Com o segundo ano de Percy Jackson e os Olimpianos encerrado no Disney+, muito fã ficou contando os dias até a chegada da adaptação de A Maldição do Titã. Enquanto o terceiro ano não desembarca, a boa notícia é que a TV está repleta de produções de fantasia com pegada parecida, prontas para uma maratona.
O Salada de Cinema selecionou dez títulos que combinam mitologia, figuras adolescentes descobrindo poderes e roteiros cheios de profecias. O foco aqui é avaliar atuação, direção e escrita dos episódios, sem spoilers pesados.
Huérfanos em perigo: atores mirins que carregam o drama
A Series of Unfortunate Events, comandada pelos showrunners Mark Hudis e Barry Sonnenfeld, supera a antiga versão cinematográfica pela maturidade do roteiro e pela entrega do trio Malina Weissman, Louis Hynes e Presley Smith. Os pequenos atores dominam cenas sombrias sem cair na caricatura, mérito do texto afiado que equilibra cinismo e compaixão.
Na mesma linha, Locke & Key coloca Emilia Jones, Connor Jessup e Jackson Robert Scott diante de chaves mágicas que liberam memórias e traumas. A direção de Meredith Averill foca em close-ups que humanizam os sustos, enquanto o roteiro de Joe Hill e Carlton Cuse traduz a dor do luto em metáforas visuais eficazes. O resultado é um suspense juvenil que não subestima o espectador.
Magia Marvel: Kathryn Hahn e jovens feiticeiros em cena
Agatha All Along, criação de Jac Schaeffer, aposta no carisma de Kathryn Hahn para segurar uma narrativa que funciona como viagem pelo folclore das bruxas da Marvel. A atriz injeta humor ácido e vulnerabilidade na antagonista de WandaVision, amparada por diálogos que avançam sem pressa. A sintonia com o novato Joe Locke, provável Billy Kaplan, reforça a camada de descoberta juvenil que tanto atrai fãs de Percy.
Já Runaways, desenvolvida por Josh Schwartz e Stephanie Savage, valoriza o elenco jovem – destaque para Lyrica Okano e Gregg Sulkin – ao retratar o choque entre lealdade familiar e senso de justiça. As cenas coletivas, dirigidas com câmera inquieta, lembram o dinamismo que Landman emprega para mostrar relações disfuncionais, ainda que em outro gênero. A trilha indie e o design de produção solar contrastam com temas pesados, criando atmosfera própria.
Profecias e universos paralelos: a força dos protagonistas
His Dark Materials prova que literatura complexa cabe na TV quando se respeita a nuance. Sob a batuta de Jack Thorne, Dafne Keen e Amir Wilson sustentam um épico existencial graças a expressões que alternam coragem e medo num piscar de olhos. A fotografia fria de Joel Devlin reforça o peso religioso da história sem perder o senso de maravilha.
Shadow and Bone, guiada por Eric Heisserer, mergulha em romance e guerra com Jessie Mei Li e Ben Barnes dominando a tela. Li transita entre fragilidade e poder, enquanto Barnes injeta charme ambíguo no antagonista. O roteiro afiado evita exposição excessiva, confiando que o público compreende símbolos e mapas – estratégia semelhante à que fez Andor impressionar com personagens complexos.
Fantasia escolar: poderes, amizade e disciplina
Warrior Nun troca deuses gregos por mitologia cristã, mas mantém o arco de treinamento típico de Percy Jackson. Alba Baptista convence como heroína relutante, apoiada pela direção de fotografia que usa claustrofobia de claustros para criar tensão. A sala de roteiristas, liderada por Simon Barry, equilibra humor e misticismo sem perder o ritmo.
Imagem: Divulgação
Fate: The Winx Saga, apesar de curta, merece atenção pela energia de Abigail Cowen como Bloom. A atriz domina cenas de efeitos visuais limitados com expressões que vendem a ameaça dos Burned Ones. O texto de Brian Young acerta ao explorar rivalidades colegiais, mesmo que a montagem, às vezes, apresse arcos emocionais.
Wednesday fecha a lista com a mesma premissa “escola para esquisitos” de Camp Half-Blood. Jenna Ortega transforma sarcasmo em elo emocional, graças ao timing cômico preciso e à direção de Tim Burton, que privilegia planos abertos para destacar coreografias corporais sutis. A interação com Thing é uma aula de atuação física.
Para quem busca algo fora do sobrenatural tradicional, o live-action de One Piece mostra como um elenco carismático – Iñaki Godoy, Mackenyu, Emily Rudd – sustenta fantasia leve com timing de comédia. A série abraça o nonsense sem cinismo, lembrando que coração e camaradagem podem compensar orçamentos modestos.
Vale a pena maratonar depois de Percy Jackson e os Olimpianos?
Se a ideia é encontrar performances juvenis capazes de carregar universos inteiros, todas as produções listadas entregam o mínimo exigido: elenco inspirado, direção que entende a faixa etária e roteiros que respeitam a inteligência do espectador. Do humor macabro de A Series of Unfortunate Events à aventura pirata de One Piece, há opções para diferentes humores.
Essas séries também provam que o “mito do escolhido” ganha força quando os responsáveis pela câmera sabem onde colocá-la e quando o texto permite que a jornada seja pessoal. É o mesmo fio que guia Percy Jackson e os Olimpianos: heróis em formação, falhas expostas e a sensação de que o destino é negociável.
Enquanto a terceira temporada de Percy não chega, vale dedicar algumas noites a esses mundos paralelos. Cada produção acrescenta um tempero próprio ao prato de referências que alimenta o gênero, mantendo a chama da fantasia acesa na grade de streaming.



