O que era para ser a jornada de um boneco em busca da humanidade vira um desfile de horror explícito em Pinóquio Desencadeado (Pinocchio Unstrung). A Jagged Edge Productions liberou o primeiro trailer do longa no dia 2 de março de 2026, mostrando que cordas não são mais necessárias quando a consciência desaparece junto com a moral.
Escrito e dirigido por Rhys Frake-Waterfield, o mesmo responsável pelos sanguinolentos Winnie the Pooh: Blood and Honey e Peter Pan’s Neverland Nightmare, o filme promete expandir o autointitulado “Universo da Infância Retorcida”. A prévia já deixa claro que, desta vez, o artesanato de madeira troca a inocência pela faca — e o espectador pelo susto.
Rhys Frake-Waterfield dobra a aposta no horror infantil
Frake-Waterfield exibe no trailer seu estilo característico: cortes rápidos, iluminação que oscila entre o calor de velas e o breu absoluto, além de uma trilha estridente a cada estocada da marionete. O diretor, acostumado a subverter ícones pueris, repete a estratégia de Blood and Honey ao injetar violência gráfica em um imaginário tipicamente doce.
O roteiro, também assinado por ele, segue a premissa clássica — um boneco quer virar menino — mas distorce o desejo ao extremo. A câmera, quase sempre na altura dos olhos de Pinóquio, mergulha o público no ponto de vista do assassino, reforçando a intenção de “fazer o personagem parecer real”, como pontuou o cineasta. Essa decisão deve gerar a mesma curiosidade que cercou franquias inusitadas de terror recente, movimento que bagunça o mercado assim como a recente fusão do Paramount+ com o HBO Max sacudiu o streaming.
Elenco mescla veteranos e novos rostos
Richard Brake assume o papel de Gepeto. Conhecido por papéis sombrios, o ator injeta tensão só com o olhar, algo perceptível nos poucos segundos em que explica ao menino James, vivido por Cameron Bell, que o boneco “está vivo, mas com limitações”. A entrega de Brake reitera sua aptidão para figuras ambíguas, reforçando a aura macabra do artesão.
Bell, por sua vez, carrega a inocência que faltava ao universo de Frake-Waterfield. No vídeo, o garoto reproduz o fascínio e o medo próprios de quem vê o amigo de madeira ganhar vontade própria. Essa dualidade será crucial para equilibrar o absurdo sanguinário com algum resquício de empatia.
O destaque de voz fica para Robert Englund, eterno Freddy Krueger, que interpreta o Grilo Falante. Seu timbre rouco orienta o protagonista a cometer atrocidades “parte por parte”, numa atuação que reafirma a habilidade de Englund em transformar aconselhamento em ameaça. O simples conselho em off já adiciona peso ao trailer, sugerindo que o personagem funciona como uma consciência corrompida.
Criatura prática e sangue de mentira: a escolha pelos animatrônicos
A decisão de usar um animatrônico para encarnar Pinóquio é central na proposta do filme. Supervisionado por Todd Masters, o boneco exibe movimentos duros, porém assustadoramente orgânicos, lembrando a rigidez de marionetes antigas enquanto segura objetos pontiagudos. Essa combinação de textura de madeira, olhos vidrados e expressões mínimas reforça o contraste entre aparência inofensiva e brutalidade.
Ao adotar efeitos práticos, a produção busca fisgar o público que prefere sangue espirrando na lente a CGI asséptico. O resultado é uma sequência de violência visceral: início com escalpo arrancado, passagem por pele roubada e culminância em vísceras próprias, alusão direta a clássicos do gore. O trailer evoca a atmosfera de slashers cult — e, ao que tudo indica, faz isso com orçamento controlado, característica comum às criações de Jagged Edge.

Imagem: Divulgação
Essa mesma filosofia de praticidade domina outros projetos do estúdio, como a já anunciada reunião de monstros Poohniverse Monsters Assemble. A convergência de criaturas, se concretizada, pretende repetir o fenômeno de franquias que viraram ouro de bilheteria, caso de Scream 7, que bateu recordes logo na estreia global.
Trama retorcida mantém essência do conto, mas sem censura
No material divulgado, James surge como ponto de partida dramático: ele deseja um amigo e recebe um presente que rapidamente se mostra maldição. A familiaridade do público com o dilema de Pinóquio — tornar-se humano — é usada como caminho para o horror corporal. Cada alvo da marionete fornece um pedaço literal de carne, cabelo ou órgão que ele acredita precisar para “ser como James”.
A montagem sugere inspiração em clássicos de psicopatas do cinema. O uso de peruca loira remete ao travestismo de Norman Bates, enquanto a cena em que Pinóquio enfia intestinos na barriga ecoa o terror sanguinário de Jeepers Creepers. O resultado aparenta ser um híbrido de fábula e slasher, mantendo o ritmo acelerado para não deixar o espectador respirar.
Paralelamente, o trailer indica um subenredo de fita perdida: personagens anônimos descobrem material de arquivo capaz de revelar a fraqueza do vilão. Embora o vídeo não detalhe quem são esses investigadores, a inclusão dos trechos antigos sugere que o longa tentará equilibrar momentos de investigação com carnificina.
Vale a pena ficar de olho?
A julgar pelo trailer, Pinóquio Desencadeado entrega exatamente o que promete: um passeio ultraviolento por lembranças de infância. As atuações de Richard Brake e Robert Englund chamam atenção, enquanto Cameron Bell representa o contraponto inocente necessário. A direção de Rhys Frake-Waterfield mantém coerência com sua filmografia, abusando de humor negro e choque visual.
Se a preferência do espectador recai sobre terror gráfico, efeitos práticos e releituras sombrias de histórias conhecidas, o longa tem potencial para ser prato cheio. Para quem acompanha o Salada de Cinema em busca de novidades excêntricas, esse lançamento previsto para 2026 merece pelo menos um espaço na lista de expectativas, ainda que apenas pela ousadia de transformar marionetes em máquinas de matar.









