Paixão avassaladora, mentiras bem guardadas e um cadáver irreconhecível encontrado em uma banheira: 56 Dias (56 Days) entrega todos os ingredientes de um suspense erótico capaz de prender o público em frente à tela.
Lançada no Prime Video em 18 de fevereiro de 2026, a minissérie de oito capítulos ganha força principalmente graças à performance magnética de Dove Cameron, ainda que o texto balance entre dois núcleos de qualidade distinta.
Enredo dividido engole a tensão
A trama acompanha dois tempos distintos. No passado, Ciara Wyse (Cameron) mergulha de cabeça em um romance fulminante com Oliver Kennedy (Avan Jogia) logo após um encontro casual no mercado. Cinquenta e seis dias depois, a polícia encontra um corpo destruído na banheira do apartamento de Oliver, sem pistas claras sobre a identidade da vítima.
No presente, os detetives Karl Connolly (Dorian Missick) e Lee Reardon (Karla Souza) tentam decifrar quem morreu e quem matou, enquanto lidam com seus próprios traumas. A proposta de narrativa dupla é ambiciosa, mas o desequilíbrio salta aos olhos: o jogo de atração e segredos do casal desperta muito mais curiosidade do que o procedural policial que se passa quase todo em um único dia.
Direção de Alethea Jones busca ritmo entre paixão e crime
Responsável pelos oito episódios, Alethea Jones precisa costurar o roteiro de Lisa Zwerling, Karyn Usher e da autora do livro original, Catherine Ryan Howard. A diretora até encontra momentos de pura eletricidade — sobretudo quando Ciara e Oliver testam limites de confiança —, mas perde fôlego ao alternar para a investigação, menos inventiva em termos visuais e dramáticos.
A ambientação em Boston, e não mais na Dublin em quarentena do romance, elimina a pandemia da equação; a escolha simplifica a logística de produção e evita o cansaço temático. Ao mesmo tempo, força soluções mais engenhosas para que Ciara se mude tão rápido para o apartamento de Oliver, adicionando outra camada de mentira ao relacionamento.
Elenco torna o jogo de segredos mais envolvente
Dove Cameron domina a tela. A atriz alterna com naturalidade entre a doçura aparente da jovem apaixonada e a frieza calculista de quem persiste num plano oculto. Seu carisma sustenta até os diálogos mais expositivos, impedindo que o clima de novela criminal descarrile.
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Avan Jogia, por sua vez, imprime em Oliver um desconforto constante, como se o personagem estivesse sempre à beira de revelar algo sombrio. Também merece destaque Kingston Rumi Southwick, que interpreta Oliver mais jovem em flashbacks e reforça o subtexto de culpa. Já Dorian Missick transforma Connolly no rosto mais simpático da polícia, enquanto Karla Souza capta bem a exaustão de quem equilibra carreira e vida familiar — dupla que lembra, em tom contemporâneo, a química vista na clássica sitcom policial dos anos 1970.
Essa soma de interpretações eleva temas pontuais sobre privilégio socioeconômico e obsessão, ainda que o roteiro não aprofunde nenhuma discussão com o mesmo vigor que dedica aos cliffhangers.
Mudanças do livro para a tela e o impacto no suspense
Ao abandonar o confinamento pandêmico, a série ganha liberdade para explorar espaços abertos de Boston, mas renuncia ao isolamento nervoso que marcava o romance. O ajuste pede criatividade extra para justificar cada passo de Ciara — e a atriz se aproveita disso para rechear a personagem de nuances.
Já o arco investigativo, limitado a poucas horas, carece de surpresas e gira em círculos até o penúltimo episódio, quando pistas dos flashbacks finalmente se conectam ao presente. A reta final, ainda assim, entrega resolução coerente e fecha pontas soltas, evitando a decepção comum a tantos thrillers. O resultado lembra o efeito de uma nova aposta do Prime Video: irregular, porém suficientemente viciante para uma maratona de fim de semana.
Vale a pena assistir 56 Dias?
56 Dias garante entretenimento para quem busca tensão sexual, reviravoltas moderadas e atuações que compensam a irregularidade estrutural. A força de Dove Cameron, a direção eficaz de Alethea Jones e um desfecho satisfatório fazem da minissérie uma opção instigante no catálogo do Prime Video, ainda que fique abaixo de thrillers mais ousados já avaliados aqui no Salada de Cinema.



