Stranger Things caminha para o encerramento e a Netflix se vê diante de um buraco difícil de preencher. Curiosamente, o serviço já tinha em mãos, desde 2020, um projeto que dialogava com o mesmo público: I Am Not Okay with This. A comédia sombria sobre uma adolescente que descobre poderes telecinéticos foi cancelada após sete episódios, apesar da renovação anunciada.
Nesta análise, o Salada de Cinema revisita a produção, aponta os motivos que a aproximam do fenômeno dos irmãos Duffer e explica como o fim precoce fez a plataforma perder um possível trunfo para manter o engajamento dos fãs.
Enredo e estética: nostalgia em formato enxuto
Ambientada em uma pequena cidade da Pensilvânia, I Am Not Okay with This acompanha Syd Novak, adolescente que vive o turbilhão típico do ensino médio enquanto lida com a morte do pai. A efervescência hormonal, somada a crises de ansiedade e raiva, desperta poderes capazes de mover objetos — uma premissa que imediatamente remete à jornada de Eleven em Stranger Things.
Visualmente, os criadores Jonathan Entwistle e Christy Hall apostam em filtros de cores quentes, trilha sonora recheada de faixas indie-rock e figurinos atemporais. O resultado é um look deliberadamente vintage, ainda que a história se passe no presente, lembrando o artifício de referências usadas em sucessos recentes como The Diplomat, cuja popularidade segue em ascensão segundo dados do Rotten Tomatoes. A escolha reforça o clima de coming of age, mas sem parecer mera cópia dos anos 1980.
Atuações: carisma de Sophia Lillis sustenta a narrativa
Sophia Lillis carrega a série com naturalidade. Conhecida por It: A Coisa, a jovem alterna timidez e explosões emocionais sem soar caricata. Sua Syd Novak transita do humor seco à angústia profunda em questão de segundos, sustentando o tom tragicômico proposto pelos roteiristas.
Sofia Bryant funciona como contraponto afetivo ao interpretar Dina, melhor amiga e interesse romântico de Syd. A química das duas atrizes torna crível o drama adolescentel e empresta delicadeza a diálogos que, por vezes, flertam com a acidez dos quadrinhos de Charles Forsman — autor da obra original também adaptada em I Am Not Okay with This. Wyatt Oleff completa o trio principal como Stanley, vizinho excêntrico que oferece leveza e serve de válvula de escape para o roteiro.
Direção e roteiro: ritmo ágil e humor agridoce
A condução de Jonathan Entwistle se destaca pela objetividade: episódios de pouco mais de 20 minutos evitam enrolação e valorizam ganchos. A fotografia aposta em close-ups que capturam microexpressões, reforçando a performance do elenco. Já a trilha, assinada por Graham Coxon, ex-guitarrista do Blur, entrega guitarras distorcidas e sintetizadores discretos que ecoam a trilha oitentista de Stranger Things sem perder identidade.
Imagem: Divulgação
No texto, Christy Hall equilibra doses de ironia e vulnerabilidade. O humor nasce do desconforto social de Syd e do nonsense envolvendo seus poderes. Quando a protagonista perde o controle, explosões de objetos e narizes sangrando lembram ao público que a comédia flerta com o horror. Essa mescla de gêneros também está presente em produções de outras plataformas; a Amazon, por exemplo, investe em The Captive’s War para repetir a mistura de ficção científica e drama de The Expanse.
O cancelamento: decisões financeiras em meio à pandemia
I Am Not Okay with This foi oficialmente renovada, mas, em agosto de 2020, a Netflix recuou. Na época, a empresa alegou incertezas provocadas pela Covid-19 para encerrar projetos que ainda buscavam audiência sólida. Sem uma base de fãs consolidada e com custos de filmagem elevando-se por protocolos sanitários, a produção tornou-se vulnerável.
A decisão se mostrou arriscada. Quase quatro anos depois, a plataforma ainda procura um substituto à altura de Stranger Things. Até agora, nenhuma nova série conseguiu combinar nostalgia, terror leve e drama juvenil com o mesmo apelo. Enquanto isso, concorrentes constroem catálogos versáteis, como a Paramount+, que disponibiliza títulos prontos para maratona em um fim de semana e ampliam a disputa pela atenção do público geek.
Vale a pena maratonar?
Com apenas sete episódios, I Am Not Okay with This encaixa-se perfeitamente em uma noite de binge-watching. A temporada única entrega arco dramático coeso, performances convincentes e cliffhanger que deixa um gostinho de quero mais. Para quem sente falta dos primeiros anos de Stranger Things ou busca uma produção rápida, a série ainda se apresenta como alternativa eficiente — mesmo sem a chance de mostrar todo o seu potencial em temporadas futuras.



