V de Vingança completa duas décadas e chega ao público em 4K, reacendendo o debate sobre o que mudou da HQ de Alan Moore e David Lloyd para as telas. O diretor James McTeigue, em entrevista recente, revelou como foi peneirar ideias e enxugar tramas para transformar a história de anarquia e fascismo em um thriller de 132 minutos.
Com roteiro das irmãs Wachowski, o longa fez escolhas certeiras que reforçaram as performances de Hugo Weaving e Natalie Portman, sem perder a essência incendiária do material original. A seguir, o Salada de Cinema analisa como essas decisões moldaram personagens, ritmo e impacto cultural.
A busca pelo equilíbrio do anti-herói
Para McTeigue, o maior desafio foi domar o protagonista mascarado. Na HQ, V beira o niilismo absoluto; no filme, Weaving entrega um anarquista calculista, porém empático, capaz de conduzir o espectador pela mão. O diretor conta que “encontrar o ponto exato de loucura” exigiu diversos ajustes de tom durante a produção.
Weaving, limitado a voz e gestual, compensa a ausência de expressões faciais com ritmo de fala preciso e movimentos teatrais. Esse trabalho físico, acompanhado de uma dicção quase musical, sustenta cenas de ação e longos monólogos. A máscara de Guy Fawkes, longe de restringir, vira instrumento dramático — responsável, inclusive, por virar símbolo de protestos ao redor do mundo.
Evey Hammond e as escolhas do roteiro
A personagem de Natalie Portman trilha caminho diferente daquele desenhado nos quadrinhos. Na obra original, Evey inicia a história como adolescente vulnerável e mergulha numa jornada de amadurecimento brutal. O filme opta por apresentá-la como jovem adulta já marcada por perdas, encurtando o arco sem eliminar a transformação essencial.
Portman, que raspou a cabeça em cena, sustenta a evolução da personagem com variações sutis de postura e olhar. O roteiro das Wachowskis removeu subtramas para concentrar-se no vínculo entre Evey e V, intensificando a química entre os atores. Esse foco resultou em relação mais coesa, capaz de emocionar mesmo quem desconhece a HQ.
Cortes de personagens e tramas paralelas
Nem todos os elementos dos quadrinhos ganharam espaço no filme. McTeigue revelou que figuras como Helen Heyer foram descartadas, assim como desvios narrativos envolvendo o vilão Creedy. A decisão, segundo ele, visava “pegar a essência” e evitar becos sem saída dramáticos que atrasariam a ação principal.
Imagem: Divulgação
Ao eliminar o chamado “C plot”, a montagem ganhou ritmo de thriller político — termo que também descreve a expectativa em torno de Duna: Parte Três, cujos trailers prometem batalhas sangrentas e intrigas de poder. No caso de V de Vingança, a limpeza estrutural permitiu criar oposição nítida entre governo totalitário e insurgência, recurso importante para conquistar um público internacional que talvez não estivesse familiarizado com as nuances anárquicas da HQ.
Impacto cultural e retorno de bilheteria
Lançado em 2006, o longa arrecadou US$ 134,7 milhões contra orçamento de US$ 50 milhões. O número impressiona, mas chama ainda mais atenção a longevidade simbólica: a máscara de V tornou-se ícone de movimentos como Occupy Wall Street e Anonymous, prova de que a mensagem antiautoritária ultrapassou a bilheteria inicial.
A adaptação também consolidou McTeigue como diretor após sua experiência na segunda unidade de Matrix. A confiança do estúdio, ele conta, veio de um roteiro “muito bom” que não sofreu ingerências políticas. O resultado? Um cult que conversa com diferentes gerações e encontra novo fôlego no relançamento em alta definição.
Vale a pena revisitar V de Vingança?
Seja pela performance hipnótica de Hugo Weaving, pelo trabalho visceral de Natalie Portman ou pela direção segura de McTeigue, V de Vingança mantém vigor raro após 20 anos. As podas narrativas, longe de empobrecer, tornaram a história mais acessível sem trair o espírito rebelde da HQ. Para fãs de adaptações bem-sucedidas — e para quem busca refletir sobre poder e resistência — a nova versão em 4K oferece motivo de sobra para apertar o play.
