Há pouco mais de uma década, Peaky Blinders redefiniu o drama criminal televisivo ao mesclar história, violência estilizada e personagens magnéticos. Desde então, roteiristas e produtores mundo afora vêm buscando replicar essa fórmula de sucesso.
Entre 2016 e 2025, uma dezena de produções tentou ocupar o espaço deixado pela gangue dos Shelby, cada qual apostando em elencos fortes, fotografia marcante e direções ambiciosas. A seguir, o Salada de Cinema analisa como atores, diretores e roteiristas de cada série lidaram com o legado.
Rebellion resgata o clima de levante com elenco conhecido
Lançada em 2016, Rebellion traz o Levante da Páscoa irlandês como pano de fundo. O criador Colin Teevan mantém a narrativa focada nos conflitos civis, mas o que chama atenção é o elenco: Natasha O’Keeffe, Charlie Murphy e Brian Gleeson, rostos que o público já associava a Peaky Blinders. Essa familiaridade ajuda a série a estabelecer imediatamente a tensão, mesmo sem repetir o roteiro de Steven Knight.
Visualmente, o diretor Aku Louhimies adota paleta fria e fotografia granulada que ecoam o bairro de Small Heath. Nos bastidores, as escolhas de enquadramento ressaltam o isolamento dos personagens, estratégia que favorece performances contidas. Ainda que o texto por vezes perca o ritmo, a energia de O’Keeffe e Murphy sustenta a minissérie até o fim.
Animal Kingdom troca a névoa de Birmingham pelo sol californiano
Adaptada do filme homônimo, Animal Kingdom se passa em Oceanside, na Califórnia, e foca na ascensão da família Cody. O showrunner Jonathan Lisco enfatiza contraste entre paisagens ensolaradas e crimes brutais. A matriarca Smurf, vivida por Ellen Barkin, entrega um carisma sombrio que lembra a saudosa Polly Gray. Já Finn Cole, que interpreta J, explora nuances diferentes das vistas em seu Michael Shelby, mas mantém a intensidade.
O resultado é um estudo de personagem que caminha na corda bamba entre lealdade familiar e ambição. A série prova que não é preciso primeira temporada de adaptação para prender o espectador; caso parecido foi analisado em nosso artigo sobre séries que dispensam a primeira temporada. No total, seis temporadas garantiram fôlego para conflitos internos e reviravoltas, sempre com direção segura de John Wells, ex-The West Wing.
Taboo, Bad Blood e Warrior: três visões autorais da violência
Taboo marcou a volta da parceria entre Steven Knight e Tom Hardy. Na pele de James Delaney, Hardy entrega uma fisicalidade quase animal, distante do humor ácido de Alfie Solomons. O roteiro de Knight investe em intriga corporativa e rituais místicos, enquanto Kristoffer Nyholm, diretor principal, prioriza close-ups que revelam a vulnerabilidade do protagonista.
Do lado canadense, Bad Blood recorre à história real do clã Rizzuto para construir uma tragédia familiar. Kim Coates domina a tela como Declan Gardiner, combinando brutalidade e ética distorcida. Os roteiristas Simon Barry e Michael Konyves equilibram fatos documentados e suspense ficcional, o que rendeu elogios à estrutura enxuta de duas temporadas — encerramento que não entrou para a lista de finais de séries controversos.
Já Warrior, concebida a partir de anotações de Bruce Lee, destaca-se pela coreografia de lutas assinada por Brett Chan. O showrunner Jonathan Tropper constrói paralelos com Peaky Blinders ao retratar guerras de facções pelo controle de San Francisco, mas adiciona camada cultural ao explorar a diáspora chinesa. Andrew Koji e Joe Taslim travam duelos que unem drama e ação sem sacrificar profundidade dramática.
Nova safra: Godfather of Harlem até House of Guinness
Estrelada por Forest Whitaker, Godfather of Harlem reinventa Bumpy Johnson, misturando fatos históricos e ficção. Chris Brancato e Paul Eckstein, criadores, mantêm ritmo de thriller enquanto discutem desigualdade racial nos anos 1960. A performance contida de Whitaker contrasta com momentos explosivos, lembrando o equilíbrio de Cillian Murphy entre calma e violência.
Imagem: Divulgação
Em Gangs of London, Gareth Evans troca a grua pela câmera na mão para capturar cenas de combate que lembram The Raid. Joe Cole assume o protagonismo e comprova a versatilidade ao abandonar o sotaque de Birmingham. A fotografia fria reforça atmosfera opressiva, enquanto a roteirista Lauren Sequeira expande o leque de gangues e motivações políticas.
No campo dos dramas prisionais, Mayor of Kingstown traz Jeremy Renner como Mike McLusky. Taylor Sheridan aposta na cadência de diálogos curtos e silêncios incômodos, recurso que lembra a tensão constante de Peaky Blinders. A série explora dinâmicas de poder em cadeia pública, dialogando com o público interessado em dramas de alta tensão.
A programação futura apresenta A Thousand Blows, ambientada no submundo do boxe londrino do século XIX. Steven Knight volta a examinar rivalidades de rua, agora sob o ponto de vista das Forty Elephants, chefiadas por Erin Doherty. As coreografias de luta reforçam a crueza do roteiro, e Stephen Graham adiciona densidade como treinador ambíguo.
House of Guinness, por sua vez, mira os bastidores da famosa cervejaria em crise durante a era vitoriana. Kate O’Riordan assina o roteiro, enquanto o diretor Anthony Byrne, veterano de Peaky Blinders, recria cenários industriais com a mesma grandiosidade. O tom lembra disputas familiares de Succession, mas com aroma de lúpulo e fuligem.
Vale a pena maratonar essas herdeiras de Peaky Blinders?
Cada produção citada apresenta abordagem própria ao tema “crime organizado”. Mesmo assim, todas carregam traços plantados por Steven Knight: protagonismo carismático, reprodução de contexto histórico e violência estilizada. A experiência do público dependerá do interesse pelo cenário — seja o gueto irlandês, o litoral californiano ou as docas de Londres.
Em termos de atuação, nomes como Forest Whitaker, Ellen Barkin e Kim Coates entregam performances tão marcantes quanto as de Cillian Murphy e Helen McCrory. Diretores como Gareth Evans e Anthony Byrne demonstram domínio visual, reforçando a importância de ter assinatura estética clara. Roteiristas, por sua vez, aprendem que conciliar verossimilhança histórica e ritmo de thriller segue sendo o principal desafio.
Para quem busca dramas cheios de personagens ambíguos, fotografia caprichada e dilemas morais, essa lista serve como mapa. Apesar de nenhuma série ter derrubado Peaky Blinders do pódio, todas ampliam o universo de narrativas sobre poder, família e sobrevivência — temas que continuam rendendo boas histórias na TV.



