“The Wrangler”, quinto capítulo da segunda temporada de Fallout, não economiza em viradas. O grande destaque fica por conta do retorno do enigmático Snake Oil Salesman, personagem que havia sido visto pela última vez enganando Thaddeus com um suposto “elixir” e provocando sua transformação em ghoul.
Agora, a figura do charlatão volta a cruzar o caminho de Hank MacLean e, sem querer, funciona como detonador de uma sequência que redefine a relação entre Lucy e o Ghoul. A reentrada do vendedor de óleo de cobra, por mais breve que pareça, prova como uma presença coadjuvante pode impulsionar conflitos centrais.
Como o retorno do Snake Oil Salesman muda a dinâmica
O retorno do Snake Oil Salesman em Fallout é tratado com leveza inicial — o personagem surge a caminho de New Vegas para um encontro romântico com o robô Fisto, referência direta ao game Fallout: New Vegas. O tom quase cômico dura pouco: Hank surge das sombras, nocauteia o comerciante e o leva para seus experimentos de controle mental.
A partir desse instante, o roteiro articula duas funções para o charlatão. A primeira é servir de cobaia para o dispositivo de Hank. A segunda, mais importante, consiste em transformar o vendedor em mensageiro de um ultimato: devolver Lucy ao cofre 33 ou ver Barb e Janey morrerem em criossono. Assim, o retorno do Snake Oil Salesman não apenas amarra pontas abertas da temporada anterior — ele ajusta as peças do tabuleiro narrativo e gera uma cisão definitiva entre personagens queridos.
Atuações elevam tensão em “The Wrangler”
Se o texto do episódio estabelece bons ganchos, o elenco responde com uma entrega que sustenta a escalada dramática. Kyle MacLachlan, intérprete de Hank, aproveita cada segundo em cena para explorar o lado maquiavélico do personagem. Seu olhar clínico, misturado à frieza de cientista obcecado, torna crível a crença de Hank de que pode moldar memórias alheias como quem troca um fusível.
Do outro lado da mesa de cirurgia improvisada, o ator responsável pelo Snake Oil Salesman — que continua anônimo nos créditos oficiais — demonstra domínio do timing cômico. Logo que desperta preso à maca, ele aceita de bom grado ter a memória apagada, arrancando risos nervosos do público. Ao transitar do humor à submissão total em segundos, o performer oferece nuances que evitam transformar o personagem em mera caricatura.
Ella Purnell também ganha espaço quando Lucy percebe a manipulação do pai. O contraste entre a ingenuidade inicial da protagonista e a incredulidade seguida de raiva reforça o dilema central: confiar na figura paterna ou abraçar a aliança incômoda com o Ghoul. Já Walton Goggins faz do Ghoul um anti-herói cada vez mais trágico — a tensão no olhar quando precisa escolher entre salvar as irmãs de Lucy ou manter a parceria com ela adiciona densidade ao arco.
Direção e roteiro: ritmo certeiro e fan service na medida
Dirigido por Wayne Che Yip, “The Wrangler” mantém o equilíbrio entre ação pulsante e pausas reflexivas. O cineasta utiliza planos fechados durante as “sessões” de controle mental para intensificar a claustrofobia, enquanto reserva tomadas abertas aos momentos no deserto, lembrando o espectador da vastidão impiedosa do Wasteland.
Imagem: Divulgação
No roteiro, Geneva Robertson-Dworet e Graham Wagner trabalham com diálogos enxutos, evitando explicações excessivas. Eles confiam na inteligência do público para decodificar referências — seja a Fisto, seja a citação rápida a outros personagens deslocados de Filly. Ainda assim, há zelo em contextualizar novos espectadores sem frustrar veteranos da franquia, algo essencial para quem assiste pela primeira vez ou chegou ao episódio depois de resumos.
Outro mérito do texto é usar o retorno do Snake Oil Salesman como efeito dominó: cada ação do charlatão, ainda que induzida, repercute em múltiplas narrativas. Isso reforça o conceito de que, em um mundo pós-apocalíptico, até figuras aparentemente descartáveis podem mudar destinos inteiros — um subtexto recorrente na série e celebrado pelos fãs nos fóruns online e, agora, nas páginas do Salada de Cinema.
Impacto do episódio para os rumos da segunda temporada
Com Hank testando e, ao que tudo indica, aperfeiçoando sua máquina de controle cerebral, “The Wrangler” sugere um antagonista que deixa de ser apenas pai fanático para se tornar ameaça global. Caso o dispositivo passe a funcionar em larga escala, o equilíbrio de poder no universo de Fallout muda completamente, e o suspense sobre as consequências futuras cresce.
A quebra de confiança entre Lucy e o Ghoul, catalisada pelo vendedor de óleo de cobra, estabelece terreno fértil para conflitos morais. Ela deve priorizar a família ou acabar de vez com o plano de Hank? Ele, por sua vez, ainda pode se redimir? O episódio planta essas perguntas sem entregar respostas fáceis, garantindo fôlego para o restante da temporada.
Além disso, a rápida participação de Fisto mostra que a produção continua atenta ao fan service, mas sem se perder em acenos vazios. Cada easter egg cumpre uma função, seja aliviar a tensão, seja expandir o mundo para além dos protagonistas.
Vale a pena assistir ao episódio?
Para quem acompanha a série, “The Wrangler” é parada obrigatória. O retorno do Snake Oil Salesman sustenta um episódio que equilibra humor ácido, crítica ao poder e avanços significativos na trama. O conjunto de atuações inspiradas, direção segura e roteiro enxuto oferece pouco mais de 50 minutos de tensão bem dosada e confirma que Fallout segue em ótima forma na segunda temporada.



