A 4ª temporada de O Poder e a Lei chegou ao catálogo da Netflix equilibrando drama pessoal e intriga criminal. Desta vez, o advogado Mickey Haller troca a elegância do banco de defesa pelo assento do réu, numa virada que desafia sua reputação e o coloca frente a frente com fantasmas antigos.
A saga entrega um jogo de xadrez narrativo em que a principal peça é o elenco. Com performances milimétricas, o grupo transforma longas sequências de depoimentos em embates quase físicos, mantendo a trama elétrica até o último capítulo.
Atuações que conduzem o veredito
Manter a câmera presa em rostos durante interrogatórios exige segurança de quem está em cena. Manuel Garcia-Rulfo entrega um Mickey Haller fragilizado sem jamais perder o charme do advogado sedutor. A cada contra-argumento, o ator alterna sorrisos contidos e olhares de puro pavor, deixando claro que o personagem está sempre a um passo do abismo.
Neve Campbell, na pele de Maggie McPherson, surge como âncora moral. Sua química com Garcia-Rulfo aparece renovada, mais madura, e o roteiro faz bom uso desse reencontro. Em especial, a atriz brilha quando Maggie se vê dividida entre a ética da promotoria e a lealdade ao ex-marido, reforçando a ambiguidade que move a série.
Método narrativo de Ted Humphrey e Dailyn Rodriguez
Responsáveis pelos roteiros, Ted Humphrey e Dailyn Rodriguez optam por estruturar a temporada como um quebra-cabeça processual. Ao invés de recorrer a reviravoltas aleatórias, a dupla costura pistas em cada audiência. A estratégia aproxima o espectador do júri – quem assiste precisa avaliar recibos de transporte, relatórios do FBI e depoimentos contraditórios antes de apontar o culpado.
Essa condução só funciona porque a direção de Erin Feeley, David Grossman e companhia mantém ritmo quase de thriller, semelhante ao que Sam Raimi realizou no suspense citado por Rachel McAdams em Send Help. Câmeras se movem sutis pelos corredores do fórum, acentuando a sensação de confinamento que domina Mickey.
O assassino de Sam Scales: a cena que define a temporada
Quando a trama revela que Alex Garizian mandou matar Sam Scales para encobrir uma fraude de biocombustível, a série entrega o momento mais tenso da temporada. A exposição acontece sem alarde: nenhum grande close em arma ou perseguição pelas ruas. A força está na reação do elenco, especialmente Angus Sampson, cuja postura de Cisco traduz a incredulidade do grupo ao ligar todas as peças.
Imagem: Divulgação
O roteiro valoriza o silêncio. Mickey percebe que foi apenas moeda de troca na vingança de Garizian. A ausência do mafioso – assassinado antes de ir ao banco das testemunhas – impede o confronto direto, mas fortalece o tom fatalista do desfecho.
Perdas, luto e a pista para a 5ª temporada
Além do drama legal, o texto examina o impacto da morte de Legal Siegel na psique do protagonista. A direção encontra espaço para cenas contemplativas, como a despedida no escritório vazio. O ator Elliott Gould, ainda que apareça pouco, sustenta a aura de mentor até o último suspiro, ampliando o peso emocional do adeus.
A reta final ainda reserva a surpresa da irmã desconhecida, vivida por Cobie Smulders. A aparição é breve, mas suficiente para estabelecer uma dinâmica inédita para Mickey, já confirmado nos episódios baseados em Resurrection Walk. A escolha da série em substituir Harry Bosch por essa nova personagem reforça a estratégia de distribuição de funções investigativas, movimento semelhante ao de produções que fragmentam protagonismo para ampliar conflitos.
Vale a pena assistir?
Para quem acompanha dramas de tribunal, a quarta temporada de O Poder e a Lei mantém a fórmula, mas injeta frescor ao colocar seu herói no lado oposto da bancada. As atuações afinadas e o texto sem gordura garantem tensão constante. Quem chegar ao último episódio encontrará um veredito satisfatório e, de quebra, um gancho promissor para os próximos processos de Mickey Haller – argumento mais que suficiente para deixar o título no topo da fila de maratona no Salada de Cinema.



