Colômbia volta a ocupar o centro das atenções no streaming com Simplesmente Alicia, produção que estreou na Netflix e rapidamente virou assunto pelas escolhas nada convencionais de sua protagonista. A série, que combina humor, drama e pitadas de puro absurdo, entrega dezenove episódios carregados de mal-entendidos, paixão e uma dose generosa de caos.
Com criação de Marta Betoldi e Esteban del Campo Bagu, direção dividida entre Catalina Hernández e Rafael Martínez Moreno e elenco capitaneado por Verónica Orozco, a trama se apoia em interpretações carismáticas para sustentar um triângulo amoroso capaz de prender o espectador. No Salada de Cinema, analisamos por que essa mistura improvável funciona tão bem.
Sinopse enxuta de Simplesmente Alicia
Alicia Fernández, interpretada por Verónica Orozco, decide enfrentar dois casamentos e, de quebra, arrastar consigo dois homens e duas crianças. Já no primeiro episódio, ela perde o carro rebocado, pega carona na moto da melhor amiga Susana (Constanza Camelo) e chega atrasada à igreja, onde Pablo aguarda no altar. O caos se agrava quando Alejo, escritor de best-seller e ídolo de Alicia, também surge na cerimônia. Nada disso impede a protagonista de seguir adiante com um plano que nem ela parece compreender por completo.
A narrativa de Simplesmente Alicia salta no tempo: logo estamos diante de uma Alicia grávida de gêmeos, enquanto Pablo, frustrado ou talvez iluminado, abraça a vida religiosa. Entre uma cena e outra, surgem pequenos sinais do desconforto de todos os envolvidos nesse triângulo, reforçando o tom nonsense que a série abraça sem pudor.
Atuações que seguram o nonsense
Verónica Orozco conduz a personagem-título com energia rara. Em poucos segundos ela alterna do melodrama rasgado ao humor físico, criando uma anti-heroína que o público ama odiar. A atriz aposta em trejeitos exagerados e, ao mesmo tempo, entrega sutilezas que evitam transformar Alicia em mera caricatura. Essa elasticidade dramática sustenta a credibilidade de situações que, escritas no papel, beiram o inacreditável.
Do outro lado do triângulo, Sebastián Carvajal (Pablo) e Michel Brown (Alejo) seguem o tom estabelecido por Orozco. Carvajal exibe uma mistura curiosa de candura e ressentimento que justifica a guinada religiosa de seu personagem. Brown, por sua vez, encarna o escritor famoso com segurança e pitadas de vaidade, projetando charme suficiente para justificar a fixação de Alicia. O trio mantém o ritmo em tela, enquanto Constanza Camelo acrescenta frescor como Susana, a amiga que enxerga o desastre iminente antes de todos.
Direção e roteiro: ritmo ágil e olhos nos detalhes
Catalina Hernández e Rafael Martínez Moreno optam por uma condução dinâmica. Câmera sempre em movimento, cortes rápidos e música diegética sublinhando as viradas dramáticas ajudam a manter o fôlego dos dezenove episódios. Mesmo quando o roteiro se arrisca em passagens improvisadas, a dupla encontra no elenco a bússola que impede o naufrágio.
Imagem: Divulgação
Já o texto de Marta Betoldi e Esteban del Campo Bagu extrai humor de gestos aparentemente banais: o livro entregue por engano na costureira, a pressa de Alicia em recuperar um vestido, o salto repentino para uma gravidez de gêmeos. Detalhes que poderiam soar aleatórios viram pistas, costurando a linha narrativa e reforçando a proposta nonsense de Simplesmente Alicia. É um roteiro que exige cumplicidade do público, recompensado com diálogos afiados e situações surpreendentes.
Recepção e contexto no streaming latino
Os números não mentem: a Colômbia domina o conteúdo em espanhol na Netflix, somando 2,59 bilhões de horas assistidas e 24,6% do mercado latino-americano. Simplesmente Alicia chega para reforçar essa liderança, apostando na pluralidade temática que se tornou marca registrada das produções do país.
A nota 8/10 atribuída à série aponta aprovação sólida entre críticos e audiência. A mistura de comédia e drama, o foco no triângulo amoroso e a disposição em rir das próprias contradições fazem do título um candidato forte a maratona de fim de semana. Para quem busca um recorte distinto da televisão colombiana, Simplesmente Alicia oferece justamente essa perspectiva — sem perder a leveza nem o ritmo.
Simplesmente Alicia vale a maratona?
Se a proposta é mergulhar em um triângulo amoroso onde nenhuma decisão parece sensata, Simplesmente Alicia cumpre o prometido com folga. As atuações de Verónica Orozco, Sebastián Carvajal e Michel Brown, somadas à direção ágil de Catalina Hernández e Rafael Martínez Moreno, sustentam uma história que jamais fica parada. O resultado é uma série viciante, capaz de entreter enquanto mostra, sem moralizar, as belezas e agruras dos relacionamentos.









