Setenta e um por cento. Esse foi o suficiente para colocar Wuthering Heights, ainda inédito nos cinemas, na segunda posição entre as adaptações do clássico de Emily Brontë avaliadas pelo Rotten Tomatoes. À frente dele, apenas o longa de 1939, com invejáveis 96%.
Assinado pela roteirista e diretora Emerald Fennell, o projeto reúne Margot Robbie e Jacob Elordi no papel do casal Cathy Earnshaw e Heathcliff. Entre elogios à química dos protagonistas e críticas à ousadia visual, a produção de 136 minutos tem dividido opiniões e despertado curiosidade nos fãs de romances góticos.
Atuações: química evidente, mas nem todos compram
A maior parte dos 49 textos já cadastrados pelo Rotten Tomatoes aponta o desempenho de Jacob Elordi como o ponto alto de Wuthering Heights. O ator australiano entrega um Heathcliff cruel e impiedoso, valorizando o ressentimento que move o personagem. Críticos chamaram atenção para a fisicalidade dele, que oscila entre ternura e violência a cada troca de olhar com Cathy.
Margot Robbie, por sua vez, investe numa Catherine arrebatada e ora frenética, ora melancólica — uma interpretação que busca equilibrar o lado passional da personagem com seu contexto social. Há quem enxergue a dupla como “engarrafada” demais para o furor do material original, mas o magnetismo entre os dois raramente é colocado em dúvida.
Direção de Emerald Fennell: estilo que provoca amor e incômodo
Vencedora do Oscar de roteiro por Bela Vingança, Emerald Fennell faz aqui um jogo perigoso de forma sobre conteúdo. Ela atualiza o ambiente, sem situar explicitamente a época, e investe em cores vibrantes, câmera inquieta e uma trilha que por vezes lembra batidas eletrônicas contemporâneas. Há ecos da ousadia que marcou Saltburn, obra anterior da cineasta.
Alguns críticos valorizam essa ruptura com o aspecto sombrio tradicional, argumentando que a estilização traduz o tormento interno dos amantes. Outros preferem a abordagem gótica mais contida do romance de 1847 e acusam o filme de sacrificar densidade emocional em troca de impacto visual.
Roteiro: fidelidade flexível e controvérsia de escalação
A roteirização de Fennell não hesita em remodelar trechos inteiros do livro. A vingança de Heathcliff continua central, mas personagens secundários perdem espaço para cenas de erotismo e sadomasoquismo sugerido — elemento que a diretora defende como intrínseco às entrelinhas de Brontë. Essa liberdade criativa desperta aplausos pela ousadia, mas também irrita puristas que esperavam maior aderência ao texto original.
Outro foco de debate é a escolha de Elordi, ator branco, para interpretar um personagem descrito como “cigano de pele escura”. A reclamação de whitewashing ganhou força nas redes e nos textos negativos. Fennell rebateu afirmando que se guiou pela sensação que teve ao ler a obra e que ilustrações antigas mostravam um Heathcliff visualmente parecido com o intérprete. Na história do cinema, apenas a versão de 2011 escalou um ator negro (James Howson) no papel.
Imagem: Divulgação
Recepção crítica: números, paralelos e perspectivas
Com 71% de aprovação, Wuthering Heights salta à frente das versões de 2011 (69%), 1970 (64%) e 1992 (31%). Para quem acompanha o setor, o índice não garante sucesso, mas já posiciona o longa como a adaptação mais bem avaliada desde o clássico de 87 anos atrás. A chegada às salas, marcada para 13 de fevereiro de 2026, deverá acelerar o boca a boca e inflamar ainda mais essa discussão.
Nesse cenário, Robbie e Fennell também atuam como produtoras, reforçando a ideia de autoria feminina por trás da obra. A estratégia lembra movimentos de outros nomes de peso que ampliam participação criativa, como Brad Pitt retomando a ação em The Adventures of Cliff Booth (trailer recém-divulgado).
Vale a pena ficar de olho?
Para quem admira leituras modernas de clássicos, a nova adaptação de Wuthering Heights oferece um olhar fresco, com ritmo acelerado e estética marcante. A narrativa pode não agradar tradicionalistas, mas a performance intensa de Jacob Elordi e a entrega emocional de Margot Robbie são pontos fortes incontestáveis.
Quem procura fidelidade absoluta ao texto de Emily Brontë talvez saia frustrado. Contudo, a fortuna crítica inicial indica que o longa se consolida como uma das versões mais sólidas da história recente, mesmo sob acusações de estilizar demais a essência trágica original.
No fim, o Salada de Cinema acompanhará de perto a evolução desse índice no Rotten Tomatoes até a estreia, já que o filme promete render discussões apaixonadas sobre representação, liberdade criativa e, claro, a força magnética de Heathcliff e Cathy no imaginário popular.


