Jujutsu Kaisen Modulo chega quase sete décadas após os eventos do arco Shinjuku Showdown e, logo de cara, muda por completo o tabuleiro planejado por Gege Akutami. A nova aventura aposta em descendentes de protagonistas clássicos e em uma raça alienígena, os Simurianos, para injetar fôlego na franquia.
Apesar do frescor no elenco de protagonistas, a série acumulou críticas por abandonar combates decisivos, apressar viradas dramáticas e desperdiçar figuras queridas do universo original. A seguir, destrinchamos como direção, roteiro e atuações em voz (no caso do anime) acertam e onde derrapam.
Elenco de vozes entrega vigor, mas carece de espaço dramático
Tsurugi e Yuka Okkotsu carregam a tocha deixada por Yuta e Maki, e seus dubladores — ainda sem nomes confirmados oficialmente — entregam energia juvenil que dialoga bem com a estética frenética da animação. A dicção firme nas cenas de embate valoriza cada movimento coreografado pelo estúdio MAPPA.
O problema surge quando o roteiro impede esses intérpretes de evoluírem suas nuances. Yuka deveria sustentar o peso moral da trama, porém tem seus dilemas cortados pela montagem acelerada. Já Maru e Cross, irmãos Simurianos pensados para funcionar como contraponto emocional, ganham carisma instantâneo, mas perdem profundidade quando o texto decide resolver conflitos a toque de caixa.
Direção alterna momentos de brilho e pressa excessiva
Ryohei Takeshita encabeça a equipe de diretores listada nos créditos. Ele orquestra batalhas cheias de enquadramentos ousados, dignas da criatividade que tornou a primeira série um fenômeno. O duelo inicial entre Mahoraga e Dabura é prova disso: câmera giratória, cortes secos e trilha grave transformam cada golpe em espetáculo.
Entretanto, a mesma direção que empolga falha no timing narrativo. Quando Dabura é retirado de cena por Maru, o clímax é interrompido abruptamente, gerando uma anticlimática sensação de propaganda enganosa. O efeito repete-se mais tarde com entradas e saídas relâmpago de Yuji Itadori, agora adulto e muito mais cético. A falta de transição enfraquece a própria mise-en-scène que Takeshita havia estabelecido.
Roteiro de Hiroshi Seko mantém temas centrais, mas perde o fio
A caneta de Seko traduz as ideias de Akutami com eficiência quando o tema é o choque entre herança e mudança. A inclusão dos Simurianos renova a discussão sobre energia amaldiçoada e preconceito, espelhando conflitos humanos contemporâneos.
Imagem: Rei Penber/GameRant
Contudo, a pressa em encerrar subtramas, algo que o próprio mangá sofreu, fica ainda mais evidente no audiovisual. O roteiro planta a promessa de união definitiva entre humanos e Simurianos, mas resolve tudo em minutos graças à técnica “quebra-galho” de Maru. Consequências, luto e reconstrução ficam de fora, e a suspensão de descrença despenca — sensação semelhante à provocada pelos famosos “fake deaths” que frustraram leitores do material original.
Cenas de ação compensam furos, mas não salvam o conjunto
MAPPA usa e abusa de seu know-how em animação de impacto, principalmente nas sequências que envolvem a técnica dos Dez Sombras de Yuka. O Divino General Mahoraga surge em tela com riqueza de detalhes, e cada adaptação do monstro a novos ataques é pontuada por sakugas de encher os olhos.
O espetáculo, porém, não basta para mascarar lacunas. Sem tempo para desenvolver a jornada interna de Yuji — agora mero gatilho para a habilidade de Maru —, o script recorre a diálogos expositivos que destoam da intensidade visual. Para quem se empolgou com viradas finamente lapidadas em animes como Black Clover, a sensação é de que faltou lapidação dramática aqui.
Vale a pena assistir?
Jujutsu Kaisen Modulo oferece animação soberba, dublagem inspirada e discussões pertinentes sobre legado, mas tropeça em conclusões apressadas e em personagens reduzidos a peças de xadrez narrativo. Para fãs que buscam apenas cenas de combate de tirar o fôlego, a experiência vale o ingresso; quem espera o mesmo equilíbrio entre ação e emoção que consagrou a obra original pode sair decepcionado. Ainda assim, é um título que mantém viva a marca Jujutsu Kaisen — e, claro, rende assunto suficiente para longas conversas no Salada de Cinema.



