Em apenas dois meses, Mercy trocou as salas de cinema pelo conforto do sofá. O suspense de ficção científica, estrelado por Chris Pratt e Rebecca Ferguson, desembarca no catálogo do Prime Video no domingo, 22 de março, numa tentativa clara de recuperar o fôlego perdido nas bilheterias.
Com orçamento estimado em US$ 60 milhões, a produção arrecadou US$ 54,3 milhões ao redor do mundo e virou exemplo precoce de decepção comercial de 2026. Agora, confiando na força do streaming e na curiosidade do público, o longa tenta reescrever sua própria história.
Retomada no streaming reforça jornada conturbada de Mercy
Mercy estreou em 23 de janeiro liderando o ranking norte-americano com US$ 11 milhões no primeiro fim de semana, mas a trégua foi curta. Ameaças implacáveis apareceram em forma de concorrentes de peso — Avatar: Fire and Ash, Zootopia 2 e a sensação de terror The Housemaid dividiram a atenção do público.
Para piorar, uma tempestade de inverno paralisou boa parte dos Estados Unidos justamente na data de lançamento, limitando o acesso aos cinemas. O resultado foi um valor final abaixo do custo de produção, carimbando o título de “flop” nos primeiros dias do ano.
Atuações: duelo entre Chris Pratt e Rebecca Ferguson impulsiona a trama
Mesmo com números modestos, o longa encontra pontos de apoio no elenco. Chris Pratt vive o detetive que precisa provar inocência após ser acusado de assassinar a esposa. O ator aproveita seu carisma conhecido de franquias como Guardiões da Galáxia para dar humanidade ao protagonista, ainda que o roteiro exija uma carga dramática maior do que suas aventuras espaciais habituais.
Rebecca Ferguson, em ascensão depois de Duna, interpreta a juíza de inteligência artificial responsável por julgar o caso. A frieza calculada da personagem contrasta com a urgência emocional de Pratt, criando um embate que sustenta boa parte da tensão. A atriz, que também aparecerá em Duna: Parte Três em dezembro, mostra domínio de cena mesmo em papel limitado a expressões contidas.
O restante do elenco — Annabelle Wallis, Kali Reis, Chris Sullivan e Kylie Rogers — cumpre função de apoio. Embora sem grandes arcos dramáticos, eles colaboram para manter a narrativa ágil.
Direção de Timur Bekmambetov aposta em IA e ritmo acelerado
Conhecido por abraçar tecnologias de filmagem pouco ortodoxas, Timur Bekmambetov investe novamente em telas, interfaces digitais e cortes rápidos para representar o universo controlado por algoritmos. A estética lembra experimentos do diretor em thrillers passados, porém aqui o visual futurista é mais sóbrio, acompanhando a seriedade do tribunal virtual.
Imagem: Divulgação
Esse estilo é arma de dois gumes: mantém o espectador em constante alerta, mas, ao mesmo tempo, pode causar fadiga visual. Nos 100 minutos de duração, Bekmambetov raramente desacelera. A opção combina com o enredo de urgência judicial, porém reduz o espaço para momentos de respiro que desenvolveriam melhor as relações entre personagens.
Roteiro de Marco van Belle: potencial e tropeços de um thriller futurista
Responsável pelo texto, Marco van Belle constrói uma trama de tribunal que discute ética da inteligência artificial. A premissa, embora instigante, encontra resistência na transição para a tela: diálogos expositivos e algumas decisões apressadas diminuem o impacto emocional da investigação.
O ponto de virada envolvendo o assassinato carece de sutileza, mas ainda assim gera suspense suficiente para prender quem gosta de narrativas policiais. A recepção reflete essas ambivalências: apenas 25 % de aprovação crítica no Rotten Tomatoes contra 83 % de aceitação do público — um contraste que deixa claro que Mercy fala melhor com a audiência do streaming do que com a imprensa especializada.
Vale a pena assistir Mercy no Prime Video?
Para quem aprecia thrillers sci-fi movidos a julgamentos virtuais, Mercy entrega um embate energético entre Chris Pratt e Rebecca Ferguson, embalado pela direção acelerada de Timur Bekmambetov. O roteiro tem falhas, mas a curiosidade de ver como a trama lida com inteligência artificial e inocência duvidosa pode compensar.
Agora disponível sem custo extra no Prime Video, o filme ganha segunda vida e a chance de cativar espectadores que ignoraram a passagem relâmpago pelos cinemas. Entre erros e acertos, Mercy encontra no streaming um terreno mais fértil para seu júri popular — e a Salada de Cinema vai acompanhar esse novo veredito.



