Alguns desenhos dos anos 90 nunca saíram da memória de quem cresceu diante da TV. Mesmo com reboots bem-sucedidos como DuckTales e X-Men ’97, muitas joias continuam engavetadas.
Revisitar essas produções significa dar nova vida a roteiros ousados, elencos de voz marcantes e diretores que moldaram uma era. A seguir, analisamos cinco títulos que merecem um grande retorno em 2026.
Gargoyles: dublagem memorável pede novo voo noturno
Lançada em 1994, Gargoyles trouxe uma abordagem sombria, repleta de referências a Shakespeare e diálogos complexos para um público infantojuvenil. A série ganhou força graças à direção de Frank Paur e ao roteiro de Greg Weisman, que nunca subestimaram a inteligência da audiência.
O elenco de voz original, liderado por Keith David (Goliath), entregou performances que se tornaram cult. Em um reboot, a permanência de David, mesmo como narrador, garantiria consistência tonal. Já os coadjuvantes poderiam dar espaço para novos nomes de destaque — escolha estratégica que, de quebra, ampliaria o alcance comercial sem trair a essência.
Vale lembrar que Weisman ainda defende publicamente a volta da franquia. Um roteiro atualizado poderia dialogar com temas atuais, como xenofobia e gentrificação, seguindo o mesmo rigor narrativo. Tudo sem abrir mão da animação fluida que, na época, misturava layouts tradicionais a fundos em aquarela.
Darkwing Duck: sátira de super-herói pronta para a era dos universos cinematográficos
Entre 1991 e 1992, Darkwing Duck misturou aventura policial, humor meta e crítica aos tropos de super-heróis. Criado por Tad Stones, o programa se sustentava na excelente sinergia entre roteiro espirituoso e a performance vocal de Jim Cummings, que alternava ego inflado e vulnerabilidade com precisão cômica.
Com rumores de revival desde 2022 — Seth Rogen chegou a ser citado como produtor executivo —, a animação encontra hoje um terreno fértil. O público domina o léxico nerd, os crossovers viraram rotina e a metalinguagem ganhou sabor extra após Deadpool. Roteiristas poderiam explorar essa familiaridade para elevar a sátira, enquanto a direção de arte teria liberdade para brincar com paletas neon ao estilo neopulp.
Manter Cummings no papel-título seria um aceno aos fãs de longa data. Para reforçar o elenco, vozes de comediantes da nova geração — que já transitam em podcasts e streaming — trariam frescor às piadas. Afinal, personagens como Gosalyn e Megavolt pedem timbres marcantes capazes de rivalizar com a histeria controlada do herói.
Exosquad: guerra espacial que inspira discussões sobre preconceito
Produzido por Universal Cartoon Studios, Exosquad (1993-1995) explorou um conflito entre humanos e a raça artificial Neosapien. Roteiristas como Michael Edens apostaram em narrativa seriada, algo raro para a TV aberta infantil. A trama questionava opressão, escravidão e supremacismo sem didatismo, mérito da direção de criação de Jeff Segal.
Imagem: Divulgação
Um reboot em 2026 poderia aproveitar a atual popularidade de ficções militares e expandir o dilema ético. O realismo político de séries como The Expanse mostrou que há público para discussões densas misturadas a batalhas épicas. Miguel Ferrer, voz original de J.T. Marsh, faleceu em 2017; portanto, escalar um ator que carregue gravidade semelhante seria decisivo.
Na técnica, animação 2D aprimorada por CGI entregaria combates de exotrajes mais dinâmicos. Os roteiristas teriam chance de concluir arcos deixados em aberto após o cancelamento abrupto, algo que fãs aguardam há décadas. Esse tipo de resolução costuma gerar engajamento alto, sobretudo em plataformas de streaming.
Pirates of Dark Water e Freakazoid!: estilos opostos, mesma urgência de retorno
Pirates of Dark Water (1991-1993) nasceu nas mãos de David Kirschner e marcou pela direção de arte aquarelada que lembrava fábulas clássicas. A aventura do príncipe Ren ficou inacabada: cinco tesouros nunca foram encontrados. Retomar a franquia exigiria roteiros que fechem essa lacuna e, simultaneamente, modernizem o tom de fantasia ecológica — pauta alinhada à crise climática atual.
Já Freakazoid! (1995-1997) é o oposto completo: humor caótico, cortes rápidos e referências pop. Bruce Timm e Paul Dini moldaram um herói que antecedeu a cultura de memes. Num cenário pós-TikTok, esse espírito frenético parece até profético. Um novo time de roteiristas poderia satirizar algoritmos, deepfakes e cultura do cancelamento, enquanto o protagonista solta bordões instantaneamente compartilháveis.
As duas produções também dividem um desafio: recrutar dubladores que equilibrem nostalgia e renovação. Jason Marsden (Ren) e Paul Rugg (Freakazoid) ainda estão em atividade; tê-los de volta facilitaria a aceitação do público. Para personagens inéditos, vale apostar em nomes que já provaram versatilidade em live-action, como alguns citados em Estrelas de confiança: 10 atores que nunca fizeram uma série ruim na TV nesta lista do Salada de Cinema.
Vale a pena ficar de olho nesses reboots?
Se Gargoyles manteve viva a discussão sobre preconceito através de criaturas de pedra, e Darkwing Duck antecipou a autoconsciência dos atuais filmes de super-herói, é fácil entender por que esses títulos ainda ecoam. Exosquad, Pirates of Dark Water e Freakazoid! completam o quinteto que influenciou gerações de artistas e roteiristas.
Com vozes icônicas, diretores visionários e roteiros que subestimavam ninguém, essas animações carregam o potencial de voltar ainda mais afiadas. Caso as produtoras aproveitem 2026 como janela de lançamento, teremos não apenas nostalgia, mas também grandes laboratórios para experimentos visuais e narrativos.



