Quando Sylvester Stallone reuniu uma seleção de astros musculosos em 2010, poucos imaginavam que aquela mistura de egos e pólvora se tornaria uma franquia de 855 milhões de dólares. Agora, Os Mercenários trocam de endereço e desembarcam completos na Netflix a partir de 20 de fevereiro, reacendendo a discussão sobre o fôlego da série.
A mudança coincide com a compra dos direitos pela Lionsgate, que já planeja filmes, séries e até games. O streaming, portanto, vira vitrine para medir o apetite do público enquanto os executivos decidem os próximos passos.
Chegada à Netflix reforça impacto da franquia
As quatro produções – de 2010 a 2023 – voltam a ficar no mesmo catálogo, algo que não acontecia desde o DVD. Até então, cada capítulo vagava por plataformas diferentes, o que dificultava a maratona. O lançamento unificado dá conforto ao assinante e serve de termômetro para a Lionsgate testar a popularidade antes de abrir o cofre para “Expendables 5”.
O interesse do público deve ser impulsionado pela nostalgia. Os dois primeiros longas, por exemplo, continuam entre os preferidos dos fãs graças ao frescor de ver Stallone, Arnold Schwarzenegger e Bruce Willis dividindo tela. Já o quarto filme, lançado em 2023 e batizado de Expend4bles, teve recepção fria: 14% de aprovação no Rotten Tomatoes e bilheteria de apenas 51 milhões contra orçamento de 100. Ainda assim, o streaming costuma transformar fracassos de bilheteria em sucessos tardios — caso parecido ocorreu com thrillers de Mark Wahlberg.
Atuações veteranas: quando o carisma fala mais alto que o roteiro
Sylvester Stallone segura o protagonismo como Barney Ross — uma espécie de mentor casca-grossa que resolve tudo a bala. Mesmo sem a agilidade de antigamente, seu olhar cansado adiciona camadas inesperadas à figura do mercenário. Nos momentos de silêncio, nota-se um herói lidando com a própria obsolescência, o que traz humanidade ao espetáculo pirotécnico.
Jason Statham, por sua vez, virou o verdadeiro motor das sequências. Com timing cômico afiado e coreografias em que mistura artes marciais e humor britânico, o ator eleva cenas que poderiam soar genéricas. Não à toa, a continuação de outro projeto dele — The Beekeeper 2 — já foi confirmada para mantê-lo no topo do gênero.
Entre os coadjuvantes, Dolph Lundgren diverte ao fazer piada consigo mesmo, enquanto Terry Crews, ausente no quarto capítulo, negocia retorno e pode resgatar a energia irreverente do grupo. Arnold e Jet Li aproveitam aparições limitadas, mas deixam claro que experiência compensa a falta de tempo em tela.
Direção e roteiro: homenagem que vira fórmula?
A ideia original de Stallone e do roteirista Dave Callaham era prestar tributo aos brucutus dos anos 80 e 90. Explosões prático-digitais, vilões caricatos e frases de efeito compunham a receita. O problema é que, a partir do terceiro filme, essa homenagem começou a parecer repetição: piadas recicladas e reviravoltas previsíveis derrubaram o frescor inicial.
Imagem: Divulgação
No quarto longa, a troca de comando para Scott Waugh tentou injetar uma linguagem mais moderna, mas faltou equilíbrio. As tomadas frenéticas, por vezes, sacrificam clareza nas lutas, e o CGI excessivo contrasta com a vibe old-school que fez a fama de Os Mercenários. Ainda assim, a montagem rápida sustenta ritmo que agrada quem busca adrenalina sem pausas.
Caminhos para o futuro da franquia
Com a Lionsgate agora na direção, a tendência é diversificar. A produtora fez escola ao expandir John Wick para séries e spin-offs, o que indica planos semelhantes por aqui: minisséries focadas em personagens, jogo cooperativo e, claro, um quinto filme. A confirmação de que Terry Crews negocia volta demonstra esforço para resgatar figuras queridas, talvez apostando em um tom mais leve para reconquistar o público.
Outro ponto aberto é a possível participação reduzida de Stallone. O astro já sinalizou interesse em atuar menos e produzir mais. Caso se confirme, Barney Ross pode assumir papel de mentor, enquanto novos nomes carregam as cenas de ação. Essa estratégia alinha-se à febre de reboots nostálgicos e garante vida longa à marca, tal qual ocorre com He-Man, que voltou aos holofotes em animações recentes.
Vale a pena maratonar Os Mercenários na Netflix?
Para quem curte ação desenfreada, a resposta tende ao sim: a maratona revela a evolução — e os tropeços — de uma ideia simples: juntar ícones bombados em missões absurdas. O primeiro filme ainda transmite a surpresa do encontro, o segundo aprimora o humor, o terceiro abre espaço para rostos novos e o quarto, embora irregular, testa uma atualização necessária.
No catálogo da Netflix, assistir na sequência ajuda a entender por que a franquia arrecadou 855 milhões mundialmente mesmo sob críticas duras. É também a chance de avaliar se ela merece continuar respirando. O Salada de Cinema, sempre de olho em tendências, acompanhará os próximos passos de perto.



