Dragon Ball DAIMA acaba de ganhar um importante ponto de virada graças ao novo pacote de expansão de Dragon Ball Z: Kakarot, lançado exatamente seis anos após a estreia do jogo, em 16 de janeiro de 2020. A atualização “Adventure Through the Demon Realm – Parte 2” encerra o arco televisivo e, de quebra, mexe em um dos mitos mais queridos pelos fãs: a estreia do Super Saiyajin 4.
Se no episódio 20 do anime Goku dava a entender que havia alcançado essa transformação logo após derrotar Kid Buu, a cena pós-créditos do DLC diz o contrário. O resultado coloca o diretor Kazuya Karasawa, o roteirista Ryuta Kawahara e, sobretudo, o criador Akira Toriyama diante de um novo quebra-cabeça cronológico que pode respingar no aguardado retorno de Dragon Ball Super.
A força vocal de Masako Nozawa mantém Goku relevante
Em meio a revisões de roteiro, chama atenção a entrega de Masako Nozawa, que continua a emprestar uma energia juvenil ao protagonista mesmo em sua versão miniaturizada. Sua interpretação consegue transitar entre a leveza infantil e o peso dramático exigido pela dúvida sobre o próprio poder. No momento em que Goku confessa a Panzy que “acabou de se entrosar com o corpo pequeno” e só então dominou o Super Saiyajin 4, a dubladora dosa surpresa e alívio, ajudando o espectador a sentir o impacto da revelação.
O talento de Nozawa, aos 87 anos, reforça como a performance de voz se converte em ferramenta narrativa crucial para Dragon Ball DAIMA. Ao colocar a carga emocional correta nesse diálogo, ela potencializa a mudança de perspectiva proposta pelo roteiro, sem parecer expositiva demais.
Kazuya Karasawa equilibra nostalgia e ousadia na direção
Responsável pelo comando geral do anime, Karasawa aposta num ritmo que ora abraça a aventura juvenil, ora mergulha em combates ágeis, sempre intercalando explosões de energia brilhantes com pausas estratégicas para desenvolvimento de personagem. Essa cadência se mantém intacta no DLC de Kakarot: as cenas inéditas respeitam o timing do seriado, o que evita quebra de imersão quando o jogo retoma trechos já conhecidos da TV.
No entanto, é na cena final, adaptada com consultoria direta do diretor, que se nota a ousadia. Ao deslocar a primeira transformação em Super Saiyajin 4 para o confronto derradeiro com Gomah — e sob a ajuda de Neva —, Karasawa amplia a sensação de urgência. O golpe de efeito confere gravidade extra ao clímax, estabelecendo uma progressão dramática mais coerente com a tradição da franquia, em que transformações marcantes costumam ocorrer diante do público.
Roteiro de Ryuta Kawahara faz aceno à cronologia clássica
Kawahara, a partir dos rascunhos de Toriyama, costura referências ao passado sem deixar de surpreender. Em vez de simplesmente repetir a justificativa apresentada no episódio 20, o roteirista cria um diálogo que recontextualiza a fala de Goku. A frase “Eu treinei muito depois de lutar com Buu” passa a significar não a preocupação com a força do oponente, mas a dúvida sobre sua própria capacidade de ativar a forma lendária.
Imagem: Divulgação
A escolha dialoga com outros momentos icônicos da série: Goku alcançando o Super Saiyajin 1 diante de Freeza, Gohan despertando o Super Saiyajin 2 contra Cell, Goku adulto em Dragon Ball GT rompendo limites para atingir o Super Saiyajin 4. Ao replicar essa lógica, Kawahara reforça uma tradição narrativa que valoriza eventos vistos em tela, algo que o fandom costuma cobrar com fervor.
Controvérsia à frente: o que muda em Battle of Gods?
A alteração, contudo, levanta questões sobre a coesão interna da franquia. Se Dragon Ball Super realmente retornar em 2026 com um remake que abranja Battle of Gods, como ficam as declarações de Goku a Beerus, quando o herói afirma que o Super Saiyajin 3 era seu ápice? Para que as obras conversem, alguém terá de decidir se DAIMA funciona como linha do tempo alternativa ou se os eventos precisarão de ajustes.
Além disso, a aparente normalização do Super Saiyajin 4 depois que Goku volta à forma adulta pode reduzir o peso dramático dessa transformação. A série, que sempre tratou as escalas de poder como diferenciais de roteiro, corre o risco de inflacionar seu próprio sistema se todos os níveis estiverem igualmente acessíveis. Vale acompanhar como Toriyama — novamente creditado como escritor chefe — pretende resolver a equação.
Vale a pena assistir Dragon Ball DAIMA?
Para o leitor do Salada de Cinema que busca entender se o novo arco justifica o retorno ao universo criado por Toriyama, a resposta depende de dois fatores: interesse em acompanhar performances de voz inspiradas, lideradas por Masako Nozawa, e disposição para aceitar pequenas rupturas na cronologia. Karasawa entrega cenas de ação fluidas, Kawahara equilibra nostalgia e novidade, e o material extra do DLC serve como curiosa lente de aumento. Fãs de longa data encontrarão discussões quentes, enquanto novatos podem se encantar com o colorido e a agilidade habituais da franquia.









