Menos de quatro semanas depois de estrear na tela grande, Mercy já pode ser visto sem sair do sofá nos Estados Unidos. O thriller de ficção científica estrelado por Chris Pratt e Rebecca Ferguson, que custou US$ 60 milhões e arrecadou apenas US$ 53 milhões mundialmente, chega às plataformas digitais tentando recuperar fôlego após o vexame nas bilheterias.
Disponível para aluguel a US$ 19,99 ou compra a US$ 24,99 em serviços como Prime Video e Fandango, o longa‐metragem de Timur Bekmambetov mira agora o público que prefere o conforto do lar. A expectativa é que, futuramente, o título entre sem custo adicional no catálogo do próprio Prime Video, já que a produção pertence ao selo Amazon MGM Studios.
Resumo da trama e protagonistas
Mercy coloca Chris Pratt no papel de um detetive de um futuro próximo acusado de assassinar a esposa. Em uma corrida contra o relógio, ele tem 90 minutos para provar inocência a uma juíza de inteligência artificial — interpretada por Rebecca Ferguson — que ele mesmo ajudou a legitimar. O embate entre o personagem humano e a magistrada digital sustenta toda a tensão da narrativa.
Além da dupla central, o elenco traz Kali Reis, indicada ao Emmy por True Detective: Night Country, Annabelle Wallis (Peaky Blinders), o duas vezes indicado ao Emmy Chris Sullivan (This Is Us), Kylie Rogers (Yellowstone), Kenneth Choi (Sons of Anarchy), Rafi Gavron, Jeff Pierre e Tom Rezvan. É um time robusto que, no papel, prometia dinamismo, mas cuja química em cena gerou reações divididas.
Direção e roteiro sob o microscópio
Bekmambetov, conhecido pelo futuro War of the Worlds (2025) e por experimentar narrativas em telas múltiplas, opta aqui por um visual frio, repleto de painéis holográficos, para reforçar o domínio tecnológico sobre a humanidade. O uso de 3D, elogiado por alguns espectadores, tenta dar ritmo a sequências de ação táteis, mas não evita a sensação de confinamento imposta pelos cenários fechados.
O roteiro de Marco van Belle busca mesclar investigação policial e crítica sociopolítica. Entretanto, críticas especializadas apontam falta de coesão: momentos de denúncia ao autoritarismo eletrônico acabam soando, ironicamente, como apologia ao mesmo sistema. A escolha de dialogar diretamente com temas contemporâneos — justiça automatizada, privacidade de dados — poderia render discussões mais profundas, mas perde força diante de diálogos expositivos.
Recepção: da crítica implacável ao público mais generoso
Com 24 % de aprovação no Rotten Tomatoes entre críticos, Mercy foi descrito como “um techno‐thriller sem vida” que limita seus protagonistas em um espaço claustrofóbico. Avaliações como a de Gregory Nussen, que atribuiu nota 4/10, destacam “ideias mirabolantes costuradas por furos de roteiro dignos de queijo suíço”, ainda que reconheçam “ação palpável” e utilização justificada do 3D.
Imagem: Divulgação
O público geral, por outro lado, recebeu o filme de forma bem mais calorosa, chegando a 83 % de aprovação na plataforma. Para muitos, trata‐se de um “quem matou” em alta voltagem, ideal para sessões descompromissadas — a chamada “pipoca tensa”. No Salada de Cinema costumamos lembrar que essa discrepância entre especialistas e audiência não é rara; Daniel Radcliffe, por exemplo, já admitiu desconforto ao rever os primeiros Harry Potter, mesmo com aclamação popular.
Lançamento doméstico e perspectivas de mercado
A estratégia de liberar Mercy rapidamente no vídeo sob demanda atende a uma tendência do pós‐pandemia: encurtar a janela entre cinema e digital para reduzir prejuízos. Com forte curiosidade do público — alimentada pela boa nota dos espectadores —, a produção pode encontrar no consumo doméstico a rentabilidade que faltou na bilheteria.
Os valores de aluguel e compra seguem o padrão de lançamentos premium nos EUA. Caso a recepção em casa mantenha o entusiasmo registrado nas avaliações populares, é plausível que o longa ganhe sobrevida similar a outros títulos que fracassaram no circuito tradicional mas viraram cult em streaming — fenômeno visto até com clássicos que retornam, como O Quinto Elemento, cujo relançamento nos cinemas foi recentemente lembrado por aqui.
Vale a pena assistir Mercy?
A resposta depende do tipo de experiência buscada. Quem se interessa por discussões sobre inteligência artificial e quer conferir o duelo de atuações entre Chris Pratt e Rebecca Ferguson pode achar válido investir no aluguel. Já quem se incomoda com roteiro irregular e crítica social rasa talvez prefira esperar a chegada ao catálogo regular do Prime Video.
No fim das contas, Mercy representa mais um caso em que a performance artística — especialmente a química entre Pratt e Ferguson — tenta se sobressair a um enredo que não alcança todo o potencial sugerido pelo conceito. A estreia digital é, portanto, nova oportunidade para o espectador formar opinião própria sobre esse curioso fracasso de US$ 53 milhões.



