveria, acabar com tudo. Em vez disso, prefere torturar psicologicamente o herói – decisão que rende a morte de Kuririn e, por tabela, o nascimento do Super Saiyajin.
Do ponto de vista de roteiro, a manobra é compreensível: era preciso um gatilho emocional forte para justificar a nova forma dourada. Vozes, trilha e storyboard trabalham em perfeita sintonia, transformando a dor em catarse. Ainda assim, a coerência interna sofre: Freeza, amplamente superior, entrega a vitória ao rival. É um caso em que a direção brilha, mas a lógica de poder se perde no caminho.
Imagem: Divulgação
Broly, Super Buu, Omega Shenron e Jiren – quatro quase vitórias contra Goku
Nos longas e temporadas posteriores, o padrão se repete. Broly – O Lendário Super Saiyajin (1993) ostenta animação fluida e trilha pesada de Shunsuke Kikuchi, mas termina com um soco coletivo pouco convincente. A direção de Shigeyasu Yamauchi capricha nas cores e na coreografia, porém nem o excelente trabalho de Bin Shimada (voz de Broly) sustenta um desfecho tão repentino, evidente produto da limitação de tempo nos cinemas.
Já no arco de Super Buu, o anime estica o confronto para entregar um fan service valioso: Super Saiyajin 3 Goku contra Buutenks. Embora eletrizante, o episódio ignora o próprio mangá, onde Toriyama jamais permite esse embate direto. O diretor Yasuhiro Nowatari cria cenas de combate vistosas, mas compromete o power scaling ao mostrar Goku resistindo a um oponente que deveria aniquilá-lo em segundos.
Dragon Ball GT, sob a batuta de Osamu Kasai, leva a ousadia adiante: Omega Shenron chega a “matar” Goku, que volta envolto em aura enigmática. A direção aposta em alto contraste e close-ups dramáticos, sugerindo que o herói ultrapassa o plano físico. O roteiro, contudo, deixa perguntas sem resposta, confiando no simbolismo para justificar a sobrevivência.
Por fim, o Torneio do Poder, em Dragon Ball Super, coloca Jiren como o lutador mais forte em cena. O diretor Ryota Nakamura entrega coreografias frenéticas e a dublagem de Eiji Hanawa reforça a frieza quase absoluta do personagem. Mesmo assim, Jiren hesita em momentos-chave, o que dá margem para o sacrifício de Freeza e o retorno surpresa do Androide 17. Tecnicamente, Goku jamais derrota Jiren sozinho, mas a montagem sugere que a força da amizade supera a lógica dos números, conclusão alinhada com o tom da fase Super, embora questionável do ponto de vista de coerência.
Vale a pena rever Dragon Ball hoje?
Revistar esses confrontos mostra que Dragon Ball continua vibrante graças à somatória de direção, trilha e performances vocais, mesmo quando a balança da verossimilhança pende contra o roteiro. Para quem deseja entender por que a série influencia gerações ou simplesmente quer sentir novamente o impacto de cada “virada impossível”, a resposta é sim: vale, e muito, revisitar a franquia – de preferência com o olhar crítico que só o tempo proporciona.









